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Mêncio (01)

O principal pensador da escola dos letrados depois de Confúcio foi Mêncio (Mengzi, 371 - 289), que destacou-se por suas teses inovadoras e pela profunda análise dos conceitos confucionistas. Os pontos que mais se destacam em sua obra são o estudo sobre a natureza humana e a bondade inata (questão que teria que disputar com outro confucionista, Xunzi, que acreditava na maldade inata) e a defesa de um governo devotado às causas e necessidades populares. Seu texto seria incluído ao Sishu (Quatro Livros) do Canone confucionista por sua popularidade e importância filosófica.

Extratos

LIVRO 1 - PARTE 1

CAPÍTULO I

1. Mêncio visitou o rei Huei de Liang.

2. O rei disse: "Venerável senhor, desde que para chegardes aqui não vos pareceu grande uma distância de mil lis, devo presumir que vindes provido de conselhos para proveito do meu reino?".

3. Mêncio replicou: "Porque usais, Majestade, a palavra proveito? Aquilo de que venho provido são conselhos de benevolência e de justiça (1) eis os meus únicos tópicos.

4. Majestade, se disserdes: "Que se há de fazer em proveito do meu reino?" Os dignitários dirão: Que havemos de fazer em proveito das nossas famílias?"E os subalternos, como o povo, perguntarão: "Que convém fazer em proveito de nós mesmos?" Superiores e inferiores procurarão tirar proveito uns dos outros, e o reino correrá perigo. No reino de dez mil carros, o assassino do seu soberano será o chefe duma família de mil carros. No estado de mil carros, o assassino do seu governante será o chefe duma família de cem carros. Possuir mil em dez mil e cem num milhar não pode ser considerado um quinhão mesquinho. Se, porém, se antepuser o proveito à justiça, esses bem aquinhoados não estarão satisfeitos, se não açambarcarem tudo.

5. Nunca se viu um homem afeito à clemência desamparar seus pais. Nem se mencionou jamais um homem costumado à justiça que desrespeitasse o seu soberano.

6. "Fazei igualmente, Majestade, da clemência e da justiça os vossos únicos temas; porque falais de proveito?".



CAPÍTULO II

1. Quando, no outro dia, Mêncio viu o rei Huei de Liang, este o conduziu à beira dum lago; e, olhando à roda de si os veados e os gansos bravos, disse: "Acham prazer nestas coisas os príncipes bons e sábios?"

2. Mêncio replicou: "Por serem bons e sábios é que encontram prazer nestas coisas. Se não fossem bons e sábios, embora as tivessem, não achariam prazer nelas".

3. O Livro de Poesia reza:

"Quando ele projetou começar a Torre Maravilhosa",

"Planeou-a e definiu-a";

"O povo em massa empreendeu a obra",

"E logo a terminou".

"Quando planeou o princípio, ele disse: "Não haja pressa".

"Mas todos acudiram, como se fossem filhos dele".

"O rei estava no Parque Maravilhoso",

"Onde dormem as corças",

"As corças nédias e lisas",

"O Parque Maravilhoso rutilante de pássaros brancos".

"O rei estava à beira do Lago Maravilhoso",

"Tão cheio de peixes saltitantes!"



O rei Wen aproveitou a energia do povo para levantar a sua torre e fazer o seu lago; e o povo folgava de realizar a obra, chamando à torre "Torre Maravilhosa" e ao lago: "Lago Maravilhoso"; alegrava-se de que o rei tivesse gamos, peixes e tartarugas. Os velhos incitavam os seus a folgarem como eles próprios; em conseqüência, também desfrutavam esses dons.

4. "Na Declaração de T'ang lê-se: "Ó sol, quando expirarás tu? Nós morremos contigo". Portanto, morrendo Chieh, o povo desejava morrer com ele. Embora tivesse a torre, o lago, as aves, os animais, como podia ele ter satisfação, sozinho?"



CAPÍTULO III

1. O rei Huei de Liang disse: "Apesar da minha fraca virtude, ponho todo o empenho em governar bem o meu reino. Se o ano for infausto em Ho, removo todas as pessoas que posso para leste do Ho e transporto cereais àquela região. Se o ano for mau a leste do rio, procedo, noutra parte, de acordo com o mesmo plano. Examinando os métodos governamentais, nos reinos vizinhos, não vejo soberano que se esforce como eu. Contudo, a população dos reis vizinhos não diminui; nem aumenta o meu povo. Como é isto?"

2. Mêncio replicou: "Vós prezais a guerra, Majestade. Permiti que vos trace um quadro da guerra. Os soldados avançam, ao som do tambor; e, quando o gume das suas armas se embota, eles despem as couraças, arrastam as armas atrás de si e fogem. Alguns correm cem passos e param; outros dão cinqüenta passos e param. Que pensaríeis vós, se os que só andaram cinqüenta passos se rissem dos que deram cem passos?"

O rei observou: "Eles não podem fazer isso. Os outros não alcançaram cem passos, mas também fugiram".

"- Desde que sabeis isso, Majestade", tornou Mêncio, "não tendes razão para esperar que o vosso povo se torne mais numeroso do que as populações dos reinos vizinhos".

3. "Se as estações da lavoura não forem alteradas, haverá mais trigo do que é possível comer. Se não se permitir que se mergulhem redes espessas nas lagoas, sobrarão peixes e tartarugas. Se a foice e o machado entrarem na floresta da montanha, em tempo oportuno, os bosques serão mais cerrados do que é preciso. Quando o trigo, os peixes, as tartarugas e a madeira excedem o consumo, o povo conta com o seu sustento e cuida de se preparar para a morte, sem rancor contra ninguém. Mas esta condição: ter o povo o sustento assegurado, para viver em sossego, sem ressentimento, é o primeiro passo na senda real".

4. Plantem-se amoreiras à roda das herdades, e as pessoas de cinqüenta anos poderão usar seda; se na criação de aves, de cães e de porcos, não se descurarem as épocas da procriação, as pessoas de setenta anos comerão carne. Cultivando a tempo o campo de cem acres, a família de várias bocas não sofrerá fome. Dedique-se escrupulosa atenção ao ensino nas diferentes escolas, inculcando repetidamente a noção dos deveres filial e fraternal, e não se verão nas estradas homens grisalhos, carregando fardos na cabeça ou aos ombros. Num estado, onde se observam estes resultados, jamais se viram setuagenários vestindo sedas e comendo carne, enquanto a população mais jovem sofre fome e frio; nem houve ali governante que não atingisse a dignidade real.

5. "Os vossos cães, os vossos porcos comem o alimento dos homens, e vós não sabeis acumular. Morrem criaturas humanas de fome, nas estradas; e vós não sabeis aproveitar as vossas reservas, para lhes aliviar as necessidades. Quando os homens morrem, dizeis: "A culpa não é minha; são as más colheitas". Que diferença há entre isso e apunhalar mortalmente um homem, para dizer depois: "Não fui eu; foi a arma"? Deixai, Majestade, de lançar a culpa às colheitas escassas, e instantaneamente todas as criaturas que vivem debaixo do céu virão a vós.



CAPÍTULO IV

1. O rei Huei de Liang disse:

"Desejo receber sossegadamente os vossos ensinamentos".

2. Mêncio replicou: "Há diferença entre matar um homem com um pau e matá-lo com uma espada?"

"Não há diferença", respondeu o rei.

3. Mêncio continuou: "Há diferença entre matar com a espada e matar com medidas governamentais?"

"Não há" - replicou de novo o rei.

4. Então, Mêncio disse: "Tendes, nos vossos estábulos, animais bem tratados; nas vossas estrebarias, os cavalos são nédios. Mas o vosso povo parece esfomeado; e jazem nos campos os que pereceram à míngua. Isto eqüivale a levar os animais a devorarem os homens".

5. "Os animais se entredevoram, e isto os torna odiosos aos olhos dos homens. Quando o que é cognominado pai do povo orienta o seu governo, de modo que se lhe possa atribuir a culpa de levar os animais a devorarem os homens, onde está a relação paternal com o povo?"

6. "Chung-ni" (2) disse: "Não ficou sem posteridade o primeiro que fez imagens de madeira, para as enterrar com o morto?"

"O rei dizia isso, porque esse homem recortava imagens humanas e usava-as para aquele fim".

"Que se há de pensar, então, do que deixa o seu povo morrer de fome?"



CAPÍTULO V

1. O rei Huei de Liang disse: "Não havia no reino, como sabeis, venerável senhor, estado mais forte do que Ch'in. Mas, desde que ele se tornou meu vassalo, fomos derrotados a leste por Ch'i, onde pereceu o meu filho mais velho; no oeste, perdemos setecentos lis de território, a favor de Ch'in; ao sul, sofremos desastres, por obra de Ch'u. Eu desonrei os meus predecessores mortos; por amor deles, desejo delir de vez esta vergonha. Que normas devo seguir para alcançar o meu fim?"

2. Mêncio replicou: "Já se obteve a dignidade real apenas com um território de cem lis quadrados".

3. "Se outorgardes realmente ao povo um governo benévolo, Majestade, usando moderadamente os castigos e as sanções, aliviando as taxas e as dízimas em frutos, obtereis que os campos sejam bem lavrados e mondados, conseguireis que os homens válidos cultivem, nos momentos de lazer, a piedade filial, o dever fraterno, a lealdade, a verdade, servindo portanto, em casa, os pais e os irmãos mais velhos, e fora os mais idosos e os superiores. Tereis então súditos que podereis empregar, com os cajados feitos por eles, contra as fortes couraças e as armas afiadas das tropas de Ch'in e Ch'u?

4. "Os soberanos daqueles estados tiram ao povo o seu tempo, de modo que os súditos não podem arar e mondar os campos, para sustentarem os seus. Os pais sofrem frio e fome; os irmãos mais velhos e mais novos, as esposas e os filhos separam-se e dispersam-se fora do lar".

5. "Aqueles soberanos arremessam os seus povos a armadilhas ou arrastam-nos à água. E vós ireis castigá-los, Majestade. Neste caso, quem se vos oporá, Senhor?".

6. "Daí deriva o provérbio; "O bom não tem inimigos". Rogo-vos, Majestade, que não duvideis do que disse".



CAPÍTULO VI

1. Mêncio teve uma entrevista com o rei Hsiang de Liang

2. Ao sair, disse a algumas pessoas: "Quando eu o observava de longe, ele não me parecia um soberano. Vendo-o de perto, não notei nele nada de venerável. E ele perguntou-me de súbito: "Como pode estabelecer-se o reino debaixo do céu?"

3. "Eu respondi: "Estabelece-se, unindo-se sob uma autoridade".

4. "Quem o pode unir assim?" Perguntou o rei.

5. "Quem não tiver prazer em matar os homens", repliquei eu, "saberá uni-los assim".

6. "Quem o dará aos homens?" Tornou ele.

7. "Eu repliquei: "O que está debaixo dos céus o dará a esse homem. Sabeis, Majestade, de que modo medra o trigo? Durante o sétimo e o oitavo mês, quando prevalece a estiagem, a planta seca. Depois, as nuvens se acumulam densamente no céu e despejam torrentes de chuva; então o trigo levanta-se de repente. Quando brota assim, quem o poderia fazer voltar atrás? Ora, em todo o reino, entre os que são pastores dos homens, não há um só que não folgue de matar os seus semelhantes. Se houver um que tenha prazer nisso, todos os seres, sob o céu, cravarão os olhos nele. Assim sendo, os homens o procurarão, como a água desce impetuosamente, rio abaixo, com uma violência que ninguém pode reprimir".



CAPÍTULO VII

1. O rei Hsüan de Ch'i perguntou: "Posso ser informado por vós das transações de Huan de Ch'i e Wen de Chin?"

2. Mêncio replicou: "Nenhum dos discípulos de Chung-ni tratou dos feitos de Huan e Wen; em conseqüência, eles não foram transmitidos aos pósteros; este vosso servo não ouviu falar deles. Se desejardes ouvir-me, deixe-me discorrer sobre os princípios adequados para atingir a autoridade real".

3. Disse o rei: "De que espécie devem ser as virtudes do que pode atingir a dignidade real?"

"Se ele amar e proteger o povo," respondeu Mêncio, "é impossível obstar a que ele a alcance".

4. "Um pobre mortal como eu" tornou o rei, "é competente para amar e proteger o povo ?" "Sim".

"Como sabeis que sou competente para isso?"

"Ouvi Hu Heh contar o episódio seguinte", replicou Mêncio. "O rei", disse ele, "estava sentado no terraço, quando apareceram alguns indivíduos, em baixo, guiando um touro. O soberano viu-os e perguntou aonde levavam o animal. Responderam-lhe: "Vamos consagrar um sino com o sangue dele". "Soltem esse touro", tornou o rei; "não lhe posso ver a cara assustada de criatura inocente, arrastada ao matadouro. "Os outros perguntaram-lhe, então, se deviam desistir de consagrar o sino. O rei, porém, replicou: "Como é possível? Troquem o touro por um carneiro". Não sei se este episódio aconteceu realmente".

5. "Aconteceu", confirmou o rei.

E Mêncio replicou: "A bondade, que transparece nesse gesto, é suficiente para elevar-vos à dignidade real. O povo supôs que vós recusáveis o touro; mas os vossos servidores sabiam com certeza, Majestade, que não podíeis suportar a vista do sofrimento dum ser vivo, e que isso vos induziu a fazer o que fizeste".

6. "Tendes razão", disse o rei. "Contudo, houve realmente uma aparência do que o povo imaginou. Mas embora Ch'i seja estreito e pequeno, como podia eu negar um touro? Foi, em verdade, porque não pude resistir ao terror dele, ao seu aspecto de criatura inocente, enviada ao matadouro, que o substitui por um carneiro".

7. Disse Mêncio: "Não estranheis, Majestade, se o povo julgou que lhe negáveis o touro. Vendo-vos trocar um animal grande por outro menor, como podiam os vossos súditos adivinhar o motivo? Se tínheis pena de ver um ser vivo, enviado sem culpa ao matadouro, porque escolhíeis entre um touro e um carneiro?"

O rei riu-se e observou:

"Em que pensava eu, na verdade? Não regateava o valor do touro; contudo, mandei substitui-lo por um carneiro. O povo tinha razão, em dizer que mostrei má vontade".

8. "Não há mal em que eles digam isso, retorquiu Mêncio. "Foi um artifício da clemência. Vós vistes o touro e não vistes o carneiro. Assim, o homem superior tem tamanho interesse aos animais que, se os vir vivos, não conseguirá comer-lhes a carne. Por este motivo, conserva-se afastado do estábulo e da cozinha.

9. O rei mostrou-se satisfeito e tornou:

"A Ode (3) diz":

"Graças à reflexão, posso avaliar".

"O que os outros homens têm na mente".

"Isto poderia ser-nos aplicado, Mestre. Pratiquei aquele ato; mas, meditando-o, não percebi o meu próprio intuito. Quando pronunciastes essas palavras, Mestre, os movimentos da compaixão começaram a lavrar em mim. Como pode, porém, este ato de bondade equivaler à consecução da dignidade real?"

10. "Suponde, senhor," disse Mêncio, "que um homem vos declare: "A minha força é suficiente para levantar três mil "catty" (4), mas insuficiente para erguer uma pena; a minha vista é bastante aguçada para examinar a ponta dum cabelo; contudo, não vejo um carregamento de lenha"; acreditaríeis no que ele diz, Majestade?"

"Não", replicou o rei.

"Ora", continuou Mêncio, "no nosso episódio, há bondade suficiente para poupar os animais; todavia os benefícios dessa bondade não se estendem ao povo. Como é isto? Trata-se acaso duma exceção? A verdade é que não se ergue a pena, porque não se empregou a força; não se viu a carroçada de lenha, porque não se exerceu a visão; e o povo não é amado e protegido, porque não se usou a bondade. Logo, Majestade, não atingis a dignidade real, porque não vos empenhais em alcançá-la, e não porque sejais inepto para a conseguir".

11. "Como se pode exemplificar a diferença entre o que não faz uma coisa e o que é incapaz de fazê-la?" perguntou o rei.

E Mêncio replicou: "Suponhamos que quisésseis levar a montanha de T'ai debaixo do braço, para atravessardes com ela o mar setentrional; se disserdes ao povo: "Não sou capaz de fazer isto, a vossa incapacidade tem um motivo real. Se um superior vos mandar quebrar um galho de árvore, e vós disserdes ao povo: "Não sou capaz de fazer isto", não será um caso de incapacidade. Do mesmo modo, Majestade, não é o caso de carregar a montanha de T'ai que vos inibe de atingir a dignidade real, e sim o de quebrar o galho duma árvore.

12. "Tratai com o respeito devido à velhice os anciãos da vossa família, para que nas demais famílias os velhos sejam tratados da mesma maneira. Dispensai a bondade devida à juventude aos moços da vossa família, para que os das outras famílias recebam o mesmo tratamento. Procedei assim, e o reino girará em torno da palma da vossa mão. Lê-se no Livro de Poesia":

"O seu exemplo agiu na esposa",

"Estendeu-se aos irmãos",

"E foi sentido em todos os clãs e estados".

"Daí vemos que o rei Wen era espontaneamente magnânimo e estendia a sua bondade aquelas partes do seu reino. Logo, a manifestação da grandeza de alma dum soberano bastará para garantir amor e proteção a tudo o que abrangem os quatro mares; e, se ele não a exercer, não será apto para proteger a sua esposa e os seus filhos. O modo como os antigos conseguiam sobressair dentre os seus semelhantes não era senão agir escrupulosamente segundo o bem, granjeando assim o interesse alheio. Ora, a vossa bondade basta para alcançar os animais; todavia, os seus benefícios não se estendem aos homens. Como é isto? Trata-se, acaso, duma exceção?".

13. "A pesagem habilita-nos a distinguir os corpos leves dos pesados; a medida nos dá idéia das extensões longas e curtas. Todas as coisas podem ser tratadas por esse método, e o bom senso requer particularmente que seja assim. Valei-vos Majestade, desse meio de avaliação".

14. "Vós acumulais os vossos equipamentos de guerra, Majestade, arriscais o vosso exército e provocais os ressentimentos dos vários príncipes. Parece-vos que essas coisas vos possam causar prazer".

15. O rei disse: "Não. Como poderia eu haurir satisfação de tais coisas? O meu objetivo, é procurar, por meio delas, o que desejo intensamente".

16. "Posso ouvir, Senhor, o que desejais intensamente?"

O rei sorriu e não respondeu.

"Ambicionais acaso", continuou Mêncio, "porque não tendes suficiente riqueza ou iguarias para a vossa boca? Ou porque vos faltem luz e calor para o vosso corpo? Ou careceis de coisas belas e coloridas, para vos alegrarem os olhos? Ou não contais bastantes servos e favoritas para vos rodearem e receberem as vossas ordens? Os vossos funcionários, Majestade, bastam para vos suprirem de todas essas coisas. Como podeis ter semelhante desejo por causa deles?"

"Não" disse o rei; "o meu desejo não lhes concerne".

"Então", observou Mêncio, "é fácil adivinhar o que desejais intensamente, Majestade. Aspirais a dilatar os vossos territórios, a ter Ch'in e Ch'u por vassalos, a governar os estados centrais, a atrair para vós as tribos bárbaras que os cercam. Mas agirdes, como fazeis, à procura do que desejais, é como trepar numa árvore, em busca de peixe".

17. "Será tão mau assim?" Redargüiu o rei.

"Temo que seja pior", foi a resposta. Se subirdes a uma árvore à procura de peixe, embora não o encontreis, não sofrereis outras calamidades. Se, porém, procederdes, como tendes feito, para encontrar o que desejais, empenhando-vos de coração, ides sem dúvida, ao encontro de desastres.

"Posso saber", perguntou o rei, "quais serão estes?"

Replicou Mêncio: "Se o povo de Tsou lutasse com o de Ch'u, qual dos dois, na opinião de Vossa Majestade, seria o vencedor?"

"Venceria o povo de Ch'u", respondeu o rei.

"Em conseqüência", prosseguiu Mêncio, "um estado pequeno não pode contender com um grande; poucos não podem lutar com muitos; nem pode o fraco afrontar o forte. O território entre os mares abrange nove divisões, cada qual de mil lis quadrados. Ch'i é uma delas. Se, com uma das partes, tentardes subjugar as outras oito, qual é a diferença entre isso e a contenda de Tsou e Ch'u? Dado o vosso desejo, para o atingirdes deveis seguir caminho inverso".

18. "Ora, Majestade, se instaurardes um governo de efeito benigno, inculcareis em todos os funcionários do reino o desejo de viver nos vossos domínios; os mercadores ambulantes e estáveis quererão vender os seus produtos nos vossos domínios; os mercadores ambulantes e estáveis quererão vender os seus produtos nos vossos mercados; os forasteiros e viandantes desejarão percorrer vossas estradas; e todos os seres opressos pelos seus soberanos sentir-se-ão impelidos a queixar-se a Vossa Majestade. Quando os dominar esse pendor, quem os fará voltarem atrás?"

19. "Sou tão obtuso", observou o rei, "que não consigo perceber isso. Mas desejo. Mestre, que me assistais nas minhas intenções. Ensinai-me claramente; e, embora me faltem inteligência e forças, folgarei de instaurar enfim um governo desse feitio".

20. Mêncio replicou: "Só os homens cultos sabem conservar o ânimo firme, se bem que não tenham a subsistência certa. O povo, pelo contrário, se lhe faltar o sustento, não há o que não faça, na senda do desânimo, da transgressão moral, da depravação, do desregramento. E, depois que os homens se desgarraram e espojaram no crime, a punição é privá-los da liberdade. Como pode tal sistema ser aplicado, sob o governo dum homem clemente?".

21. "Em conseqüência, o soberano perspicaz deve regularizar a subsistência do seu povo, assegurando-lhe em primeiro lugar o bastante para manter os pais; secundariamente, o necessário para a esposa e os filhos; cumpre fazer que, nos anos de fartura, todos sejam supridos com abundância e que, nos anos de carestia, não se exponham ao risco de perecer. Agindo assim, o rei poderá mostrar-se exigente, que os súditos procederão de acordo com o bem e obedecerão, sem vacilar".

22. "Agora, porém, a subsistência dos súditos está regulada de tal modo, que em primeiro lugar, eles carecem de meios de servirem seus pais, secundariamente, falta-lhes o necessário para manterem a esposa e os filhos; nos próprios anos de fartura, vivem amargurados; e, nos anos de carestia, correm perigo de sucumbir. Em tais circunstâncias, o seu único objetivo é escapar à morte; e eles vivem no receio de não o conseguirem... Que tempo lhes sobra para cultivarem a propriedade e a justiça?".

23. "Se desejais, Majestade, exercer um governo benigno, porque não voltais ao que é o passo essencial para o conseguir?".

24. "Plantem-se amoreiras nas herdades de cinco acres, e as pessoas de cinqüenta anos usarão seda. Se não se descurar a criação das aves, dos porcos e dos cães, as pessoas de setenta anos poderão comer carne. Cultivando o campo de cem acres, família de oito bocas não sofrerá privações. Ensine-se escrupulosamente, nas várias escolas, insistindo em inculcar os deveres filiais e fraternal, e não se verão homens grisalhos, nas estradas, carregando fardos na cabeça ou aos ombros. Nos estados onde se alcançaram esses fins, nunca se viram velhos usando sedas e nutrindo-se de carne, enquanto os moços sofrem fome e frio; nem houve governante que não atingisse a dignidade real".



LIVRO 1 - PARTE - II

CAPÍTULO 1

1. Indo visitar Mêncio, Chuang Pao disse-lhe: "Obtive uma audiência do rei. Sua Majestade falou-me do seu amor à música, e eu não estava preparado a responder-lhe. Que direis vós sobre o amor da música?"

"Se o rei prezasse deveras a música", disse Mêncio, "o reino de Ch'i estaria na iminência de ser bem governado".

2. Noutra ocasião, Mêncio obteve audiência do soberano e disse: "O funcionário Chuang falou-me do vosso amor da música, Majestade. É deveras tão grande?"

O soberano mudou de cor e respondeu:

"Sou incapaz de prezar a música dos antigos reis. Gosto apenas da que se adapta aos usos do nosso tempo".

3. Mêncio replicou: "Se o vosso amor da música, Majestade, for deveras grande, creio que Ch'i, está na iminência de ser bem governado. Para este efeito, a música atual equivale à música da Antigüidade".

4. Tornou o rei: "Posso ter uma prova do que dizeis?"

"Que é mais agradável?" Respondeu-lhe o seu interlocutor. "Ouvirdes música sozinho ou em companhia de outrem?"

"Em companhia de outrem", respondeu o rei.

5. "Permitis, Senhor", prosseguiu Mêncio, que o vosso servo vos fale de música?

6. "Admitamos, Majestade, que tenhais música aqui. O povo ouve o som dos vossos tímpanos e tambores, as notas dos vossos pífaros e flautas; e todos, com a cabeça dorida, contraindo os sobrolhos, comentam: "O nosso soberano gosta de música; mas porque nos reduz a esta extrema penúria? Os pais não vêem os filhos; os irmãos mais velhos, as esposas, as crianças separam-se e dispersam-se fora do lar".

"Depois estareis caçando. Majestade. O povo escuta o fragor das carruagens e da cavalgada; vê a beleza das vossas plumas e galhardetes. E todos observam, tristes e amuados: "Como o nosso rei preza a caça! Mas porque nos reduz a esta miséria? Os pais separados da prole; os irmãos, as esposas, os filhos, dispersos fora do lar". E esse azedume não tem outra causa senão que vós não outorgais ao povo a oportunidade de folgar como vós.

7. "Agora, suponhamos que tenhais música aqui, Senhor. Ouvindo os sons dos vossos instrumentos, todos exclamam, satisfeitos, trocando olhares alegres: "Ao que parece, o nosso rei está livre de tristezas! Que linda música nos faz ouvir!" Ou estais caçando, Majestade; o povo admira a pompa da vossa comitiva; e os vossos súditos dizem, contentes: "Ao que parece. O nosso rei não tem preocupações. Como sabe caçar!" E isto, só porque permitis que o povo participe dos vossos passatempos.

8. "Se vos divertirdes em comum, com o vosso povo, a dignidade real aguarda-vos".



CAPÍTULO II

1. O rei Hsüan de Ch'i perguntou: "É verdade que o parque do rei Wen media setenta lis quadrados?"

"Assim está nos Anais", respondeu Mêncio.

2. "Era, pois, tão vasto?" Tornou o rei.

"O povo ainda o julgava pequeno", replicou Mêncio.

"O meu parque", ponderou o soberano, "abrange só quarenta lis quadrados e o povo o considera grande. Como é isto?"

"O parque do rei Wen media setenta lis quadrados: mas os jardineiros, os lenhadores tinham o privilégio de freqüentá-lo, juntamente com os caçadores de faisões e de lebres. O rei partilhava-o com o novo; não era com razão que o achavam estreito?"

3. "A primeira vez que cheguei às vossas fronteiras, antes de aventurar-me na região, informei-me acerca das grandes ordenações proibitórias; soube assim que, além dos portões da divisa, havia um parque de quarenta lis quadrados, e quem abatesse nele, um gamo, grande ou pequeno, incorreria em crime equivalente ao de matar um homem. Em conseqüência, esses quarenta lis quadrados são uma armadilha, no meio do reino. Não é com razão que o povo a considera vasta?"



CAPÍTULO VII

1. Por ocasião da sua visita ao rei Hsüan de Ch'i, Mêncio disse ao soberano:

"Quando os homens falam dum "reino antigo", não aludem a uma terra de árvores altas, mas a uma nação que, desde gerações, conte ministros de estirpes ilustres. Vós, Majestade, não tendes intimidade com os vossos. Os que promovestes ontem foram-se hoje, e vós nem o sabeis".

2. "Como hei-de saber se são ineptos?" Indagou o rei. "E como posso abster-me de empregá-los?"

3. Mêncio respondeu: "Só em caso de necessidade, um soberano nomeia, para um cargo, novos funcionários de talentos e virtude. Se, em razão disso, pode o medíocre sobrepujar o homem digno de estima e os estranhos suplantarem os parentes, não deve o rei proceder com cautela?".

4. "Embora todos os que vos cercam digam de alguém: "É homem de talento e virtude", não os acrediteis imediatamente. Ainda que os vossos dignitários afirmem: "Ele é homem de talento e virtude", não lhes deis ouvidos, sem refletir. Quando todo o vosso povo clamar: "Eis um homem de talento e virtude", examinai o caráter desse homem; se achardes que é de fato o que o proclamam, empregai-o. Se todos os que vos rodeiam disserem: "Ele não satisfaz", não os escuteis. Se os vossos dignitários sustentarem: "Ele não satisfaz", não os escuteis igualmente. Se todo o vosso povo opinar: "Ele não satisfaz", então examinai o caráter desse homem; e, se averiguardes que não satisfaz, dispensai-o, Senhor.

5. "Se os que vos cercam disserem: "Esse homem merece a morte", não lhes deis ouvido. Se os vossos dignitários repetirem: "Esse homem merece a morte, "também não os escuteis. Se todo o vosso povo bradar: "Esse homem merece a morte", examinai o caso; e, se vos persuadirdes de que o homem merece a morte, condenai-o. É por isso que temos a sentença: "O povo o leva à morte".

6. "Procedei assim, e seras o pai do povo".



CAPÍTULO VIII

1. O rei Hsüan de Ch'i perguntou: "É exato que T'ang baniu Chieh, e o rei Wu executou Chou?"

"Assim rezam os Anais", respondeu Mêncio.

2. "Pode um súdito condenar à morte o seu soberano?" Inquiriu o rei.

3. "O que ultrajar a clemência, chama-se bandido" (5), replicou Mêncio. "O que ofende a justiça faz jus ao título de celerado. É ao indivíduo que chamamos bandido e celerado. Sei da eliminação do indivíduo Chou (6); no seu caso, não ouvi dizer que se condenara à morte um soberano".



CAPÍTULO X

1. O povo de Ch'i atacou e conquistou Yen.

2. O rei Hsüan perguntou: "Uns aconselham-me a não tomar posse de Yen; outros alvitram o contrário. Realmente, o fato dum reino de dez mil carros haver atacado outro do mesmo poder, consumando a conquista, em cinqüenta dias, é façanha superior à mera força humana. Se eu não me apossar de Yen, as calamidades do Céu descerão, sem dúvida, sobre mim. Que vos parece?"

3. Mêncio replicou: "Se o povo de Yen concordar em que vos assenhoreeis dele, tomai posse da região. Houve, entre os antepassados, quem procedesse assim, especialmente o rei We".

4. "Se, com o poder do vosso reino de dez mil carros, atacastes outro reino da mesma força, e o seu povo vem ao encontro do exército de Vossa Majestade, com cestos de arroz e cumprimentos, que razão o pode mover, senão a esperança de escapar ao fogo e à água? Se tomardes a água mais funda (7), e o fogo mais violento, eles farão em troca outra revolução".



CAPÍTULO XI

1. Como o povo de Ch'i acometeu e tomou Yen, os outros príncipes propuseram tomar as medidas necessárias para libertar Yen. E disse o rei Hsüan: "Desde que numerosos príncipes projetam atacar-me, como devo preparar-me para isso?"

Mêncio replicou: "Sei de alguém que, com setenta lis, ditava ao reino inteiro; nunca, porém, ouvi dizer que um soberano com mil lis tivesse medo de outros".

2. O Livro de História diz: "Quando T'ang iniciou a sua obra de punição, deu-lhe princípio com Ko. Todos confiavam nele. Quando a obra se estendeu ao leste, as tribos selvagens do oeste murmuraram. Quando foi a vez do sul, as do norte murmuraram: "Por que nos deixa ele para o fim ?" reclamaram todos. E o povo fitava os olhos nele, como em períodos de forte estiagem se espreitam as nuvens e o arco-íris. Os freqüentadores dos mercados não paravam; os lavradores não faziam barganhas. Ao mesmo tempo que eliminava os soberanos, T'ang confortava o povo. A sua passagem era como chuva benfazeja, e todos alegravam-se. Lê-se ainda no Livro de História: "Esperávamos há muito o nosso príncipe; a sua chegada é a nossa ressurreição".

3. "Ora, o soberano de Yen tiranizava o seu povo e vós, Majestade, o puniste. O povo supôs que o íeis livrar da água e do fogo, e correu ao encontro das hostes de Vossa Majestade com cestos de arroz e cumprimentos. Mas vós lhe matastes os pais e os irmãos mais velhos, agrilhoastes os filhos e os irmãos mais novos. Arrasastes o templo ancestral dos soberanos, e mandastes despojá-lo dos seus vasos preciosos. Como se pode admitir tal sistema? Já antes, os outros estados do reino temiam o poder de Ch'i; agora, que dobrastes o vosso território, se não governardes com clemência, o reino se erguerá em armas contra vós".

4. "Se vos apressardes a publicar um decreto, alforriando os cativos jovens e velhos, e sustando a remoção dos vasos sacros, se consultardes o povo de Yen e, de acordo com ele, lhe escolherdes um novo soberano, retirando-vos em seguida da região, ainda podeis conjurar o ataque ameaçado".



CAPÍTULO XII

1. Ocorreu uma escaramuça entre algumas tropas de Tsou e de Lu; referindo-se a essa peleja, perguntou o duque Mu: "Tombaram trinta e três dos meus oficiais e nenhum plebeu quis morrer em defesa deles. Se eu tiver de condenar à morte, é impossível estender a minha ação a tamanho número; se eu não pronunciar a sentença, ficará impune o crime de assistir o povo, com olhos malévolos, à morte dos seus oficiais, sem os salvar. Como convém afrontar as exigências do caso?"

2. Replicou Mêncio: "Em anos de calamidades e anos de carestia, os velhos encontrados, exânimes, nos valos e nos canais e os homens válidos dispersos aos quatro ventos, subiram a milhares. Entretanto, ó príncipe, os vossos celeiros transbordavam de arroz e d'outros cereais; as vossas tesourarias e arsenais estavam repletos; mas nenhum dos vossos oficiais vos informou da penúria. Bem negligentes e cruéis com os inferiores têm sido, no vosso Estado. Os superiores! O filósofo Tseng diz: "Cuidado! Cuidado! O que vem de vós a vós reverte". Afinal, o povo teve a oportunidade de retribuir-lhes o procedimento. Não o censureis, ó príncipe.

3. "Se praticásseis um governo benigno, o povo prezaria acima de tudo os seus oficiais e morreria por eles".



LIVRO II - PARTE I

CAPÍTULO VI

1. Disse Mêncio: "Todos os homens são dotados dum coração (8) que não suporta a vista dos sofrimentos alheios".

2. "Os antigos reis tinham esse senso da compaixão e exerceram assim um governo magnânimo (9). Quando, com um coração compassivo, se pratica um governo magnânimo, instaurar a ordem, debaixo do céu, é tão fácil como fazer girar um pequeno objeto na palma da mão".

3. "O princípio em que me baseio, para dizer que todos os homens são dotados dum coração, que não suporta a vista da dor alheia, é este: "Ainda hoje, quando vêem de súbito uma criança prestes a cair num poço, os homens experimentam um sentimento de alarma e de dó. Não o sentem, porque possam granjear assim as boas graças dos pais nem porque aspirem ao louvor dos seus vizinhos e amigos, ou por desdém da reputação de ser indiferente a semelhante coisa (10).

4. "Considerando positivamente este caso, veremos que carecer desse senso da aflição não é humano, como não é humano ser destituído do senso da vergonha e do desdém, do senso da modéstia e da condescendência, do senso da aprovação e da reprovação (11)".

5. "O sentimento de angústia é o princípio de clemência; o senso da vergonha é o princípio de justiça; o senso da modéstia, e da condescendência é o princípio da correção; e o senso de aprovação e reprovação é o princípio de discernimento".

6. "Os homens são dotados destes quatro princípios, exatamente como têm, de nascença, quatro membros. Quando os homens dotados desses quatro princípios dizem de si próprios que não podem manifestá-los, defraudam-se (12) a si mesmos; e quem o disser do seu soberano, ultraja o seu soberano".

7. "Desde que todos nós somos dotados desses quatro princípios, cumpre-nos desenvolvê-los e aperfeiçoá-los; e o resultado será como o do fogo que principiou a arder ou o da fonte que começou a jorrar. Deixemo-los chegarem ao pleno desenvolvimento, e eles serão suficientes para amar e proteger tudo, no âmbito dos quatro mares; se lhes negarmos este desenvolvimento, não bastarão para fazer que um homem ampare seus pais".



LIVRO II - PARTE II

CAPÍTULO I

1. Disse Mêncio; "As oportunidades de tempo, outorgadas pelos Céus, não igualam as vantagens de situação oferecidas pela terra; e as vantagens de situação, proporcionadas pela terra, não equivalem à força que deriva da concórdia dos homens (13)".

2. "Imaginemos uma cidade, com um muro interior de três lis de circunferência e outra muralha de sete lis. O inimigo põe-lhe assédio e ataca-a; não consegue toma-la. Ora, para a sitiar e atacar, o Céu deve ter outorgado ao agressor oportunidade de tempo; neste caso, se ele não conquistou a cidade, é que as oportunidades de tempo, concedidas pelo Céu, não igualam as vantagens de situação, oferecidas pela terra".

3. "Consideremos outra cidade de muros altos, rodeada de fossos tão fundos quanto se pode desejar, uma cidade onde as armas e as cotas de malha dos defensores se distinguem pela resistência e pelo gume cortante, onde os celeiros transbordam de arroz e trigo. Contudo, esta cidade capitulou e foi abandonada - isto, porque as vantagens de situação, oferecidas pela terra, não equivalem à força que deriva da concórdia dos homens".

4. "De acordo com estes princípios, foi dito: "A coesão dum povo não depende dos limites de diques e fronteiras; um estado não é garantido pela força das montanhas e dos cursos d'água; o reino não se faz respeitar pelo fio aguçado das suas armas, pela resistência das cotas de malha dos seus defensores. O que encontra o caminho certo (14) há de ter muitos a assistí-lo; o que se extraviar terá poucos assistentes. Quando esta última condição chegar ao extremo, os próprios parentes e familiares do rei sublevam-se contra ele. E, quando se elevar ao máximo a condição de ser assistido por muitos, tudo o que está sob os Céus obedece ao soberano".

5. "Quando o soberano, a quem tudo o que está debaixo dos Céus se dispõe a obedecer, pelejar com o soberano contra quem se insurgem os próprios parentes e familiares, qual será o resultado? Por isto, o verdadeiro soberano prefere não guerrear; contudo, se tiver de combater, está certo da vitória".



LIVRO III - PARTE I

CAPÍTULO III

13. O duque Wen de T'eng enviou Pi Chan informar-se acerca do sistema dos nove quadrados (15).

Disse-lhe Mêncio: "Desde que o vosso soberano, desejando pôr em prática um governo benigno, vos escolheu e confiou-vos este encargo, deveis usar de todo o vosso empenho. O governo clemente deve começar pela definição das fronteiras. Se elas não forem demarcadas cuidadosamente, a divisão do território em quadrados não seria exata, e a produção aproveitável para os salários não seria distribuída com equidade. Eis porque os soberanos opressores e os ministros impuros descuram invariavelmente a demarcação dos limites. Quando estes são definidos corretamente, a divisão dos campos e a regulamentação dos salários são fáceis de determinar".

14. "Embora o território de T'eng seja estreito e reduzido, devem existir neles homens de categoria superior e camponeses. Se não houvesse indivíduos de classe elevada, não haveria quem governasse os lavradores; se faltassem os lavradores, não haveria quem sustentasse os homens de categoria superior.

15. "Aconselho-vos a observar, em distritos puramente rurais, a divisão em nove quadrados, um deles cultivado pelo sistema do auxílio mútuo; nas terras centrais do Estado, instituí-se uma dízima a ser paga pelos próprios lavradores (16)".

16. "A partir dos supremos dignitários, tenha cada qual o seu campo santo (17) de cinqüenta acres".

17. "Os extranumerários masculinos recebam os seus vinte e cinco acres".

18. "Em ocasiões de morte ou de mudança, não haja necessidade de sair do distrito. Nos campos de cada um deles, os que pertencem aos mesmos nove quadrados oferecerão espontaneamente o seu préstimo uns aos outros; deverão ajudar-se mutuamente na vigilância e na guarda; e serão obrigados a sustentarem-se uns aos outros, em períodos de doença".

19. "Um li quadrado abrange nove quadrados de terra, e estes por sua vez contém novecentos acres. O quadrado central consta dos campos públicos; oito famílias, cada qual provida de cem acres, o cultivam juntas. E só depois de realizada a tarefa comum, poderão cuidar dos seus campos privados. É por este meio que os camponeses se diferençam dos homens de categoria superior.

20. "Eis o esboço geral do sistema. Cabe ao vosso soberano e a vós modificá-lo e adaptá-lo com acerto".



LIVRO III - PARTE II

CAPÍTULO VIII

1 . Tai Ying - chie disse a Mêncio: "Não posso instituir já a dízima e suprimir ao mesmo tempo os impostos nas barreiras e nos mercados. Com vossa licença, pretendo minorar todas as taxas extraordinárias atuais, até ao ano vindouro, quando as abolirei. Que vos parece esta resolução?"

2. Respondeu Mêncio: "Há um homem que todos os dias se apropria das aves dos vizinhos, extraviadas nas suas terras". Alguém lhe disse: "Isso não são modos dum homem de bem". E ele retrucou: "Com vossa licença, eu diminuirei as apropriações; apanharei só uma ave por mês, até ao ano vindouro; então, acabarei com este sistema".

3. "Se reconheceis que o método é injusto, abandonai-o imediatamente, Senhor. Porque haveis de esperar até ao ano vindouro?"



CAPÍTULO X

1. K'uang Chang disse a Mêncio: "Não é Ch'en Chung um homem puro e abnegado? Ele vivia em Wu- ling; passou três dias sem alimentos, a ponto de não ouvir nem ver. À beira dum poço, crescia uma ameixeira, de cujos galhos pendia um fruto meio devorado pelos vermes. Ch'en Chung trepou na árvore, procurou comer algumas ameixas e, ao cabo de três bocados, recobrou a vista e o ouvido".

2. "Entre os eruditos de Ch'i" respondeu Mêncio, "Chung é para mim como o polegar entre os dedos. Mas, assim mesmo, como se lhe pode atribuir pureza e abnegação? Aplicando os princípios que ele professa, cada um de nós se tornaria um verme da terra".

3. "Ora, um verme da terra come barro seco e bebe água turva. A casa onde vive Chung foi edificada por um "poyi" ou por um salteador como Cheh? O trigo, de que ele se nutre, foi semeado por um "poyi" ou por um ladrão como Cheh? Eis o que não é possível saber".

4. "Mas, que importa?" Insistiu Chang. "Ele calça sandálias trançadas de cânhamo; a mulher fia o cânhamo e troca-o por outras coisas".

5. "Chung pertence a uma antiga e nobre família de Ch'i", acrescentou Mêncio.

"Seu irmão mais velho recebeu de Kai uma renda de dez mil "chungs"; todavia, Ch'an considerava esses emolumentos injustos e não queria morar naquele sítio. Evitando o irmão e abandonando a mãe, mudou-se para Wu- ling. Ao cabo dum dia, voltou a casa da mãe e do irmão; sucedeu que este recebera de presente um ganso. "Que pretendeis fazer dessa coisa cacarejante?" perguntou Chung, de sobrecenho franzido. Logo depois, a mãe matou o ganso e serviu parte dele a Chung. Nesse momento, entrou o irmão, e observou: "É carne da coisa cacarejante". Ouvindo-o, Chung saiu e vomitou o que acabava de comer.

6. "Assim, ele rejeitou o que lhe dava a mãe, mas come o que lhe dá a esposa. Não quer alojar-se em casa do irmão; entretanto, mora em Wu - ling. Como pode, em tais condições, aperfeiçoar o estilo da vida que professa? Adotando os princípios de Chung, e para os pôr em prática, o homem teria de se tornar um verme da terra
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(1) "Amor e justiça" seriam interpretação mais adequada: a tradução acima é a de Legge. Giles traduz esses termos, em Chuangtsé, por "dever" e "caridade".

(2) Nome pessoal de Confúcio.

(3) Livro de Poesia.

(4) Peso chinês.

(5) Tsei - ladrão.

(6) O último imperador tirano de Shang.

(7) Água funda: penúria, desgraça.

(8) Ou simplesmente: "um coração misericordioso".

(9) Um governo de clemência.

(10) Baseado no conceito menciano de bondade inato da natureza humana.

(11) Leia-se: "O que não tem um coração misericordioso não é um homem; e não é um homem quem for destituído do senso do pudor, da cortesia, da consideração para com outrem; não é um homem quem não possuir o senso do bem e do mal".

(12) Preferivelmente: "injuriam-se".

(13) Mêncio é mais conciso: "O tempo é menos importante do que o terreno: o terreno é menos importante do que a unidade moral do povo".

(14) Tao - a verdadeira doutrina.

(15) O antigo sistema agrícola comunal de dividir um lote em nove quadrados iguais, sendo do centro a fazenda do governo.

(16) Leia-se: "Nos confins da cidade, onde a terra não pode ser dividida em nove quadrados, imponha-se uma dízima calculada pelos contribuintes".

(17) Para oferecer sacrifícios.