Shijing, extratos do Livro das Canções (por Lin Yutang)

1. Escrito em 718 A. C. É a versão chinesa do "mundo bem perdido". Possivelmente, como um certo Yen Ts'an do décimo terceiro século insiste, "feita com a intenção de mostrar o êrro de ligações licenciosas".[HW]

A abóbora ainda está com as fôlhas amargas,

É profundo o vau no cruzamento.

Espero meu senhor.

O vau está cheio até às bordas;

O faisão grita pela companheira.

Meu senhor demora.

O barqueiro ainda chama com acenos,

E outros chegam ao fim da jornada.

Espero meu amigo.



2. Escrito em 826 A. C. É incoerente com o mais belo ideal de castidade - que a mulher chinesa quebre a viuvez perpétua.[HW]

Oh, deixá-lo vogar, aquêle barco de madeira de cipreste,

Lá no meio do Ho.

Ele era meu companheiro,

E até a morte continuarei desolada.

Ó Mãe! Ó Deus!

Por quê é que não quereis compreender?

Oh, deixá-lo vogar, aquêle barco de madeira de cipreste,

Lá no meio do Ho.

Ele era meu rei.

Juro que não farei essa maldade. Ó Mãe! Ó Deus!

Por quê é que não quereis compreender?



3. Escrito no décimo segundo século antes de Cristo. Possivelmente, é a mais antiga canção

à bebida no mundo.[HW]

O orvalho cai espêsso sôbre a relva.

O sol se pôs, finalmente.

Encha, encha até as bordas as taças de jade,

Ainda temos a noite diante de nós!

A noite inteira o orvalho ficará cobrindo

A relva e o trevo.

Em breve, bem breve, o orvalho secará,

Muito em breve a noite estará terminada!



4. Escrito no décimo segundo século antes de Cristo. Provavelmente 1121.[HW]

A luz gloriosa da manhã cai sôbre minha cabeça,

Pálidas flores brancas e púrpuras, azuis e vermelhas.

Estou inquieta.

No meio da relva sêca algo se agita,

Pensei ouvir seus passos.

Depois um grilo cantou.

Subi a colina até que a nova lua surgiu,

Vi-o chegando pela estrada do sul.

Meu coração abandonou tôda preocupação.



5. Escrito em 690 A. C. O "Pequeno Prefácio": "O elogio que um homem faz à sua Pobre Espôsa".[HW]

Saí pelo Portão Oriental,

Vi as jovens nas flores,

Eram bem como nuvens, radiantes e delicadas,

Mas ao olhá-las

Pensava na jovem que é a minha luz,

Reclinada e lânguida, suave como o crepúsculo cinza;

Ela é minha companheira.

Saí pela Torre que fica nas Muralhas,

Vi as jovens nas flores,

Como os juncos em flores curvavam-se e ondulavam,

Mas naquela hora

Pensei na donzela que é meu amor,

Em seus vestidos brancos tão leves e em suas côres desmaiadas;

Ela é tudo para mim



6. Escrito em 718 A. C. no harém do Palácio de Wei.[HW]

O vento sopra do norte.

Ele olha e os olhos são frios.

Ele olha e sorri e depois passa adiante,

Meu coração sofre.

O vento sopra sôbre a poeira.

Ele jurou que amanhã virá.

As palavras foram doces, mas êle não as cumpriu,

Meu coração está entorpecido.

O dia inteiro o vento soprou forte,

Há muito o sol mergulhou no horizonte.

Pensei nêle tanto tempo e tanto

Que não posso dormir.

As nuvens estão negras como a noite;

O trovão não trouxe a chuva.

Levanto-me e não tenho esperança

Sofro sozinha a minha dor.



7. Escrito em 769 A. C. por uma mulher divorciada.[HW]

O vestido amarelo é sinal de distinção,

O verde, da desgraça.

Uso o verde e não o dourado,

E escondo o meu rosto.

Uso o verde do desprêzo

Depois de tanto tempo usar o amarelo.

Medito nos ensinamentos dos Sábios,

Com mêdo de julgá-los errados.

Foi por ela que êle me cobriu de vergonha.

Sento-me e penso solitária.

Fico pensando se os Sábios conhecem

O coração de uma mulher.



8. Escrito em 826 A. C. Queixas de um ajuste não cumprido.[HW]

Os salgueiros que crescem ao lado do Portão Oriental

Têm folhagens bem densas que abrigam.

Você disse - Antes que anoiteça -

E já se ouve chilreio nas beiras dos telhados.

Os salgueiros ao lado do Portão Oriental

A noite inteira banharam-se nas sombras.

Você disse - Antes que anoiteça –

E eis que brilha a estrêla da manhã.



9. Escrito em 718 A. C.[HW]

Não posso ir a teu encontro. Tenho mêdo.

Não irei a teu encontro. Eis tudo, já disse.

Embora a noite inteira eu fique desperta e saiba

Que tu também estás deitado e desperto.

Embora, dia a dia, tu sigas a estrada, solitário,

E voltes, ao cair a noite, para um lar sombrio.

Contudo mesmo assim és meu amigo, na verdade,

Depois, no fim,

Há uma estrada, uma estrada que eu nunca percorri.

E por essa estrada não passarás sozinho.

E lá, certa noite, encontrar-me-ás a teu lado.

A noite em que me disserem que morreste.



10. Escrito c. 605 A. C.[HW]

Os juncos dos pântanos estão verdes

E curvam-se ao vento.

Vi uma mulher andando por ali

Já quase ao anoitecer.

Sôbre as águas escuras do pântano,

Os botões do lótus bóiam muito brancos.

Vi-a de pé sôbre a margem,

Ao cair da noite.

A noite inteira fiquei acordado

E não pude encontrar descanso.

Via-a delgada como os juncos

Curvando-se ao vento.

Fechei os olhos e vi novamente

A brancura de seu colo

Sobressaindo nas águas escuras da noite

Tal como o lótus ao flutuar.



11. Escrito em 718 A. C.[HW]

O K'e ainda se lança com ímpeto contra as margens

A galinhola grita.

Meu cabelo estava prêso num nó,

E você apareceu.

Você vendia sêdas a um rapaz

Que não era de nossa classe;

Você passou ao pôr do sol na estrada

Vindo lá da distante Ts'in.

As rãs estavam coaxando ao lusco-fusco

A relva estava úmida.

Conversamos e eu ri;

Ouço ainda o que você disse..

Pensei que seria sua espôsa;

Você me prometeu.

Assim segui a estrada com você

E atravessamos o vau.

Não sei bem quando pela primeira vez

Seus olhos ficaram indiferentes.

Mas tudo o que se passou foi apenas há três anos

E já me sinto velha.



12. Escrito em 769 A. C.[HW]

O meu senhor partiu para servir ao rei.

As pombas voltam ao pôr do sol

Estão ao lado uma das outras sôbre o muro do pátio,

E de lá bem distante ouço o pastor chamar

As cabras que estão pela colina, quando o dia termina.

Mas eu, não sei quando êle voltará para casa.

Passo os dias sozinha.

O meu senhor partiu para ir servir ao rei.

Ouço uma das pombas que se ajeita no ninho.

E no campo um faisão grita ainda.

- Daqui a pouco estará perto da companheira.

Há uma saudade que não me deixa descansar.

Os dias formaram meses e os meses formaram anos,

E não tenho mais lágrimas.



13. Escrito em 675 A. C. "Há alguma coisa sôbre a qual se possa dizer - "Olhe, isso é novo?", pois já existia em tempos passados, em tempos que nos precederam."[HW]

Eu devia ter ido ao encontro de meu senhor quando êle precisasse

Devia galopar até lá o dia inteiro,

Mas isso é assunto que diz respeito ao Estado,

E eu, sendo mulher, devo ficar.

Vi-os abandonando o pátio do palácio,

De carruagem e com as vestes oficiais.

Devia ter ido por colinas e vaus

Pois sei que chegarão tarde demais.

Posso andar pelo jardim e colher

Lírios de madrepérola.

Tinha um plano que teria salvo o Estado.

- Mas minhas idéias são as de uma mulher.

Os Estadistas Mais Velhos sentam-se em coxins,

E disputam metade do dia:

Mais de cem planos fizeram e abandonaram.

E o meu era o único certo.



14. Escrito em 780 A. C. Um camponês típico queixa-se das estrêlas inúteis.[HW]

Vejo no alto a Via-Láctea,

Mas aqui o caminho é mais áspero.

Os Bois Sagrados brilham parados;

Eles não nos tiram os fardos da vida.

A Peneira cintila ao sul,

Mas o bem e o mal vêm através sua luz.

A Pá abre bem a bôca

E nada espalha sôbre você.

Pela madrugada as Irmãs Tecelãs adormecem.

Ao escurecer erguem-se novamente;

Mas embora a Brilhante Lançadeira voe,

Elas não tecem nenhuma roupa para os homens.



15. Outra poesia sobre a natureza.[HW]

Nos pântanos crescem as ervas rasteiras,

Tostadas, ansiosas pelo orvalho,

E sôbre elas as andorinhas mergulham e passam

Durante o verão, que é tôda sua vida.

Cheguei ao pôr do sol, coberto de suor.

Procurando não sei que com pés descuidados.

Sôbre o pântano cresce a relva rasteira,

Profundamente mergulhada no orvalho,

E sôbre ela as andorinhas abaixam o vôo e passam

Durante todo o verão, que é a sua vida.

Você chegou ao pôr do sol, antes que o orvalho secasse.

E estou satisfeita.



16. Dedicada a um jovem cavalheiro.[HG]

Não entre, senhor, por favor!

Não quebre os ramos de meu salgueiro!

Não que isso me entristeça muito;

Mas, pobre de mim! o que dirão meus pais?

E embora eu o ame como posso amar,

Não posso suportar o que seria tal coisa.

Não passe para o lado de cá do meu muro, senhor, por favor!

Não estrague minhas amoreiras!

Não que isso me entristeça muito;

Mas, ai de mim! o que dirão meus irmãos?

E embora eu o ame como posso amar,

Nem quero pensar em tal coisa.

Fique do lado de fora, senhor, por favor!

Não quebre os ramos do Sândalo!

Não que isso me entristeça muito;

Mas, ai de mim! o que dirá o mundo?

E embora eu o ame como posso amar,

Nem quero pensar em tal coisa.



17. Para um Homem.[HG]

Você me parece um jovem bem ingênuo,

Oferecendo em troca de sêda seus tecidos;

Mas não é a sêda o que você deseja:

Eu sou a sêda que você tem em mente.

Com você atravessei o vau e enquanto

Caminhamos por mais de uma milha

Eu disse - Não quero delongas

Mas, é preciso que os amigos fixem a data de nosso casamento...

Oh, não se aflija com minhas palavras,

Mas volte com o outono.

E então passei a esperar e a ficar olhando

Para ver você passar pelo portão;

E algumas vêzes quando observava em vão.

Minhas lágrimas corriam como grossas gotas de chuva;

Mas quando vi meu querido,

Ri e chorei alto de alegria.

Os videntes, disse você,

Todos declararam que éramos feitos um para o outro;

- "Tragam então uma carruagem," repliquei,

"E serei sua espôsa para sempre."

As fôlhas da amoreira, ainda não arrebatadas

Pelo vento frio do outono, brilham ao sol.

Ó doce pomba, eu devia aconselhar,

Acautela-te contra o fruto que tenta teus olhos!

Ó linda donzela, ainda não esposada,

Não ouça, alegremente, as promessas do amado!

Um homem pode fazê-las de má fé e o tempo

Se encarregará de obscurecer seu crime;

Uma mulher que perdeu o nome

Está condenada a uma vergonha eterna.

A amoreira sôbre o solo que a cerca

Agora espalha as folhas amarelas.

Três anos Já se passaram,

Desde que eu partilhei sua pobreza;

E agora novamente, dia amargo!

Atravessei o vau de volta.

Meu coração ainda não mudou, mas você

Pronunciou palavras que agora provaram ter sido falsas;

E abandonou-me para lamentar

Um amor que não mais pode ser meu.

Durante três longos anos fui sua espôsa,

E levei, na verdade, uma vida de tristeza;

Cedo me erguia da cama e ia tarde descansar,

Todos os dias se passaram assim para mim.

Honestamente cumpri a minha parte.

E você...você despedaçou meu coração.

A verdade meus irmãos não a saberão,

Do contrário me crivariam de sarcasmos.

Sofro em silêncio e só lamento

Ter sido meu um tal destino infeliz.

Ah, quem dera que de mãos dadas enfrentássemos a velhice!

Em vez disso volto uma página amarga.

Oh, pelas margens do rio, há muito tempo;

Oh, pelas muito queridas praias pantanosas;

As horas da meninice, com meus cabelos

Soltos, como eu as esperava!

As Juras que trocamos pareciam tão sinceras,

Nunca pensei que teria que arrepender-me delas;

Nunca pensei que as promessas que trocamos

Por que falar mais sobre isso*

[* Há uma outra tradução que coloca esta última frase como: “Algum dia não mais nos uniriam”. Não parece ser, porém, original].



18. A Torre Nova (Satirizando o casamento do Duque Hsüan e sua rainha, que tinha ficado noiva de seu filho).[JL]

Surge a Torre Nova, linda e brilhante,

Onde o volumoso Ho corre;

É palácio raro construído para uma noiva.

Ela foi a Wei para encontrar marido;

Procurava um marido jovem e bom,

Mas encontrou êsse urso desajeitado.

Lá está a Torre Nova alta e grandiosa,

Onde calmamente o Ho corre;

É um palácio raro construído para uma noiva.

Ela veio a Wei para encontrar um companheiro;

Procurava um marido jovem e bom,

Mas encontrou êsse urso desajeitado.

Como quando lançam a rede para apanhar peixes,

E, ora! recolhem um ganso nas malhas,

Batem os pés com cólera súbita;

Assim "ela" podia bater os pés, pois veio para casar-se

Com o filho genial e em vez dêle

Só encontrou o pai corcunda.



19. O Marido está fora.[JL]

Meu marido está fora, pois foi para o estrangeiro,

E quando voltará, oh! meu coração não pode dizer.

As galinhas vão para os poleiros e os animais para as mangedoras

Quando se dirigem para casa após pastarem nas montanhas.

Mas, como posso eu, abandonada,

Deixar de pensar em meu homem que partiu?

Meu marido está fora, foi para o estrangeiro,

E passar-se-á muito tempo antes que reveja nossa lareira.

As galinhas vão para os poleiros e os animais para as mangedouras

Assim que os últimos raios de sal atravessam as folhagens da floresta.

Só os Céus sabem as coisas que penso assim solitária

Os Céus alimentam e acalmam a sêde de meu coração!



20. O Galo está cantando.[JL]

Disse a mulher - O galo está cantando.

Falou o marido - O dia está começando.

- Levante-se, marido, e vá ficar à espreita

Veja como a estrela da manhã está alta no céu,

O sol daqui a pouco estará brilhando sôbre tôdas as coisas

E há uma porção de patos e de gansos para caçar.

Atire quando estiverem voando e traga-os para casa, para mim,

E farei um prato como você gosta.

No futuro, quando

Você cabecear com sono,

Sem cuidados, sem receios,

Nós teremos envelhecido dignamente com os anos.

E quando estivermos com os amigos que apreciamos,

A cada um darei um pouco de peixe por você pescado,

Deixá-los-ei apreciarem as contas de aldeã, presas às correntes,

E outras antiguidades encantadoras.

Algumas mãos fúteis, mas adoráveis, hão de descobrir

O amor que elas representam.

____________

Ó querido! aquêle rapaz astucioso

Não quer dar-me uma palavra!

Mas, senhor, apreciarei

Minha refeição, embora você se mostre absurdo!

Ó querido! aquêle rapaz astucioso

Não se sentará em minha mesa!

Mas, senhor, apreciarei

Meu descanso, embora você aqui não esteja!



21. No Portão Oriental.[JL]

No portão oriental, o solo é fértil

E a garança cresce nos declives.

No entanto, o terreno que cerca a casa de minha amada é áspero;

Ele me conserva à distância e zomba de minha esperança.

Onde crescem as castanheiras, perto do portão oriental,

Elas erguem-se em filas, é lá que fica tua casa.

Meu coração procura o teu, como o seu companheiro,

Mas, ah! tu nunca vens a meu encontro!



22. O Estudante de Colarinho Azul.[JL]

Você, estudante, de colarinho azul,

Há muito dilacera meu coração com uma ansiedade dolorosa.

Embora eu não corra para você,

Por que você foge de todo o mundo?

Ó você, com roupas debruadas de azul,

Os meus pensamentos para sempre correram para você!

Embora eu não o persiga,

Por que você não vem a meu encontro?

Como você é despreocupado, como se mostra alegre e volúvel

Lá perto da torre que encima a muralha!

Um dia, longe de sua presença

Durante três meses, considerei-file exilada.



23. No Pântano.[JL]

No pântano onde mais exuberante cresce

A relva rasteira, curvada com o pêso do orvalho,

Ali um belo rapaz aproximou-se,

Sob cuja testa, alta e larga,

Brilhavam os olhos límpidos e vivos.

Foi por acaso que nos encontramos;

Fiquei satisfeita por alcançar o que desejara.

Onde a relva cresce rastejante no pântano, Tôda coberta pelo orvalho,

Ali encontrei o mais belo rapaz,

Sôbre cujos olhos límpidos e vivos,

Erguia-se a testa, larga e alta.

O acaso fez-nos que nos encontrássemos, coisa rara,

E ambos nos sentimos felizes.



24. A Carruagem dela se aproxima (Satirizando a impudência de uma rainha).[JL]

Aproxima-se sua carruagem, barulhenta e apressada,

Com coberta de bambus finalmente entrelaçados,

E o couro brilhante, avermelhado...

A filha de Ts'e corre para os braços de um amor ilegal. Para isso, desde Lu, a estrada é suave e plana;

Foi na noite passada que ela partiu com sua comitiva.

Os quatro corcéis negros são lindos;

Macias são as rédeas que o cocheiro tem nas mãos.

A estrada que parte de Lu é suave e plana.

O coração da filha de Ts'e não esconde a alegria.

Está cheia de complacência; nem a vergonha a confunde,

nem o receio de manchar o nome.

As águas do Wen fluem largamente,

E multidões de viajantes passavam.

A estrada que vem de Lu é suave e plana.

Ela olha em volta de si com olhos despreocupados.

Que muitas pessoas a estejam vendo não lhe causa o menor embaraço;

Nem pensa nos seus caprichos licenciosos.

E correm as águas do Wen;

São mais numerosos os transeuntes agora.

A estrada que vem de Lu é suave e plana.

A filha de Ts'e mostra o rosto descaradamente.

Com orgulho e imprudência prossegue em seu caminho,

Sem importar-se com o que pensem sôbre sua ostentação.



25. Um Soldado pensando no Lar.[JL]

Vou até o alto daquela colina coberta de árvores,

E olharei em direção à casa paterna,

Até que com os olhos do espírito possa divisá-la,

E com os ouvidos do espírito possa ouvir meu pai dizer:

- Pobre de meu filho que está em serviço fora de nossa terra!

Ele não descansa de manhã até o anoitecer.

Possa êle ser cuidadoso e voltar para meus braços!

Enquanto está longe, como eu sofro!

Subo até o alto daquela colina estéril,

E olho pensando em minha mãe,

Até que com os olhos do espírito diviso suas feições

E com os ouvidos do espírito ouço o que ela diz:

- Ai! o meu pobre filho está em serviço longe de mim!

Ele nunca fecha os olhos num bom sono.

Que êle tenha cuidado consigo e que volte a meus braços!

Que seu corpo não fique no meio das selvas!

As mais altas cadeias de montanhas eu, com esfôrço, subo

E olhei pensando em meu irmão.

Até que com os olhos do espírito divisei sua silhueta,

E com os ouvidos do espírito ouço o que êle diz:

- Ai de mim! meu irmão mais novo está servindo fora do país. O dia inteiro deve vaguear com seus camaradas.

Que êle tenha cuidado consigo e que volte para perto de mim

E que não morra longe de nosso lar!



26. A Canção do Lenhador.[JL]

"K'an-k'an" nas árvores de sândalo

Ressoam os golpes do lenhador.

Depois na margem do rio êle joga os troncos

Que seu machado derruba;

Enquanto a corrente corre impetuosamente

Com suas águas frias e límpidas.

Você nada semeia; de nenhuma colheita

Suas mãos macias tomam conta;

E contudo se gaba de trezentas fazendas

E há abundância de produções.

Você nunca se junta ao grito de caça,

Nem ousa partilhar sua lida;

Cheio de peles de texugo postas para secar.

Aquele gentil-homem!

Ele não come o pão da indolência, na verdade!

"K'an-k'an" na madeira do sândalo

Os golpes do lenhador ressoam,

Depois nas margens do rio êle deixa

O que só serve para raios de roda;

Enquanto o rio corre para diante,

Com suas águas límpidas e doces.

Você não semeou nada; de nenhuma tarefa de colheita

Seus dedos delicados têm as manchas;

E no entanto se gaba de três milhões de molhos;

De onde recolhe êle todo êsse grão?

Você nunca se junta ao grito da caça,

Nem se arrisca a seus perigos;

Contudo, olhe! seu enorme pátio mostra

Aquêles porcos de três anos de idade.

Aquêle gentil-homem!

Ele não come o pão da indolência, na verdade!

"K'an-k'an" ressoam os golpes do lenhador

Na madeira do sândalo;

Depois bem na beira do rio êle deposita

O que serve para as rodas;

Enquanto o rio corre para diante,

Docemente ondeado pelo vento.

Você não planta nada; nenhuma tarefa de colheita

Ocupa suas mãos suaves;

No entanto, gaba-se de ter trezentas medidas de grão;

Como lhe foi ter às mãos tanto grão?

Você nunca se junta ao grito da caça;

Sua coragem falha o impede;

Contudo, olhe! seu enorme pátio mostra

Extensas enfiadas de perdizes mortas.

Aquêle gentil-homem!

Ele não come o pão da indolência, na verdade!



27. Os Ratos Enormes. (O poeta propõe abandonar seu país Wei).[JL]

Ratos grandes, ratos grandes, deixem-nos pedir

Que não roam nosso milho.

Mas os ratos grandes a que nos referimos são vocês,

Com quem tratamos durante três anos,

E todo êsse tempo nunca conhecemos

Um olhar de bondade para conosco.

Despedimo-nos de Wei e de vocês;

Há muito ansiamos por uma terra mais feliz.

Ali, em ambiente mais adequado, tranqüilos nos sentiremos.

Ratos grandes, ratos grandes, deixem-nos pedir

Que não devorem nossas colheitas de trigo.

Mas os ratos grandes a que nos referimos são vocês

Com quem há três anos vimos convivendo;

E durante todo êsse tempo vocês nunca fizeram

Um só ato bondoso que alegrasse nosso destino.

A vocês e a Wei damos adeus,

Em breve iremos para aquêle Estado mais feliz.

Ó feliz Estado! Ó feliz Estado!

Lá aprenderemos a bendizer nossa vida.

Ratos grandes, ratos grandes, deixem-nos pedir

Que não comam os rebentos de nossos cereais.

Mas os ratos grandes a que nos referimos são vocês,

Com quem convivemos durante três anos.

De vocês não nos veio, nesse tempo todo,

Uma só palavra de conforto no meio de nossas tristezas.

Despedimo-nos de vocês e de Wei;

E vamos voando para outras paragens mais felizes.

Ó paragens felizes, dirigimos os passos para lá!

Lá nossos gemidos e nossos pesares terminarão.



28. Coruja, ó Coruja!

(Escrito em 1113 A. C. pelo grande Duque de Chou, irmão do Rei Wu. O Rei Wu tinha morrido e seu filho ocupava o trono. Dois dos mais jovens irmãos do rei tinham se rebelado e o Duque, que auxiliava o jovem rei, viu-se obrigado a lutar para debelar a rebelião durante três anos. O Duque escreveu êstes versos comparando os rebeldes que tentavam destruir a casa imperial com as corujas).[JL]

Coruja, ó Coruja, ouça minha súplica,

E não destrua meu ninho, coruja.

Você já me arrebatou meus filhotes,

Embora eu dêles cuidasse

Com todo amor e carinho.

Tenha pena de mim, tenha pena de mim!

Ouça minha prece.

Antes que as nuvens obscureçam os céus,

Protejo as raízes da amoreira.

Ao redor da porta e da janela,

Eu me agarro firmemente a elas,

E, lançando os olhos para baixo,

- Quem ousa, dentre vocês, desprezar minha casa?

Puxei com minhas unhas e despedacei-as

E minha bôca e meus dedos ficaram feridos.

Reuni tôda minha fôrça

Para defender-me,

Pois estou decidido a manter a casa perfeita,

E não receio nenhum trabalho com essa intenção.

Minhas asas estão deploravelmente feridas

E minha cauda muito maltratada e fatigada.

Sacudida pelo vento

Enquanto a chuva bate sem piedade,

Oh! minha casa está em perigo

E escrevo esta nota num grito de alarme.



29. Tsai Chu

(O Prefácio diz que esta ode era usada na primavera, quando o rei em pessoa revolvia alguns sulcos no campo separado para êsse fim e rezava ante os altares dos espíritos da terra e do grão, pedindo um ano de abundância).[JL]

Eles limpam o solo tirando a relva e os arbustos; e ei-lo que fica todo sulcado pelos arados. Em milhares, aos pares, tiram as raÍzes, alguns nas terras baixas e úmidas, outras ao longo do rio. São o dono e o filho mais velho; os filhos mais novos e todos os seus rebentos; os auxiliares mais fortes e os criados contratados. Como comem e saboreiam as viandas que trouxeram! (Os maridos) pensam amorosamente nas mulheres; (as mulheres) ficam bem perto dos maridos. (Então) com as afiadas relhas dos arados se põem a trabalhar nos acres que ficam ao sul. Semeiam várias espécies de grãos, cada semente contendo dentro de si um gérmen de vida. Em linhas perfeitas surgem as hastes e, bem nutridas, crescem bastante. O grão verde parece que vai abundar e os homens com enxadas passam por entre êles em multidões.

Depois vêm verdadeiras multidões de segadores. E o grão é em pilhado nos campos, miríades e centenas de milhares e milhões (de montes de trigo) ; para os espíritos e os espíritos doces, para oferecer a nossos ancestrais, homens e mulheres, e para suprir todas as cerimônias. Fragrante em seu aroma, adornando a glória do estado. Tal como pimenta com o seu cheiro, para dar conforto aos velhos. Não é somente aqui que há essa (abundância); não é somente agora que há um tempo como êste: pois desde antigamente assim tem sido.



30. Ch'u Ts'e.[JL]

(Uma descrição poética dos serviços sacrificais e festivos no templo dos ancestrais e sua ligação com a agricultura).

Crescem bem cerrados os tributos (no solo), mas espalham os ramos espinhosos. Por que o fazem há tantos anos? Para que possamos plantar nosso milho e sacrificar milho; para que nosso milho possa ser abundante e nossos sacrifícios de milho abundantes. Quando nossos celeiros estão cheios e nossas provisões são contada por dezenas de milhares, faremos apelos aos espíritos e preparamos grãos para as oferendas e sacrifícios. Fazemos os representantes dos mortos sentarem e pedimos-lhes para comer - assim procurando aumentar nossa felicidade. Com conduta correta e respeitosa, os touros e os carneiros todos puros, procedemos aos sacrifícios de inverno e de outono. Algum esfolam (as vítimas) ; outros cozinham (sua carne) ; outros preparam (a carne) ; outros ajustam (as diversas partes). O que oficia as preces faz sacrifícios dentro do portão do templo. E todo o serviço sacrificial é completo e brilhante. Majestosamente chegam nossos progenitores;seus espíritos gozam alegremente as oferendas; seus descendentes recebem a benção - êles o recompensarão com grande felicidade, com miríades de anos, com vida sem fim. Preparam o fogo com todo respeito; preparam os tabuleiros que são enormes - alguns para a carne assada, outros para o assado. As espôsas que os presidem ainda fazem reverências, preparando os numerosos (menores) pratos. Os convivas e os visitantes passam a taça de mão em mão. Cada fôrma segue a regra; cada sorriso e cada palavra são como devem ser. Os espíritos chegam calmamente e cobrem todos com grandes bênçãos - milhares de anos como a recompensa (mais apropriada). Estamos muito cansados e terminamos cada cerimônia sem um êrro. O apto encarregado das preces anuncia (a vontade dos espíritos) e procura o descendente para transmiti-Ia - "tem sido fragrante seu sacrifício filial e os espíritos apreciaram seu espírito e as iguarias. Eles lhe conferem centenas de bênçãos; tôdas como mais deseja, tôdas tão seguras como a lei. Você foi exato e pronto; foi correto e cuidadoso; êles lhe conferirão até o mais raro dos favores, em milhares e dezenas de milhares." As cerimônias tendo assim se completado e os sinos e tambores tendo dado o sinal, o descendente vai ocupar seu lugar e o encarregado das preces anuncia - Os espíritos beberam até fartar. - Os grandes representantes dos mortos levantam-se então e os sinos e tambores escoltam sua retirada (com a qual) os espíritos tranqüilamente voltam (para o lugar de onde vieram). Todos os servos, e as espôsas que presidem, removem (as bandejas e pratos) sem demora. Os tios e primos (do sacrificante) todos se dirigem para um banquete privado. Os músicos todos vão tocar e prestam seu auxílio serenante à segunda bênção. As suas viandas são expostas; não há ninguém que não se sinta satisfeito e sim todos estão muito contentes. Bebem até fartar e comem até não quererem mais; grandes e pequenos todos curvam as cabeças (dizendo) - “Os espíritos apreciaram seus espíritos e iguarias e lhe darão vida longa. Seus sacrifícios, tôdas suas oportunidades são completamente dispensados. Possam seus filhos e seus netos jamais deixar de perpetuar êsses serviços!”

Textos de;

Helen Waddell – [HW]

Herbert Giles – [HG]

James Legge – [JL]