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Shujing, O Livro das Histórias (por A. Doeblin)

Extratos

I. O Canon de Yao.

1. Examinando a Antigüidade verificamos que o Ti Yao era intitulado Fang-xun. Era respeitoso, inteligente, culto e meditativo, de modo natural e sem esforço. Era sinceramente cortês e capaz de toda complacência. A brilhante influência dessas qualidades era sentida nas quatro partes da terra e chegava ao Céu por cima e, por baixo, a terra.

2. Fez com que se distinguissem o capaz e o virtuoso. E daí seguiu-se ao amor de todos nas nove classes de sua casta, que tornou harmoniosa. Também ordenava e educava os habitantes do seu domínio, tornando-se todos brilhantemente inteligentes. Finalmente uniu e harmonizou milhares de Estados e assim se transformam as gentes de barrete negro. O resultado foi a concórdia universal.

3. Determinou a Hsîs e Hos, em respeitoso acordo com sua observação dos vastos céus que calculassem e delineassem os movimentos e aspectos do Sol, da Lua, das estrelas e dos espaços zodiacais, entregando desse modo as estações à observação do povo.

4. Determinou ao segundo irmão Hsî, especialmente, que residisse em Yu-î, no chamado Vale Claro, e ali recebesse respeitosamente, ­como a um hospede, o Sol nascente, e ajustasse e organizasse os trabalhos da Primavera. “O dia – disse – é de extensão média e a estrela está em Niâo. Assim poderás determinar exatamente a Primavera média. As criaturas distantes nos campos e os pássaros e animais concebem e se juntam”.

5. A seguir ordenou ao terceiro irmão Hsî que residisse em Nan-Kiâo, na chamada Capital Brilhante, aí ajustando e organizando a transformação do Verão e observando respeitosamente o limite exato da sombra. “O dia – disse – está em sua maior duração e a estrela está em Huo; assim poderás determinar exatamente o Verão médio. As criaturas estão mais dispersas e os pássaros e animais têm curtas penas e pelos e mudam suas penugens”.

6. Ordenou separadamente ao segundo irmão Ho que residis­se no oeste, no chamado Vale Escuro, e ali convocasse respeito­samente o Sol poente a fim de ajustar e organizar os trabalhos completos do Outono. “A noite – disse – é de duração média e a estrela está em Hsu. As criaturas sentem-se cansadas e os pássaros e animais têm suas penugens em bom estado”.

7. Mais tarde determinou ao terceiro irmão Ho que residisse na região do norte, na chamada Capital Sombria, e ali ajustasse e organizasse as mudanças do Inverno. “O dia – disse – está em sua menor duração e a estrela está em Mao. Assim poderás determinar exatamente o Inverno médio. As criaturas ficam em casa e a penugem dos pássaros e animais é então abundante e espessa”.



II. Os Conselhos do Grande Yu.

1. Examinando a Antigüidade verificamos que o Grande Yu era intitulado Wang-ming. Depois de ajustar e dividir a terra, dentro dos quatro mares, sem reverente resposta a Tî, disse: “Se o soberano pode compreender as dificuldades de tua sobe­rania e o ministro a dificuldade do seu ministério, o governo será bem ordenado e o povo de cabelos negros tratará diligen­temente de ser virtuoso”.

2. Disse Tî: “Sim, se realmente for esse o caso, a boa pala­vras não permanecerão ocultas em parte nenhuma, os homens virtuosos e de talento não serão abandonados fora da corte e os milhares de Estados gozarão descanso. Mas obter as opiniões de todos, abandonar a própria opinião para seguir a dos outros, não oprimir os indefesos e não abandonar o vivente, na angústia de sua pobreza, são coisas que só aquele Tî poderia conseguir”.

3. Disse Yu: “Tua virtude, ó Tî, é grande e incessante! Sábia, espiritual, infunde temor e está adornada com todas as perfeições. O Grande Céu concedeu-te seu favor e fez de ti o seu eleito. Possuíste desde logo tudo o que existe dentro dos quatro mares e te converteste em governante de tudo o que existe sob o Céu”.

4. Yu disse: “A conformidade com a retidão leva à boa fortuna. Seguir ao que se lhe opõe, leva à má fortuna. A sombra e o eco”. Disse Yi: “Ah, sê prudente! Aconselha-te a ti mesmo a prudência, quando parece não haver motivo para ansiedade. Não deixeis de observar as leis e ordenações. Não encontres prazer na ociosidade. Não chegues ao excesso no prazer. Em tua utilização dos homens dignos não deixeis que ninguém se interponha entre tu e eles. Põe de lado o mal, sem hesitações. Não traces planos de cuja sabedoria tenhas dúvidas. Estuda todos os teus propósitos à luz da razão. Não fiques contra o justo para conseguir o elogio do povo. Não te oponhas aos desejos do povo para seguir teus próprios desejos. Atende a essas coisas sem indolência nem omissão e as tribos bárbaras dos arredores virão e reconhecerão tua soberania”.



III. Os Conselhos de Kao Yao.

1. Examinando a Antigüidade verificamos que Kao-Yao disse: “Se o soberano segue sinceramente o caminho da virtude, os conselhos que se lhe dão serão inteligentes e as exortações que recebe serão harmoniosas”. Disse Yu: “Sim, mas explica-te”. Kao Yao disse: “Oh! Mostre-se cuidadoso acerca do seu cultivo pessoal, com pensamentos de amplo alcance, e assim conseguirá a generosa bondade e uma exata observância das distinções entre os novos ramos de sua casta. Todos os homens inteligentes também se colocarão a seu serviço e deste modo chegará desde o próximo até o distante”. Yu rendeu homenagem a essas excelentes palavras e disse: “Sim”. Kao-Yao continuou: Oh! Isso se baseia em conhecer os homens e dar tranqüilidade ao povo”. Yu disse. “Ah! Conseguir essas duas coisas pode ser difícil até para o Tî. Quando o soberano conhece os homens é sábio e pode colocar cada um deles no posto para o qual está apto. Quando dá tranqüilidade ao povo, sente-se sua bondade e a raça de cabelos negros o aprecia por seu coração. Quando pode ser assim sábio e bondoso, que motivo de inquietação poderá ter acerca de um Huan-tao? Que temor de ser deposto como senhor de Miao? Que motivo para temer alguém de palavras suaves, aparência insinuante, rematada astúcia?”

2. Kao-Yao disse: Oh! Há em conjunto nove virtudes que “devem descobrir-se na conduta e quando dizemos que um homem possui alguma virtude é o mesmo que dizer que faz tais ou quais coisas”. Yu perguntou: “Quais são as nove virtudes?” Kao-Yao respondeu: “A afabilidade combinada com a dignidade. A suavidade combinada com a prudência reverente. A docilidade combinada com a audácia. A retidão combinada com a urbanidade. Uma negligente condescendência combinada com a discriminação. A audácia combinada com a sinceridade. O valor combinado com a retidão. Quando essas qualidades se evidenciam de modo continuado, não temos então um bom funcionário? Quando diariamente se mostram três dessas virtudes, seu possuidor podia, a princípio, e mais tarde, regular e melhorar o clã do qual se tinha feito chefe. Quando havia diariamente um cultivo severo e reverente de seis dessas virtudes, seu possuidor conduzia brilhantemente os negócios do Estado com os quais fora investido. Quando semelhantes homens são homenageados e elevados, os possuidores dessas nove virtudes serão empregados no serviço público. Os homens de um milheiro e os homens de uma centena estarão em seu posto. Os diversos”. Ministros emular-se-ão uns aos outros. Todos os funcionários cumprirão seus deveres em tempo devido, observando as cinco estações assim como os diversos elementos que nelas predominam e assim terão cum­prido inteiramente os diversos deveres. Que o Filho do Sol não dê aos possuidores de Estados um exemplo de indolência e dissolução. Que seja prudente e temeroso, recordando que em um ou dois dias podem ocorrer dez mil mudanças nas coisas. Que seus diversos funcionários não estorvem em seus postos. A obra pertence ao Céu. Os homens devem agir para ele”.



IV. A Canção dos Cinco filhos.

1. Tai Kang ocupou o trono fazendo-se passar pelo rei morto. Mediante indolência e dissipação extinguiu sua vir­tude até que o povo de cabelos negros vacilou em sua lealdade. Ele, no entanto, continuou a se entregar aos prazeres e desvarios sem nenhuma restrição. Saiu à caça além de Lo e transcorreram cem dias sem que ele voltasse. A vista disso YI, príncipe de Kung, aproveitando-se do descontentamento do povo, opôs-se à sua volta ao sul de Ho. Os cinco irmãos do rei haviam seguido o desejo de sua mãe de seguir a este e o espe­ravam no norte de Ho. E quando tiveram noticia do movi­mento de Yi, muito desgostosos, mencionaram as admoestações do grande Yu em forma de canções.

Disse o primeiro:

Tal foi a lição de nosso grande antepassado

O povo deve ser amado

E não desprezado.

O povo é a raiz de uma pátria.

Se a raiz é firme, o povo está tranqüilo.

Quando contemplo tudo o que está sob o céu

Qualquer dos homens ou das mulheres comuns

Pode superar-me.

Se o homem Único erra repetidamente,

Deve-se esperar até que apareça o descontentamento?

Antes que este apareça é preciso defender-se contra ele.

Em minhas relações com os milhões de súditos

Deveria sentir tanta inquietação quanto se conduzisse seis cavalos, com rédeas podres

O governante dos homens

Como pode ser, senão respeitador de seus deveres?



Disse o segundo:

Nas Lições ficou dito:

Quando o palácio é um centro de luxúria

E o país um campo de caça;

Quando os espíritos são amados e a música deleita;

Quando há tetos altos e paredes talhadas,

A existência de qualquer dessas coisas

Nunca foi senão prelúdio da ruína.



Disse o terceiro:

Existiu o senhor de Dao e Dang

Que possuía esta região de Qi

Agora abandonamos seus métodos

E arrojamos à confusão suas regras e suas leis

A conseqüência é a extinção e a ruína.



Disse o quarto:

Nosso antecessor era brilhantemente inteligente.

Soberano de milhares de regiões.

Tinha cânones, modelos,

Que transmitiu à posteridade.

O padrão de medida e o peso igualador

Estavam no tesouro real.

Perdemos desvairadamente o guia que nos deu

Derrubando nosso tempo e suprimindo nossos sacrifícios.



Disse o quinto:

Oh! Para onde nos voltaremos?

Entristece-me meu pensamento

Todo o povo nos é hostil.

Em quem podemos confiar?

Cresce a ansiedade em nossos corações.

Ainda que sejam pálidos, nossos rostos estão cobertos de rubor.

Não cuidamos da nossa virtude

E ainda que nos arrependamos não podemos volver ao passado.



V. A Grande Declaração.

1. Na primavera do décimo terceiro ano houve uma grande assembléia em Mang-Qing. Disse o rei: “Ah, vós, governantes hereditários de meus Estados amigos! E vós, todos os meus funcionários, administradores de meus interesses: ouvi atenta­mente a minha declaração”:

2. “O Céu e a Terra são pais de todas as criaturas e entre todas as criaturas o homem é o mais altamente dotado. Entre os homens, aquele que é sinceramente inteligente chega a ser o grande soberano. E o grande soberano é o pai do povo. Pois bem: Chou, rei de Shang, não venera o Céu e inflige calamidades ao povo. Entregue à embriaguez e à luxúria, atreveu-se a exercer uma opressão cruel. Estendeu o castigo dos ofensores a todos os seus parentes. Colocou os homens nos postos administrativos de acordo com o princípio hereditário. Utiliza-o para possuir palácios, torres, pavilhões, diques, lagos e todas as outras extravagâncias, para mais penoso prejuízo vosso, milhares de criaturas do povo. Queimou e chacinou os leais e os bons. Violou mulheres prenhes. O Grande Céu indignou-se e encarregou meu falecido pai Wen de desenca­dear o seu terror. Mas este morreu antes de terminar sua tarefa.

“Por isto, eu, Fa, o moço, por vosso intermédio, gover­nantes hereditários de meus Estados amigos, contemplei o governo de Shang. Mas Chou não têm um coração arrependi­do. Senta-se de cócoras, não serve a Deus nem aos espíritos do Céu e da Terra, abandona o templo dos seus antepassados e não sacrifica nele. Todas as vitimas e os vasos de painço se convertem em presa dos malvados ladrões, e ele diz: “O povo é meu; a dignidade celestial é minha”. E nunca trata de corrigir sua mente desdenhosa.

3. “Para ajudar a gente humilde deu-lhe o céu governantes e instrutores, para que possam ajudar a Deus a assegurar a tranqüilidade das quatro partes do reino. Acerca dos que são e dos que não são criminosos, como me atrevo a fazer con­cessão aos meus próprios desejos?

“Quando o poder é o mesmo, medi a virtude das partes. Quando a virtude é a mesma, medi sua retidão”. Chou possui centenas de milhares e milhares de funcionários, mas estes têm centenas e milhares de opiniões. Eu não tenho mais do que três mil funcionários, mas têm todos uma só opinião. A iniqüidade de Shang é completa. O Céu ordena que ela seja destruída. Se eu não obedecesse ao Céu, minha iniqüidade seria igualmente grande.

4. “Eu, o jovem, estou repleto de apreensões de princípio a fim. Recebi a ordem de meu falecido pai Wen. Ofereci sacrifícios especiais a Deus. Cumpri os serviços à grande terra e conduzo a vossa multidão para executar o castigo indicado pelo Céu. O Céu se compadece do povo. O Céu realiza aquilo que o povo deseja. Ajudai-me, eu que sou o único, à purificar para sempre tudo o que está dentro dos quatro mares. Agora é o tempo! Não se deve perde-lo”.



VI. Afortunado término da Guerra.

1. No primeiro mês, o dia Zankhan seguiu-se imediatamente ao final da lua minguante. O dia imediato seria quando o rei de Zhou iria, pela manhã, sair para atacar e castigar Shang. No quarto mês, à primeira aparição da lua, o rei chegou de Shang à Fang, finalizou todos os movimentos guerreiros e pôs-se a cultivar as artes da paz. Enviou novamente seus cavalos ao sul do monte Hua e deixou em liberdade seus bois na região aberta de Shaolin, mostrando a todos sob o céu que não queria utilizá-los novamente.

No dia Ting-wei sacrificou no templo ancestral de Zhou, quando os príncipes do domínio real e dos domínios de Tien acudiram pressurosos levando os utensílios do sacrifício. O terceiro dia depois era Kang-xu, quando ofereceu um holocausto ao Céu e se inclinou, em adoração, para as colinas e os rios, anunciando solenemente o afortunado término da guerra.

2. Depois que a luz começou a minguar, os príncipes hereditários dos diversos Estados e todos os funcionários receberam suas nomeações de Zhou.

O rei assim falou: “Ó vós, multidão de príncipes. O pri­meiro de nossos reis fundou seu Estado e começou a ampliar seu território. Kung Liû foi capaz de consolidar os serviços de seu predecessor. Mas foi o rei Tai que lançou as bases do patrimônio real. O rei Qi era diligente para a Casa Real. E meu falecido pai, o rei Wen, completou seu mérito e recebeu generosamente os dons do Céu para apaziguar as regiões do nosso grande país. Os grandes Estados temeram seu poder, os pequenos Estados estimaram afetuosamente sua virtude. Em nove anos, no entanto, não pode unir-se todo o reino sob seu governo e ficou a meu cargo realizar seu desejo”.

3. “Detestando os crimes de Shang, anunciei ao grande Céu, à Terra soberana, à famosa colina e ao grande rio pelos quais passei: “Eu, Fa, o probo, rei de Zhou por grande ascendência, estou na iminência de administrar grande corretivo à Shang. Chou, o atual rei de Shang, carece de princípios, é cruel e destruidor com as criaturas do Céu, daninho e tirânico com as multidões, senhor de todos os vagabundos sob o Céu, que se reúnem à sua volta como os peixes nas águas profundas, como os animais na campina. Eu, o jovem, tendo obtido a ajuda de homens virtuosos, proponho-me reverentemente cumprir a von­tade de Deus e pôr fim à sua conduta desordenada. Nossa terra florescente é grande e as tribos do sul e do norte igual­mente me seguem e estão de acordo comigo. Obedecendo reverentemente ao conselho do Céu, realizo minha tarefa punitiva no leste, para dar tranqüilidade aos seus homens e mulheres. Saem-me ao encontro com seus cestos cheios de sedas escuras e amarelas, mostrando com isso as virtudes, as nossas virtudes de reis de Zhou. Os favores do Céu os estimulam a oferecer sua lealdade ao grande Estado de Zhou. E agora vós, concedei-me vossa ajuda para que eu possa socorrer mi­lhões de pessoas e não fazer nada que as envergonhe”.

4. No dia Wuwu o exército cruzou o rio Meng, e no Yuehai formou em ordem de batalha nos limites de Shang, esperando a decisão do Céu. No Xiazi, ao amanhecer, Chou avançou com suas tropas, semelhando um bosque, e reuniu-as no deserto de Mu. Mas não ofereceram resistência ao nosso exército. Os que estavam na primeira fileira voltaram suas lanças e atacaram os que estavam atrás, até que fugiram e o sangue fluiu até submergir os monteiros. Assim o rei Wu vestiu a armadura e o reino ficou em completa desordem. Derrubou o rei de Shang e fez com que o governo retomasse o antigo curso. Libertou o conde Qi da prisão e levantou uma pedra tumular sobre a sepultura de Ganbi. Inclinou-se no seu pa­lanque à porta da aldeia de Shang Yang. Dispersou os tesouros da torre e distribuiu o cereal de Zhao, outorgando assim grandes bens a todos, dentro dos quatro mares, de tal modo que o povo de bom grado submeteu-se.



VII. O grande plano.

1. No décimo terceiro ano o rei foi ao encontro do conde de Qi e disse: “O conde de Qi, o Céu, trabalhando de modo invisível, assegura a tranqüilidade das pessoas mais humildes ajudando-as a conformar-se à sua condição. Não sei como os princípios invariáveis do seu método, ao assim agir, poderiam ser expostos na devida ordem”.

2. O conde de Qi replicou: “Ouvi que na Antigüidade Guan represou as páginas que inundavam a terra e com isso desorganizou a distribuição dos cinco elementos. Shang Di encolerizou-se, em conseqüência, e não lhe deu o Grande Plano com suas nove divisões e assim se permitiu que fossem destruídos os princípios invariáveis do método celestial. Guan foi conservado prisioneiro até a morte, e seu filho Yu ascendeu ao trono e tentou a mesma empresa. O Céu deu-lhe o Grande Plano com as nove divisões e os princípios invariáveis do seu método foram expostos na devida ordem”.

3. “Dessas divisões, a primeira é chamada “cinco elementos”; a segunda “atenção reverente para com as cinco coisas pes­soais”; a terceira, “fervorosa devoção para com os oito objetos do governo”; a quarta, “uso harmonioso dos cinco divisores do tempo”; a quinta, “estabelecimento e uso da perfeição real”, a sexta. “uso discernidor das três virtudes”; a sétima, “uso inteligente dos meios para exame das dividas”; a oitava, “uso meditado das diversas verificações”; a nona, “uso exortatório das cinco fontes de felicidade e uso temeroso das seis oportunidades de sofrimento”.

4. “Primeiro: dos cinco elementos, o primeiro é a água; o segundo é o fogo; e o terceiro a madeira; o quarto o metal; o quinto é a terra. A natureza da água consiste em molhar e descer. A do fogo, em arder e subir. A da madeira, em curvar-se a alinhar-se. A do metal, em amolecer e mudar. A da terra, em receber as sementes e produzir a colheita. O que molha e desce se converte em sal. O que arde e sobe se con­verte em amargo. O que se curva e se alinha se converte em ácido. O que amolece e muda se converte em acre. E da semeadura e colheita procede a doçura”.

5. “Segundo: das cinco coisas pessoais, a primeira é o porte corporal; a segunda a linguagem; a terceira, a vista; a quarta, ouvido; a quinta, o pensamento. A virtude do pobre corporal é a conduta respeitosa. A da linguagem, sua concordância com a razão. A da vista a claridade. A do ouvido, a diferenciação. A do pensamento, a perspicácia. A conduta respeitosa manifesta-se na gravidade. A concordância com a razão, na ordem. A claridade, no entendimento. A diferenciação, na deliberação. A perspicácia, na sabedoria”.

6. “Terceiro: dos oito objetos do governo, o primeiro é o alimento, o segundo a riqueza e os artigos do uso, o terceiro os sacrifícios, o quarto as tarefas do Ministro de Obras Públicas, o quinto as do Ministro da Instrução, o sexto as do Ministro da Justiça, o sétimo as cerimônias que devem ser tributadas aos hóspedes, o oitavo o exército”.

7. “Quarto: dos divisores do tempo, o primeiro é o ano do planeta Júpiter, o segundo a Lua, o terceiro o Sol, o quarto as estrelas e os planetas e espaços zodiacais, o quinto os cálculos do calendário”.

8. “Quinto: da perfeição real. Tendo constituído em si mesmo o mais alto grau e modelo de excelência, o soberano concentra em sua própria pessoa as cinco fontes de felicidade e trata de difundi-las e concede-las às multidões populares. Logo o povo, por sua vez, incorporando tua perfeição, há de devolve-la a ti e assegurará sua conservação. Entre as multi­dões não haverá cabalas ilegais e entre os funcionários não há de existir combinações más e egoísticas. Que o soberano cons­titua em si mesmo o mais alto grau e modelo de excelência.

9. “Entre as multidões haverá algumas pessoas que terão habilidade para planear e agir e para livrar-se do mal. Lembra-­te delas. Haverá algumas que, sem chegar ao mais alto ponto de excelência, não obstante não se envolvem no mal. O soberano deve admiti-las. E quando em seus semblantes de­monstram satisfação plácida e dizem: “Nosso amor baseia-se na virtude”, outorga-lhes teus favores. Assim esses homens rapidamente progredirão até a perfeição do soberano. Este não deve oprimir os desamparados e sem filhos, nem deve temer os elevados e distintos. Quando os funcionários tem habilidade e faculdades administrativas, deixai que as aumen­tem para cultivar sua conduta; e com isso se promoverá a prosperidade do país. Todos esses homens justos, em virtude de sua competência, progredirão em bondade. Se não podes induzi-los a que tenham aquilo que amam em suas famílias, procederão imediatamente de modo a tornar-se culpados de crimes. No que respeita aos que não amam a virtude, ainda que lhes confiras favores e emolumentos, nada mais farão do que implicar-te na culpa de empregar o mal.

Sem desvio nem irregularidade

Exerce a virtude real.

Sem preferências egoístas,

Segue o caminho real.

Sem antipatias egoístas,

Segue a senda real.

Evita o desvio, evita a parcialidade:

O caminho real é simples e fácil.

Evita a parcialidade, evita o desvio;

O caminho real é plano e fácil.

Evita a perversidade, evita a unilateralidade:

O caminho real é justo e reto.

Busca sempre esta perfeita excelência,

Volta sempre a esta excelência perfeita.

10. “Continuou dizendo: “Esta amplificação da perfeição real contém a regra invariável e constitui a grande lição; mais ainda, é a lição de Deus. Todas as multidões, instruídas nesta amplificação da excelência perfeita, e levando-a a prática, aproximar-se-ão da glória do Filho do Céu e dirão: “O Filho do Céu é o pai do povo e por isso se converte no soberano de tudo o que existe sob o firmamento”.



VIII. Declaração sobre a embriaguez.

1. O rei fala do seguinte modo: “Fazei conhecer claramente minhas grandes ordens no país de Mei”.

“Quando vosso venerável pai, o rei Wen, lançou as bases de nosso reino na região ocidental, fez declarações e admoes­tações aos príncipes das diversas regiões e a todos os altos funcionários, com seus ajudantes e os diretores dos negócios, dizendo dia e noite: “Devem ser empregados álcoois nos sacrifícios”. Quando o Céu outorgou seu decreto favorecedor e assentou as bases da eminência do nosso povo, utilizavam-se as bebidas espirituosas unicamente nos grandes sacrifícios. Quando o Céu envia seus terrores e nosso povo se desorganiza consideravelmente com eles e perde sua virtude, pode-se atri­buir invariavelmente ao seu abuso, de bebidas. Mais ainda, a ruína dos Estados pequenos e grandes, por esses terrores é invariavelmente motivada por sua culpa no uso de bebidas.

2. “O rei Wen admoestou e instruiu os jovens nobres que desempenhavam funções administrativas ou qualquer emprego para que não utilizassem ordinariamente as bebidas espirituosas e em todos os Estados exigiu que esses funcionários não bebessem a não ser por ocasião dos sacrifícios, e que então predominasse a virtude de modo a que não pudesse haver embriaguez”.

3. Disse: “Ensine, meu povo, aos jovens, que unicamente devem amar os produtos da terra, pois assim serão bons seus corações. Ouçam os jovens atentamente as constantes recomen­dações de seus pais e contemplem todas as ações virtuosas, sejam estas grandes ou pequenas, a mesma luz, com atenção vigilante”.

“Tu, povo da terra de Mei, se podes empregar teus membros, cultivando amplamente tuas lavouras e mostrando-te ativo no serviço de teus pais e irmãos mais velhos; e se com teus carros e bois transitas diligentemente até uma distância que te permita atender filialmente a teus pais, então teus pais serão felizes e poderás preparar clara e fortemente tuas bebidas espirituosas e utilizá-las”.

4. “Ouvi constantemente minhas instruções, todos vós, meus altos funcionários e chefes de seção, todos vós, meus nobres principais; quando houverdes cumprido amplamente o vosso dever na atenção de vossos maiores e no serviço de vosso governante, podereis comer e beber livremente até saciar-vos. E para falar de coisas mais importantes: quando puderdes manter constantemente um exame vigilante de vós mesmos e vossa conduta esteja de acordo com a virtude correta, então podereis apresentar as oferendas do sacrifício e ao mesmo tempo entregar-vos às festividades. Nesse caso sereis verda­deiramente ministros que prestais o devido serviço ao vosso rei o Céu aprovará igualmente vossa grande virtude, de modo que nunca sereis esquecidos na Casa Real”.



IX. Contra o Ócio luxurioso.

1. Disse o duque de Zhou: “Oh! o homem superior baseia-se nisto: não se entregar ao ócio luxurioso. Antes de mais nada, compreende que o penoso trabalho de semear e colher leva à fartura, assim como compreende que o povo humilde depende do trabalho para sua subsistência. Observou entre os humildes que quando os pais trabalharam diligentemente na semeadura e na colheita, seus filhos não compreendem com freqüência esse penoso trabalho e se entregam ao ócio e à vagabundagem aldeã e se tornam completamente desorganizados. Ou, quando assim não agem, desprezam seus pais, dizendo: “Estes velhos ouviram e nada sabem”.

2. O duque de Zhou disse: “Oh! Ouvi que noutro tempo Kung Zung, um dos reis de Yin, era sério, humilde, reverente e timoratamente prudente. Conformava-se reverentemente aos decretos do Céu e abrigava uma reverente apreensão no governo do povo, sem se atrever a abandonar-se ao ócio luxurioso. Assim desfrutou o trono durante setenta e cinco anos. Se passarmos à época de Zhou Zung, este trabalhou a princípio fora da Corte, entre as mais humildes criaturas. Quando subiu ao trono preferia não falar mas quando falava suas palavras eram cheias de harmoniosa sabedoria. Não se atreveu a entregar-se a um ócio inútil, presidiu admirável e tranqüilamen­te as regiões de Yin, até que em todas elas pequenas e gran­des, não houve um só murmúrio adverso. Assim desfrutou o trono durante cinqüenta e nove anos. No caso de Zuxia, este se negou a ser rei injustamente e foi, a princípio, um dos mais humildes súditos. Quando subiu ao trono, sabia de que podia depender o povo de seu apoio e foi capaz de exercer uma bondade protetora para com as massas e não se atreveu a tratar depreciativamente os viúvos e viúvas. Assim desfrutou o trono durante trinta e três anos. Os reis que vieram depois gozaram a ociosidade desde o nascimento. Desfrutando a ociosidade desde o nascimento não conhecia o penoso trabalho de semear e colher e não haviam ouvido falar do árduo labor da gente humilde. Não aspiravam outra coisa senão um prazer excessivo e por isso nenhum deles viveu muito tempo. Reinaram durante dez anos, durante sete ou oito, cinco ou seis, ou talvez unica­mente durante três ou quatro anos.



X. Discurso do Marques de Qin.

1. Disse o duque: “Ah! Meus funcionários, ouvi-me em si­lêncio. Declaro-vos solenemente a mais importante de todas as máximas. Foi o que disseram os antigos: “Assim sucede a todos: amam, de preferência, o ócio. Não há dificuldade em censurar os outros, mas é difícil aceitar a censura e dar-lhe livre curso. O que me entristece o coração é que hajam trans­corrido os dias e os meses e não seja provável que voltem, de modo que devo seguir um caminho diferente.

2. “Ali estavam meus velhos conselheiros. Eu disse: “Não farão o que eu desejo”, e os odiei. Ali estavam meus novos conselheiros e eu quis outorgar-lhes minha confiança. Tal é certamente o que eu fiz. Mas daí por diante me aconselhei com os homens de cabelos brancos e me livrarei do erro. Aquele bom funcionário velho! Sua força está esgotada, mas preferiria não tê-lo como conselheiro. Aquele arrojado e bravo funcionário! Seu modo de caçar e de guiar a carruagem são impecáveis, mas preferiria não tê-lo por conselheiro. Quanto aos homens de palavras sutis, hábeis e astutos, capazes de fazer mudar de propósito o homem bom, que hei de fazer com eles?

3. “Pensei profundamente e cheguei a uma conclusão. Tenha eu um só ministro resolvido, simples e sincero, sem outra habilidade mas com uma inteligência honrada e possuído de generosidade, que considere os talentos alheios como se ele mesmo os possuísse, e que quando encontra homens perfeitos e sábios os ame de coração mais do que a boca pode dizer, mostrando-se realmente capaz de apoiá-los. Semelhante ministro seria capaz de proteger meus descendentes e meu povo e seria verdadeiramente um outorgador de benefícios.

“Mas se o ministro quando encontra homens hábeis os inveja e odeia; se quando encontra homens perfeitos e sábios opõem-se a eles e não consente que progridam, mostrando-se incapaz de ajudá-los, semelhante homem não será capaz de proteger meus descendentes e meu povo e não será um homem perigoso?”.

“O declínio e queda de um Estado podem ser devidos a um só homem. A glória e a tranqüilidade de um Estado podem também ser devidos à bondade de um só