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Zhong Yong, ou o Justo Meio de Confúcio (por A. Doeblin)

1.Aquilo que o céu outorgou se chama Natureza. A harmonia com essa natureza chama-se Caminho do Dever. A ordenação desse caminho chama-se Instrução.

2. Nem por um instante se pode abandonar o caminho. Se pudesse ser abandonado, não seria o caminho. A esse respeito, o homem não superior, para ser prudente, não espera até ver as coisas nem para ser apreensivo espera até ouvir as coisas.

3. Nada há mais visível do que o secreto. Nada mais mani­festo do que o minúsculo. Portanto, o homem superior cuida de si mesmo quando está sozinho.

4. Quando não há agitações de prazer, de cólera, de pesar ou de alegria, pode-se dizer que a mente se encontra em estado de Equilíbrio. Quando esses sentimentos se agitam e atuam em seu devido grau, produz-se o que se pode chamar estado de Harmonia. Esse Equilíbrio é a grande base da qual procedem todos os atos humanos no mundo e essa Harmonia é o caminho universal que todos eles devem seguir.

5. Se existem em sua perfeição esses estados de equilíbrio e da harmonia, prevalecerá uma ordem feliz no Céu e na Terra e todas as coisas serão estimuladas e florescerão.

6. “Que o homem superior sintetize o sistema do Meio, deve-se ao fato de ser um homem superior e assim manter sempre o Meio. Que o homem inferior atue contra o sistema do Meio, deve-se ao fato de ser ele um homem inferior e não ter cautela”.

Disse o Mestre: “Perfeita é a virtude que está de acordo com o Meio. Entre o povo, raros foram aqueles que puderam praticá-la!"

7. Os homens e as mulheres comuns, ainda que ignorantes, podem participar no conhecimento do bom caminho. Contudo, em seus últimos desenvolvimentos existe aquilo que nem mesmo o sábio conhece. Os homens e as mulheres comuns, por muito baixo que seja o nível do seu caráter, podem leva-lo à prática; contudo, em seus últimos desenvolvimentos existe aquilo que nem mesmo o sábio é capaz de levar à prática. Grandes como são o Céu e a Terra, ainda os homens encontram neles algumas coisas que não satisfazem. Assim é que se o homem superior falasse de seu sistema em toda a sua grandeza, nada se encon­traria no mundo capaz de abarca-lo, e se mencionasse sua pequenez, nada no mundo se encontraria capaz de parti-lo.

No Livro de Poesia se diz: “Eleva-se ao céu o falcão. Saltam na profundidade os peixes”. Isto exprime como é visto, por cima e por baixo, esse sistema.

8. O sistema do homem superior pode ser encontrado em seus elementos simples, no trato dos homens e das mulheres comuns. Mas, em seus extremos limites, brilha.

9. Disse o Mestre: “O caminho não está longe do homem. Quando os homens tratam de seguir um caminho que esteja longe das indicações comuns da consciência, esse caminho não pode ser considerado O Caminho”.

No Livro de Poesia se diz: “Ao cortar um cabo de machado, o modelo não está longe”. Empunhamos um cabo de machado para cortar o outro; e, no entanto, se olhando de relance um e outro, podemos considerá-los diferentes. Eis como o homem superior governa os homens, de acordo com sua natureza, com o que lhe é próprio, e assim que estes mudam o que estava errado, ele se detém.

10. Quando se cultiva até o máximo o princípio de sua natureza e assim se procura exercita-los segundo o principio de reciprocidade, não se está longe do caminho. Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam.

11. Disse o mestre: “No caminho do homem superior há quatro coisas que ainda não alcancei: servir a meu pai como queria que meu filho me servisse; isto, não consegui! Servir ao meu príncipe como quisera que meu ministro me servisse; isto, não consegui. Servir a meu irmão mais velho como quisera que me servisse meu irmão mais moço; isto, não consegui. Ser um exemplo de conduta como um amigo como quisera que este fosse para mim; isto, não consegui. Sincero na prática das virtudes ordinárias e prudente ao menciona-las, se tem algum defeito na prática, o homem superior não se atreve mais do que a exigir esforços novos de si mesmo; se comete algum excesso verbal, não se atreve a conceder-se semelhante licença. Assim suas palavras estão de acordo com seus atos, e seus atos de acordo com suas palavras. Não será precisamente uma completa sinceridade o que caracteriza o homem superior”.

12. O homem superior faz aquilo que é próprio da situação em que se encontra. Não deseja ir além.

Numa situação de riqueza e honrarias, faz o que é próprio de uma situação de riqueza e honrarias. Numa situação pobre e humilde, faz o que é próprio de uma situação pobre e hu­milde. Situado entre tribos bárbaras, faz o que é próprio de uma situação entre tribos bárbaras. Numa situação de penosas dificuldades, faz o que é próprio de uma situação de penosas dificuldades. O homem superior não pode encontrar-se numa situação em que não seja ele mesmo.

13. Numa situação elevada não trata com desprezo os inferiores. Numa situação humilde não pede o favor dos superiores. Corrige-se a si mesmo e nada pede aos outros, de modo que não tem decepções. Não murmura contra o céu, não resmunga contra os homens.

Eis por que o homem superior é tranqüilo e plácido, e espera os decretos do céu, enquanto o homem inferior caminha por perigosas sendas, em busca de acontecimentos afortunados.

14. Disse o Mestre: “Como são abundantes as demonstrações que os seres espirituais fazem das faculdades que lhes correspondem! Andamos a procura-los, mas não os vemos. Andamos a ouvi-los, mas não os ouvimos. E, no entanto, intervêm em todas as coisas e nada existe sem eles. Fazem que todos os habitantes do reino jejuem e se purifiquem e se ataviem com suas mais ricas roupagens para assistir a seus sacrifícios. Então, como a água que transborda, parecem estar sobre as cabeças e à esquerda e à direita de seus adoradores.

15. O duque Ai indagou sobre o governo.

Disse o Mestre: “O governo de Wen e Wu mostra-se nos registros: as tabuinhas de madeira e bambu. Se há homens, o governo florescerá. Mas, sem homens seu governo decai e se encerra.

16. Disse o Mestre: “Eu sei por que não é freqüentado o caminho do Meio. O inteligente vai além dele e o estúpido não chega até ele. Eu sei por que não é compreendido o caminho do Meio. O homem virtuoso vai além dele e o indigno não chega até ele. Não há corpo que não coma e não beba. Mas são poucos os que podem diferenciar os sabores”.

Disse o Mestre: “Ah! Como é pouco freqüentado o caminho do Meio!”

17. Disse o Mestre: ‘Todos os homens dizem: “Somos sá­bios”, mas se são empurrados e aprisionados numa rede, ar­madilha ou laço, não sabem como livrar-se. Todos os homens dizem: “Somos sábios” mas se lhes acontece escolherem o caminho do Meio não são capazes de aí permanecer nem por um mês. Zi lu perguntou sobre a energia.

Disse o Mestre: “Mencionas a energia do Sul, a energia do Norte ou aquela que tu mesmo poderias cultivar?”.

“Mostrar indulgência e doçura ao ensinar aos demais e não se vingar de uma conduta injustificada: esta é a energia das regiões meridionais, e o homem bom procura estuda-la. Estar sob o peso das armas e encontrar a morte sem la­mentos: esta é a energia das regiões do Norte, e o homem forte a estuda. Mas o homem superior cultiva uma harmonia amistosa sem ser débil. Como é firme, na sua energia! Permanece er­guido, ao centro, sem se inclinar para um nem outro lado! Como é firme, na sua energia! no governo do seu país preva­lecem os bons príncipes, não deixa de ser aquilo que era em seu refúgio. Quando prevalecem os maus príncipes no país, mantêm sem desfalecimentos seu caminho até a morte. Como é firme, em sua energia!”

18. Disse o Mestre: “Viver na obscuridade e apesar disso realizar prodígios para ser mencionado com honra nas idades futuras: eis o que não faço”.

19. Disse o mestre: “O homem bom trata de proceder de acordo com o bom caminho, mas quando já andou meio caminho, abandona-o: eu não sou capaz de deter-me assim”.

“O homem superior põe-se de acordo com o caminho do Meio. Ainda que possa ser completamente desconhecido, ainda que o mundo não repare nele, não sente pesar. Só o sábio é capaz disso”.

“Com os homens justos, o desenvolvimento do governo é rápido como é rápida o da vegetação na terra. E seu governo pode ser chamado uma torrente que facilmente se avoluma”.

20. Portanto, a administração do governo consiste em conse­guir homens adequados. Esses homens devem ser conseguidos por meio do próprio caráter do governante. Esse caráter deve ser cultivado trilhando os caminhos do dever. E freqüentar esses caminhos do dever é ser cultivado mediante o fomento da benevolência.

21. “A benevolência é o elemento característico da humanidade e o seu grande exercício está no amor aos parentes. A retidão é a concordância dos atos com o que é correto, e o seu grande exercício consiste em honrar o que é digno. A diminuição do amor devido aos parentes e a interrupção das honras devidas ao homem digno são produzidas pelo princípio da correção”.

22. “Quando os que estão em situações inferiores não possuem a confiança dos seus superiores, não podem reter o governo do povo”.

“Daí que o soberano não possa descuidar o cultivo do caráter. Desejando cultivar seu caráter, não pode deixar de servir a seus pais. Para servir a seus pais, não pode deixar de adquirir o conhecimento dos homens. Para conhecer os ho­mens não pode dispensar o conhecimento do Céu”.

23. “Os deveres de obrigação universal são cinco e são três as virtudes com as quais são eles praticados. Os deveres são os que existem entre o soberano e o ministro, entre pai e filho, entre esposo e esposa, entre irmão maior e irmão menor e os que correspondem ao trato entre amigos. Esses cinco são deveres de obrigação universal. O conhecimento, a magnanimidade e a energia são as três virtudes universalmente obrigatórias. E o meio pelo qual põem os deveres em prática é a simplicidade.

24. “Alguns nascem com o conhecimento desses deveres. Alguns o conhecem através do estudo. Alguns adquirem esse conhecimento depois de um penoso sentimento de sua ignorância. Mas, uma vez possuído o conhecimento, o resultado é o mesmo. Alguns o praticam com naturalidade. Outros atraídos pelos seus benefícios. Outros, através de esforços enérgicos. Mas, uma vez praticados, o resultado é o mesmo’”.

25. Disse o Mestre: “Ser amante do saber é estar próximo do conhecimento. Agir com energia é estar próximo da magnanimidade. Possuir o sentimento da vergonha é estar próximo da energia”.

26. “Aquele que conhece essas três coisas sabe como cultivar o caráter. Sabendo como cultivar o caráter, sabe como governar os homens. Sabendo como governar os homens, sabe como governar o reino com todos os seus Estados e famílias.”

27. Todos os que detêm o governo do reino com seus Estados e famílias têm de seguir nove regras fixas: o cultivo do caráter, a honra devida aos homens virtuosos e de talento, o afeto a seus parentes, o respeito aos grandes ministros, o trato bondoso e equânime a todo o corpo de funcionários, o trato com a massa do povo como se fossem crianças, o estimulo à concorrência de todas as classes de artífices, o trato indulgente com os homens à distância e o bondoso apreço aos príncipes dos Estados.

28. “Mediante o cultivo do seu próprio caráter, pelo governante, realizam-se os deveres de obrigação universal. Honrando os homens virtuosos e de talento, livra-se dos erros de julgamento. Mostrando afeto para com os parentes, não há murmu­ração nem ressentimento entre seus tios e seus irmãos. Respeitando aos grandes ministros, livra-se de erros na prática do governo. Tratando com bondade e consideração a todo o corpo de funcionários, estes são levados a responder com o maior agradecimento a suas cortesias. Tratando a massa do povo como se fossem crianças, estas são levadas a exortar-se entre si para praticar o bem. Estimulando a consciência de todas as classes de artífices, ampliam-se seus recursos para as despesas. Tratando indulgentemente os homens a distância, de toda parte estes acodem para ele. E apreciando bondosamente os princípios dos Estados, chega à veneração de todo o reino.

29. A correção pessoal e a purificação, com a ordenação cuidadosa de suas vestes e o não fazer movimento contrário às regras da correção: tal é, para um governante, o modo de cultivar sua pessoa. Afastar os caluniadores livrar-se das seduções da beleza, não dar importância aos ricos e honrar a virtude. Tal é, para ele, o meio de estimular os homens dignos e de talento. Dar-lhes postos de honra e grandes emolumentos, compartilhar com eles seus gostos e aversões, tal é para ele, o meio de estimular seus parentes para que o amem. Dar-lhes numerosos funcionários para aliviá-los de suas ordens e incumbências, tal é, para ele, o meio de estimular os grandes ministros. Conceder-lhes confiança generosa, aumentar seus emolumentos tal é o meio de estimular o povo. Exames diários e provas mensais, e conseguir que suas reações estejam de acordo com seus trabalhos, tal é o meio de estimular as classes de artífices. Acompanhá-los quando saem e ir-lhes ao encontro quando chegam, recomendar o bom dentre eles e mostrar compaixão pelo incompetente, tal é o modo de tratar indulgentemente os homens distantes. Restaurar as famílias cuja linha dinástica se rompera e revivificar os Estados que se tenham extinguido, pôr em ordem os Estados em que haja confusão e apoiar os que estejam em perigo, assinalar datas fixas para as audiências na Corte e para a recepção de seus enviados, despedi-los depois de tratá-los liberalmente e celebrar sua chegada com pequenos tributos tal é o modo de apreciar os príncipes dos Estados.

30. Todo aquele que mantêm o governo do reino com seus Estados-família deve ter em vista as anteriores nove regras fixas. E o meio pelo qual são elas postas em prática, é a simplicidade.

31. Em todas as coisas o êxito depende da preparação prévia e sem essa preparação prévia o malogro é certo. Se de antemão se determina aquilo que se há de dizer, não haverá hesitação na voz. Se previamente se determinam os assuntos, estes não oferecem dificuldades. Se previamente se determinam as próprias ações, não haverá aborrecimento por via deles. Se previamente foram determinados os princípios de conduta, sua prática será inesgotável.

32. Quando os que se encontram em situações inferiores não obtém a confiança do soberano, não podem ter êxito no governo do povo. Há um meio de conquistar a confiança do soberano.

Quando os amigos não têm confiança em alguém poderá este obter a confiança do soberano. Quando alguém não obedece a seus pais, não será sincero com os amigos. Há um meio de ser obediente com os seus pais. Se alguém, ao pensar em si mesmo, vê que lhe falta sinceridade, não será obediente a seus pais. Há um meio para conseguir a sinceridade consigo mesmo. Se um homem não compreende o que é o bem, não alcançará a sinceridade em si mesmo.

33. A sinceridade é o caminho do Céu. Alcançá-la, é o caminho dos homens. É sincero aquele que sem esforço vê o que é justo e compreende sem excitar o pensamento. Este é o sábio que natural e facilmente personifica o bom caminho. Aquele que alcança a sinceridade é o que escolhe o que é bom e ao que é bom se prende firmemente.

34. Para isso alcançar, requer-se o estudo intensivo do bem, sua exata investigação, uma cuidadosa reflexão sobre ele, um claro discernimento e a prática sincera do bem.

35. O homem superior, quando há algo que não estudou, ou quando no que estudou algo existe, que não pode compreender, não interrompe o trabalho. Quando há algo que não investigou ou no que investigou, algo existe que ele não sabe, não interrompe o trabalho. Quando há algo ainda por meditar ou naquilo que meditou há algo que não compreende, não interrompe o trabalho. Quando há algo que não discerniu ou não pode dis­cernir claramente, não interrompe o trabalho. Se algo existe que não praticou ou cuja prática carece de seriedade, não interrompe o trabalho. Se outro homem consegue êxito mediante um esforço, ele utilizará uma centena de esforços. Se outro homem alcança êxito mediante dez esforços, ele utilizará mil esforços.

36. Deixai um homem proceder desse modo e, ainda que seja duro de entendimento, certamente se tornará inteligente, ainda que seja fraco, certamente chegará a ser forte”.

Quando possuímos inteligência como resultado da sinceridade, esta condição deve ser atribuída à natureza. Quando possuímos sinceridade como resultado da inteligência, esta con­dição deve ser atribuída à instrução. Mas, dada à sinceridade, haverá inteligência. Dada a inteligência, haverá sinceridade.

Só aquele que possui a sinceridade mais completa que pos­sa existir sob o Céu poderá desenvolver completamente sua natureza. Sendo capaz de desenvolver sua própria natureza, pode fazer o mesmo com a natureza dos demais. Sendo capaz de desenvolver completamente a natureza dos demais, pode desenvolver completamente as naturezas dos animais e das coisas. Sendo capaz de desenvolver completamente as naturezas das criaturas e das coisas, pode ajudar as forças transformadoras e nutrizes do Céu e da Terra. Sendo capaz de ajudar as forças transformadoras e nutrizes do Céu e da Terra, pode formar uma trindade com o Céu e a Terra.

37. Próximo deste está aquele que cultiva ao máximo os vestígios de bondade que nele existe. Através deles pode chegar à posse da sinceridade. Essa sinceridade se evidencia. Evidenciando-se, torna-se manifesta. Tornando-se manifesta, faz-se brilhante. Fazendo-se brilhante, afeta os demais. Afetando os demais, estes mudam, graças a ela. Mudados, graças a ela, transformam-se. Unicamente aquele que possui a mais completa sinceridade que possa existir sob o céu é capaz de transformar.

38. A sinceridade é aquela mediante a qual se efetua a perfeição de si mesmo, e seu meio é aquele pelo qual o homem deve dirigir-se a si mesmo.

39. A sinceridade é o fim e o começo de todas as coisas. Sem sinceridade, nada haverá. A esse respeito, o homem superior considera a obtenção da sinceridade como a coisa, sobre todas, excelente.

Aquele que possui a sinceridade não se limita a realizar a perfeição de si mesmo. Com essa qualidade completa também os outros homens e coisas. O completar-se a si mesmo mostra a sua perfeita virtude. O completar os outros homens e coisas mostra o seu conhecimento. Estas são duas virtudes que cor­respondem à natureza, este o modo pelo qual se efetua uma união no exterior e no interior. Portanto, sempre que ele, o homem inteiramente sincero, as utiliza, isto é, essas virtudes - seus atos serão justos.

Portanto, à sinceridade completa corresponde o incessante.

Se não cessa, continua por muito tempo. Continuando por muito tempo, evidencia-se a si mesma.

Evidenciando-se a si mesma, chega longe. Chegando longe, torna-se grande e substancial. Sendo grande e substancial, torna-se alta e brilhante.

40. Grande e substancial: eis como contém todas as coisas. Alta e brilhante: eis como esparge sobre todas as coisas. Chegando longe e continuando por muito tempo: eis como aperfeiçoa todas as coisas.

Sendo tão grande e substancial, o indivíduo que a possui é o igual da Terra. Sendo tão alta e brilhante torna-o igual do Céu. Chegando tão longe e continuando por tanto tempo, fez-se infinito.

Sendo essa a sua natureza, sem nenhuma ostentação se manifesta, sem nenhum movimento produz mudanças, sem nenhum esforço cumpre seus fins.

41. O modo do Céu e da Terra pode ser completamente exposto numa frase: não tem nenhuma duplicidade, e assim produz as coisas de um modo impenetrável.

O modo do Céu e da Terra é grande e substancial, alto e brilhante, de amplo alcance e larga duração.

O céu que temos diante de nós não é mais do que esse ponto que brilha claramente. Mas quando o vemos em sua extensão inesgotável, o Sol, a Lua, as estrelas e as constelações do zodíaco aparecem suspensas dele e todas as coisas cobertas por ele. A terra que temos diante de nós não é mais do que um punhado de solo. Mas quando a contemplamos em sua am­plitude, em sua espessura, sustenta montanhas como o Hua e o Yo, sem lhes sentir o peso e contém os rios e os mares, sem que estes se esparramem. A montanha que temos diante de nós parece apenas uma pedra, mas quando contemplada em toda a sua amplitude vemos como nela crescem a erva e as árvores e os pássaros e os animais que nela vivem; e nela se encontram coisas preciosas que os homens recolhem. A água que temos diante de nós não parece mais do que um gole, mas se estendemos o olhar às suas profundidades insondáveis, vemos que nela nascem as grandes tartarugas, as iguanas, os lagartos, os dragões e os peixes e nela pululam os artigos de valor e as fontes de riqueza.

Como é grande o caminho do sábio!

Como a água que derrama, produz e nutre todas as coisas e se eleva à altura do céu.

A grandeza completa! Abrange as trezentas regras de cerimônia e as três mil regras da conduta.

Espera o homem adequado, e logo é encontrada.

Por isso se disse: “Só pela virtude perfeita pode conver­ter-se em realidade o perfeito caminho, em todas as suas direções”.

42. Portanto, o homem superior honra sua natureza virtuosa e investiga e estuda constantemente, procurando leva-la à sua amplitude e grandeza, para não omitir nenhum dos pontos mais estranhos e diminutos que ela abrange, e eleva-la à maior altura e brilho, a fim de seguir o caminho do Meio. Utiliza seus antigos conhecimentos e continuamente adquire outros novos. Exerce honesta e generosa seriedade na avaliação e prática de toda regra social.

43. Assim, quando ocupa uma alta situação, não é orgulhoso, e quando ocupa uma situação modesta não é insubordinado. Quando o reino é bem governado, está certo de elevar-se por suas palavras. E quando o reino é mal governado, está certo de obter indulgência pelo seu silêncio. Não é isto o que lemos no Livro de Poesia: “É inteligente e prudente, e assim protege sua pessoa?”

44. Todas as coisas realizam-se conjuntamente sem prejudicar-se umas às outras. O curso das estações e do Sol e da Lua realizam-se sem colisão. As menores energias são como correntes fluviais. As maiores energias são vistas em poderosas transformações. É isso que torna tão grande o céu e a terra.

45. Unicamente aquele que possui todas as qualidades sábias que possam existir sob o Céu mostra-se rápido na compreensão, claro no discernimento, de inteligência ampla, com um conhecimento que tudo abrange, dotado para exercer o governo, magnânimo, generoso, benigno e humilde, dotado para exercer a indulgência, impulsivo, enérgico, firme e constante, capaz de manter uma influência firme, apto, grave, nunca desviado do meio e correto, digno de veneração, culto, distinto, concentrado, investigador, capaz de exercer o discernimento.

Tudo abarca e é amplo, profundo e ativo como uma fonte e mostra suas virtudes em tempo oportuno.

Tudo abarca e é amplo como o céu. Profundo e ativo como a fonte, parece-se com o abismo. É visto, e todo o povo o venera. Fala, e todo o povo acredita. Age, e todo o povo o apóia.

46. Portanto sua fama ultrapassa o Reino do Meio e se estende a todas as tribos bárbaras. Até onde chegam os barcos e as carruagens. Até onde penetra a força do homem, onde os céus dão sombra e a terra sustenta, onde brilham o Sol e a Lua, onde caem a geada e o orvalho, todos os que têm sangue e respiram honram-no e sinceramente o amam. Por isso se disse: “Ele é o igual do Céu”.

Unicamente aquele que possui a sinceridade mais completa que pode existir sob o céu pode ajustar as grandes relações invariáveis da humanidade e conhecer as operações de trans­formação e de nutrição do Céu e da Terra. Terá esse indivíduo algum ser ou algo superior a ele, do qual dependa?

Chamai-o homem em seu ideal; quanto é sincero! Chamai­o abismo: quanto é profundo! Chamai-o Céu: quanto é vasto!

47. Quem pode conhecê-lo senão aquele que é rápido na com­preensão, claro no discernimento, de inteligência ampla, com um conhecimento que tudo abrange e possui todas as virtudes celestes?

No Livro de Poesia se diz: “Sobre sua túnica bordada, ela veste uma roupa simples, sem adornos”, indicando que não lhe agrada a ostentação de elegância na túnica. Assim também o costume do homem superior é preferir ocultar a sua virtude, enquanto cada dia mais ilustre fica, e o costume do homem inferior é procurar notoriedade, enquanto cada dia pior vai ficando. É característico do homem superior parecer insípido e no entanto jamais saciar, mostrar uma negligência simplória e no entanto fazer com que a reconheçam em suas obras, parecer ingênuo e no entanto saber discernir. Ele sabe como o distante está contido no que é próximo. Sabe se tornar visível. Sabe de onde sopra o vento. Um homem desses, podemos estar certos, far-se-á virtuoso.

No Livro de Poesia se diz: “Embora o peixe esteja sub­merso e parado no fundo das águas, podemos vê-lo claramente’. Assim o homem superior examina seu coração para que nele nada possa haver de injusto, o não possa ter motivo de insatisfação consigo mesmo. Aquilo que no homem superior não pode ser igualado é simplesmente isto: sua obra, que os outros homens não podem ver”.

48. No Livro de Poesia se diz: “Contemplo com prazer tua virtude brilhante, que não faz grande exibição de si mesma com ruídos e aparências”. Disse o Mestre: “Entre os instrumentos para transformar o povo, os ruídos e aparências não exercem mais do que influências banais.” Em outra se diz: “Sua virtude é leve como um fio do cabelo”. Pode-se dizer também que o fio de cabelo é leve com seu tamanho. “As obras do Céu supremo não têm som nem cheiro. Essa é a perfeita virtude”.