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O Zhong Yong ou A Doutrina do Meio

Tratado que teria sido compilado por Zisi, neto de Confúcio e Mestre de Mêncio, acerca da questão do caminho central na doutrina dos letrados e seus aspectos filosóficos e sociais.

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I. A Harmonia Central.

(I) O que é dado por Deus é o que chamamos natureza humana. Cumprir a lei de nossa natureza humana é o que chamamos caminho. O cultivo do caminho é o que chamamos instrução.

O Caminho é uma lei a que não podemos, por um só instante que seja em nossa existência, fugir. Se pudéssemos dele escapar, não seria mais o Caminho. Por conseqüência, eis porque o homem moral (ou homem superior) espreita diligentemente o que seus olhos não podem ver, receia e se atemoriza com o que seus ouvidos não podem ouvir.

Nada há de mais evidente do que o que não pode ser visto com os olhos e nada de mais palpável do que o que não pode ser percebido pelos sentidos. Por conseguinte, o homem moral espreita diligentemente seus pensamentos secretos.

Quando as paixões, tais como a alegria, a cólera, o pesar e o prazer ainda não acordaram, temos nosso eu "central" ou ser moral (chung). Quando essas paixões acordam e cada qual, e todas, atingem uma certa medida e grau, temos a "harmonia", ou ordem moral (ho). Nosso eu central, ou ser moral, é a grande base da existência, e a "harmonia", ou ordem moral, é a grande base da existência, é a lei universal no mundo.

Quando nosso verdadeiro eu central e a harmonia forem atingidos, o universo então torna-se um cosmo e todas as coisas chegam a seu completo desenvolvimento e grandeza.



II. O Meio Dourado.

(II) Confúcio observou - "A vida do homem moral é uma exemplificação da ordem moral universal (shung - yung, comumente traduzida como "o Meio") (1). A vida da pessoa vulgar, por outro lado, é uma contradição da ordem moral universal.

A vida do homem moral é uma exemplificação da ordem universal, porque ele é uma pessoa moral que cultiva incessantemente o seu verdadeiro eu ou ser moral. A vida da pessoa vulgar é uma contradição da ordem universal, porque ele é uma pessoa vulgar que, em seu coração, não tem consideração, ou receio, pela lei moral.

(III) Confúcio disse - "Achar o fio central para nosso ser moral, fio que nos una à ordem universal, eis na verdade o mais alto alcance humano. Durante muito tempo o povo raramente se mostrou capaz disso".

(IV) Confúcio observou - "Sei agora por que a vida moral não é praticada. Os prudentes confundem a lei moral com algo mais alto do que é realmente; e os ignorantes não sabem suficientemente bem o que a lei moral é. Sei agora por que a lei moral não é compreendida. As naturezas nobres desejam viver alto demais, bem acima de seu eu moral, comum, e as naturezas ignóbeis não vivem suficientemente alto, isto é, não à altura de seu verdadeiro eu moral ordinário. Não existe ninguém que não coma e não beba. Porém poucos são os que conhecem verdadeiramente o sabor".

(V) Confúcio observou - "Não há no mundo, realmente, são poucos os que seguem o caminho".

(VII) Confúcio observou - "Todos os homens dizem "Sou esperto"; porém quando arrastados para diante e presos numa rede, armadilha, ou cilada, não há um só que saiba como encontrar um modo de fugir. Todos os homens dizem "Sou sábio"; porém, na procura do verdadeiro fio central e do equilíbrio em seu moral (isto é, seu eu normal, ordinário, verdadeiro), não são capazes de conservá-lo por um mês inteiro".

(VIII) Observou Confúcio falando de seu discípulo favorito: Yen Huei - "Huei foi um homem que durante toda sua vida procurou o fio central de seu ser moral, e quando lança mão de uma coisa que seja boa, segura-a com toda sua força e jamais a perde".

(IX) Confúcio observou - "Um homem pode ser capaz de pôr um país em ordem, ser capaz de tratar com desprezo as honras e os proveitos do cargo, ser capaz de pisar sobre armas nuas e descobertas; com tudo isso, ele ainda não será capaz de encontrar o fio central de seu ser moral".

(X) Tselu perguntou em que consistia a força de caráter.

Confúcio disse - "Refere-se à força de caráter do povo do norte, ou se refere à força de caráter do povo do sul; ou quer falar da força de caráter dos de seu tipo? Ser paciente e gentil, pronto a ensinar, não pagar o mal com o mal; eis a força de caráter do povo das regiões do sul. É o lugar ideal para o homem moral. Viver debaixo das armas e encontrar a morte sem lamentos, eis a força de caráter do povo da região norte. É o ideal dos homens bravos de seu tipo. Portanto, o homem com a verdadeira fortaleza de caráter é o que é gentil, mas firme. Como é forte em sua força! Quando há ordem moral social no país, se ele entra na vida pública não deixa de ser aquilo que era quando dele estava separado. Quando não há ordem moral social no país, ele fica ocupado até a morte. Como é insensível em sua força"!

(XI) Confúcio observou - "Existem homens que procuram o obscuro e o estranho e vivem vida singular afim de poderem deixar um nome para a posteridade". Eis uma coisa que eu jamais faria. Há, outrossim, bons homens que tentam viver em conformidade com a lei moral, mas que, quando em meio caminho, abandonam tudo. Eu nunca poderia abandonar tudo. Finalmente existem homens verdadeiramente morais que, inconscientemente, vivem uma vida em completa harmonia com a ordem moral universal e que vivem desconhecidos para o mundo e não são notados pelos homens sem nenhum pesar. São apenas os homens de natureza divina e sagrada que são capazes de tal coisa".



III.Lei moral por toda parte.

(XII) A lei moral deve ser encontrada por toda parte e, no entanto, ela é um segredo.

A inteligência simples do homem comum e da mulher comum pode compreender algo da lei moral; porém em seus mais altos alcances há coisas que mesmo os mais sábios e santos homens não podem compreender. As naturezas ignóbeis dos homens comuns e das mulheres do povo podem ser capazes de suportar a lei moral; mas em seus mais altos alcances até os mais sábios e mais santos dos homens não conseguem viver para ela.

Grande como é o Universo, o homem, contudo, não se mostra sempre satisfeito com ele. Pois não há nada tão grande que a mente dos homens morais não possa conceber ainda maior. Não há nada tão pequeno, que a mente do homem moral não possa conceber ainda menor.

Diz o "Livro dos Cânticos":

"O falcão voa alto nos céus e os peixes mergulham nas profundidades".

Isto é, não há lugar no mais alto dos céus, nem na mais profunda das águas, onde a lei moral não possa ser encontrada. O homem moral encontra o começo da lei moral nas relações entre o homem e a mulher; no mais o término está nas vastidões do universo.

(XVI) Confúcio observou - "O poder das forças espirituais no Universo - como se faz sentir por toda a parte! invisível aos olhos, e impalpável aos sentidos, é inerente a todas as coisas e nada escapa à sua influência".

É fato que existem essas forças que fazem com que os homens de todos os países jejuem e se purifiquem e com solenidade de roupas instituam serviços de sacrifício e de adoração religiosa. Tal como o ímpeto das águas poderosas, a presença dos Poderes invisíveis se faz sentir; algumas vezes sobre nós, outras ao redor de nós.

Diz o "Livro dos Cânticos":

"A presença do Espírito: Não pode ser imaginada sem fundamento, como então pode ser ignorada!"

Tal é a evidência das coisas invisíveis que é impossível duvidar da natureza espiritual do homem.



IV. O Padrão Humanístico.

(XIII) Confúcio disse - "A verdade não se separa da natureza humana. Se o que é considerado verdade se separar da natureza humana, não pode ser considerado verdade. Diz o "Livro dos Cânticos":



"Ao moldar o cabo de um machado, o modelo não está longe".

Assim, quando pegamos o cabo de um machado para moldarmos um outro cabo de machado e olhamos de um para o outro, alguns ainda pensam que o modelo está longe. Por conseguinte, o homem moral ao tratar dos homens apela para a natureza humana comum e muda seu modo de viver e nada mais.

"Quando um homem tem em si os princípios de consciência e de reciprocidade, não está longe da lei moral". Não faça aos outros o que não quer que lhe façam.

"Existem quatro coisas na vida moral de um homem, nenhuma das quais eu fui capaz de manter em minha vida. Servir meu pai como esperaria que meu filho me servisse; isso não fui eu capaz de fazer. Servir meu soberano como esperaria que um ministro me servisse; isto não fui capaz de fazer. Agir para como meus irmãos mais velhos como esperaria que meu irmão mais novo agisse para comigo; isso não fui capaz de fazer. Ser o primeiro a comportar-me para com os amigos como esperaria que eles se comportassem para comigo; isto não fui capaz de fazer.

"No desempenho dos deveres comuns da vida e no cuidado da conversação ordinária, sempre que houver um erro jamais deixe de lutar para melhorá-lo e quando há muito o que dizer, sempre diga menos do que é necessário. Não é exatamente essa pureza e falta de simulação o que caracteriza o homem moral?"

(XV) A vida moral do homem pode ser comparada a uma viagem a um lugar distante: precisa-se partir do ponto mais próximo. Também pode ser comparada à ascensão a determinada altura: é preciso começar do degrau mais baixo. O "Livro dos Cânticos" diz:

"Quando as Esposas e os filhos, juntamente com seus senhores fazem um só, É tal como a harpa e o alaúde em uníssono. Quando os irmãos vivem em paz e concórdia,

os sons harmoniosos jamais cessam.

A lâmpada da união feliz ilumina o lar.

E dias promissores se seguirão quando vierem os filhos".

Confúcio, comentando o trecho acima, observou: "Em tal estado de coisas que maior satisfação podem os pais ter?".

(XIV) O homem moral conforma-se com as circunstâncias de sua vida; nada deseja que esteja fora de sua posição. Encontrando-se em posição de riqueza e honrarias, vive como deve viver quem está numa posição de riquezas e honrarias. Encontrando-se na pobreza e em circunstâncias de humildade, vive como deve viver o que se encontra em condições de humildade e pobreza. Encontrando-se em países sem civilização, vive como deve viver quem habita países incivilizados. Encontrando-se em perigo e dificuldades, age de acordo com o que é preciso a um homem sob tais circunstâncias. Numa palavra, o homem moral não pode encontrar-se em nenhuma posição na qual não seja dono de si mesmo.

Em alta posição, não abusa do poder sobre seus subordinados. Em posição subordinada, não adula os superiores. Põe em ordem sua própria conduta pessoal e nada pesquisa na dos outros; daí não tem nenhuma queixa a fazer. Não maldiz de Deus nem se lamenta contra os homens.

Assim é que o homem moral vive o teor de sua vida calmamente esperando pelo chamado de Deus, ao passo que o vulgar envereda por caminhos perigosos esperando incertas mudanças de sorte.

Confúcio observou - "Na prática do arco e flecha temos algo que se parece com o princípio na vida de um homem moral. Quando o arqueiro não atinge o centro do alvo, volta-se e procura a razão de ter falhado dentro de si mesmo".



V- Certos Modelos.

(VI) Confúcio observou disse: como era grande a sabedoria e a argúcia de Shun! Shun tinha uma curiosidade natural de espírito e gostava de fazer perguntas nas conversas comuns. Ignorava as más palavras e aumentava o conhecimento das boas. Tocando os dois extremos das coisas, tomava a média entre elas e aplicava no que dizia respeito ao povo. Era essa a característica do grande intelecto de Shun".

(XVII) Confúcio observou - "O Imperador Shun podia ser talvez considerado um homem piedoso no mais alto sentido da palavra. Era um santo quanto às qualidades morais. Em dignidade de cargo era o governante do império. Quanto à riqueza, tudo o que o largo mundo continha era seu. Após sua morte fizeram sacrifícios a seu espírito no templo dos ancestrais e seus filhos e netos observaram esses sacrifícios durante longas gerações".

"Assim é que aquele que possui grandes qualidades morais certamente fará tudo para corresponder à alta posição que ocupa, para corresponder à grande prosperidade que desfruta, para corresponder ao grande nome que tem, para corresponder à idade avançada".

"Pois Deus ao dar vida a todas as coisas criadas foi seguramente liberal para elas segundo suas qualidades. Daí a árvore que é cheia de vida. Ele a nutre e sustém ao passo que quando está em vésperas de cair, ele a corta e destrói.

Diz o "Livro dos Cânticos":

"Aquele Príncipe grande e nobre dava

a todas as suas ações o toque de justiça;

Cobria com o espírito de sua sabedoria

O camponês e o nobre; a plebe e a corte.

Por isso o Céu, que coroa os soberanos, restaurou

para eles todas as honras sem fim que tinham conhecido:

Pois o Céu guarda e mantém para sempre

O Mandato concedido para subir ao trono.

É, portanto, verdade que aquele que possui extraordinárias qualidades morais certamente receberá o divino mandato para o trono imperial.

(XVIII) Confúcio observou - Talvez o homem que tenha gozado a mais perfeita felicidade tenha sido o Imperador Wen. Teve por pai um homem dos mais notáveis, o Imperador Chi, e por filho um homem também notável, o Imperador Wu. Seu pai lançou os fundamentos de sua Casa e o filho manteve-a. O Imperador Wu, continuando a grande obra de seu ancestral, o grande Imperador, seu avô Chi e seu pai o Imperador Wen, teve apenas que afivelar sua armadura e o Império imediatamente caiu em seu poder. Quanto à dignidade de cargo, ele foi o governante do Império; em riqueza, tudo o que esse mundo extenso continha, pertencia-lhe. Após sua morte seu espírito foi homenageado no templo dos ancestrais e seus filhos e netos observaram essas homenagens durante longas gerações.

O Imperador Wu recebeu o mandato dos Céus para governar, já velho. Seu irmão, o Duque Chou, obrigou-se a completar a fundação da Casa Imperial na altura das qualidades morais dos Imperadores Wen e Wu. Elevou o título imperial à altura do Grande Imperador (avô de Wen) e do Imperador Chi (pai de Wen). Homenageava todos os passados Duques da Casa que tinham reinado fazendo-lhes sacrifícios com honras imperiais.

"Essa regra é agora observada universalmente desde os príncipes reinantes e nobres até os gentis-homens e povo. No caso do pai ser um nobre e o filho um simples gentil-homem, o pai quando morre, é sepultado com as honras de um nobre, porém recebe as homenagens de sacrifício como um simples gentil-homem. No caso do pai ser um simples gentil-homem e o filho ser um nobre, o pai, quando morre, é sepultado como um simples gentil-homem, mas recebe as homenagens de sacrifício com as honras de um nobre. A regra de um ano de luto para os parentes é atribuída para os que têm titulo nobre, todavia a regra de luto de três anos pelos pais é atribuída para todos até o Imperador. No luto pelos pais há apenas uma regra, e não há distinção entre o nobre e o plebeu" (2)

(XIX) Confúcio disse: "O Imperador Wu e seu irmão, o Duque Chou, eram, na verdade, homens eminentemente piedosos. Ora, a verdadeira piedade filial consiste em levar a cabo com sucesso a obra inacabada de nossos pais e transmitir sua execução à posteridade".

"Na primavera e no outono eles reparam e põem em ordem o templo dos ancestrais, arranjam os vasos de sacrifício, exibem as insígnias e os vínculos de bens móveis da família, e apresentam as oferendas próprias da estação".

"O princípio na ordem da precedência nas cerimônias de adoração no templo dos ancestrais é, em primeiro lugar, de colocar os membros da família segundo seu parentesco. Os títulos são considerados em segundo lugar, a fim de haver o reconhecimento do princípio de distinção social. Os serviços a render em seguida são considerados como um reconhecimento da distinção em dignidade moral. No banquete geral, os que ficam abaixo tomam a precedência dos que ficam acima em brindar os presentes a fim de mostrar que a consideração é feita aos mais medíocres. Em conclusão, é oferecido um banquete em separado para os mais velhos, a fim de reconhecer o princípio de ancianidade segundo a idade".

"Reunir-se nos mesmos lugares em que nossos pais se reuniram antes de nós; cumprir as mesmas cerimônias que eles cumpriram antes de nós; tocar a mesma música que tocaram antes de nós; respeitar aqueles a quem eles prestaram honras; amar os que lhe foram caros - de fato, servir aqueles que estão agora mortos como se vivos fossem, e os que estão separados como se ainda conosco estivessem: eis o mais alto alcance da verdadeira piedade filial".

"O cumprimento dos sacrifícios ao Céu e à Terra é traduzido pelo serviço de Deus. O cumprimento das cerimônias no templo dos ancestrais é traduzido pela adoração dos ancestrais. Se alguém apenas compreendesse o significado dos sacrifícios ao Céu e à Terra, e a significação dos serviços na adoração aos ancestrais no verão e no outono, seria tão fácil governar uma nação como apontar um dedo para a palma da mão.



VI. Ética e Política.

(XX) O Duque Ai (governador de Lu, onde nasceu Confúcio), quis saber o que constituía um bom governo.

Confúcio respondeu - "Os princípios de bom governo dos Imperadores Wen e Wu estão abundantemente ilustrados nas ripas de bambu ("lembranças conservadas")". Quando os homens ali estão, o bom governo florirá, porém quando os homens se forem, o bom governo decai e se extingue.

Com os homens justos, o desenvolvimento de um bom governo é tão rápido como o crescimento da vegetação em terreno apropriado. Na verdade, o bom governo é como uma planta de crescimento rápido. A conduta de governo, portanto, depende dos homens. Os justos são obtidos pelo caráter pessoal do governante. Para cultivar seu caráter pessoal, o governante deve usar a lei moral (tao). Para cultivar a lei moral, o governante deve usar o senso moral (fim, ou princípio da verdadeira virilidade). "Uma boa administração é como um rio ornado de juncos, que nascem naturalmente no terreno que lhes é propício".

"O senso moral é o atributo característico do homem. Sentir afeição natural por aqueles que estão proximamente aparentados conosco é a mais alta expressão de senso moral. O sentimento de justiça (yi ou propriedade) é o reconhecimento do que é direito e apropriado. Honrar os que são mais dignos do que nós mesmos é a mais alta expressão do senso de justiça. Os graus relativos de afeição natural que devemos sentir pelos que estão mais de perto ligados a nós por parentesco e os graus relativos de honra que devemos mostrar para os que são mais dignos do que nós mesmos: dão razão às formas e distinções na vida social (li, ou princípios de ordem social). Pois, a menos que as desigualdades sociais tenham uma base verdadeira e moral (ou a menos que os que estejam sendo governados sintam qual o seu lugar próprio com respeito aos que os governam), o governo de um povo é uma coisa impossível.

"Portanto é necessário para um homem, da classe dos que governam, que estabeleça as regras para sua conduta pessoal e seu caráter. Ao considerar como deve regular sua conduta pessoal e seu caráter, é preciso para ele que cumpra os deveres para com os que estão mais proximamente aparentados com ele. Ao considerar como cumprir seus deveres para com os que estão mais proximamente ligados a ele por parentesco é preciso que compreenda a natureza e a organização da sociedade humana. Ao considerar a natureza e a organização da sociedade humana é necessário para ele que compreenda as leis de Deus".

"Os deveres de obrigação universal são cinco, e as qualidades morais pelas quais eles são sustentados são três. Os deveres são os compreendidos entre o governante e o governado, entre pai e filho, entre marido e mulher, entre o irmão mais velho e o mais novo, e os que decorrem entre os amigos. São esses os cinco deveres de obrigação universal. Sabedoria, compaixão e coragem (3) - são essas as três qualidades morais do homem, universalmente reconhecidas. Não importa de que modo os homens põem em exercício essas qualidades morais, o resultado é um único e o mesmo".

"Alguns homens nascem com o conhecimento dessas qualidades morais; outros o adquirem como resultado da educação; outros ainda o obtêm como resultado de árdua experiência. Porém quando esse conhecimento é adquirido, ele vai dar numa única e mesma coisa. Alguns exercem essas qualidades morais natural e facilmente; outros porque acham vantajoso exercê-las; outros com esforço e dificuldade. Mas quando chegam ao fim, vão dar uma única e mesma coisa".

Continuou Confúcio, dizendo: "O amor ao saber tem afinidade com a sabedoria. Esfalfante atenção à conduta raia à compaixão. Sensibilidade à vergonha é parente próximo da coragem".

"Quando um homem compreende a natureza e o uso dessas três qualidades morais, compreenderá então como deve pôr em ordem sua conduta pessoal e seu caráter. Quando um homem compreende como pôr em ordem sua conduta pessoal e seu caráter, compreenderá como governar os homens. Quando um homem compreende como governar os homens, então compreenderá como deve governar as nações e os impérios.

"Para cada um dos que foram chamados para o governo de nações e impérios, existem nove direções cardeais que devem ser observadas":

1. Cultivo da conduta pessoal.

2. Honrar os sábios.

3. Afeição e cumprimento do dever para com os que lhe são aparentados.

4. Mostrar respeito pelos altos ministros de estado.

5. Identificar-se com os interesses e o bem-estar de todo o corpo de empregados públicos.

6. Mostrar-se como um pai para o povo.

7. Encorajar a introdução de todas as artes úteis.

8. Mostrar bondade para os estrangeiros de países distantes.

9. Tomar interesse no bem-estar dos príncipes do império.

"Quando um governante presta atenção ao cultivo de sua conduta pessoal, haverá respeito pela lei moral. Quando o governante honra os homens dignos, não será enganado (pelos oficiais astuciosos). Quando o governante tem afeição pelos parentes, não haverá falta de afeto entre os membros de sua família. Quando o governante mostra respeito aos altos ministros de estado, não cometerá erro. Quando o governante se identifica com os interesses e o bem-estar do corpo de servidores públicos, haverá um forte espírito de lealdade entre os nobres do país. Quando o governante se torna um pai para o povo, a massa de povo esforçar-se-á pelo bem do estado. Quando o governante encoraja a introdução de todas as artes úteis, haverá suficiente riqueza e renda no país. Quando o governante mostra-se bondoso para com os estrangeiros de terras distantes, o povo de todas as quatro partes do mundo correrá em bandos para o país. Quando o governante toma interesse pelas condições e bem-estar dos príncipes do império, inspirará temor e respeito por sua autoridade através o mundo inteiro".

"Atendendo à limpeza e à pureza de sua pessoa e à propriedade e dignidade de suas vestes, e em cada palavra e ato nada permitindo que seja contrário ao bom - gosto e à decência; eis como o governante cultiva sua conduta pessoal. Banindo todos os aduladores e conservando-se longe da sociedade das mulheres, tendo em baixa estima a posse dos bens terrestres, porém apreciando as qualidades morais nos homens - eis como o governante encoraja os homens dignos. Elevando-os a altos lugares de honra e dando-lhes amplos auxílios para sua manutenção; partilhando e simpatizando com seus gostos e opiniões - eis como o governante inspira amor por sua pessoa entre os membros de sua família. Estendendo os poderes de suas funções e permitindo-lhes o arbítrio no emprego de seus subordinados - eis como o governante dá coragem aos altos ministros de estado. Portando-se lealmente e com pontualidade em todos os tratos que com eles faz e permitindo-lhes uma regra de pagamento liberal - eis como o governante dá coragem aos homens no serviço público. Limitando estritamente o tempo de seu serviço e tornando os impostos os mais leves possíveis - eis como o governante encoraja a massa do povo. Ordenando uma inspeção diária e um exame mensal e premiando cada um de acordo com o grau de sua habilidade - eis como o governante encoraja a massa do povo. Ordenando inspeção diária e exame mensal e recompensando cada qual segundo o grau de sua perícia - eis como o governante encoraja a classe dos artífices. Recebendo-os bem quando chegam e dando-lhes proteção quando vão louvando o que há de bom neles e levando em conta sua ignorância - eis como o governante demonstra bondade para com os estrangeiros dos países distantes. Restaurando linhas de sucessão partidas e revivendo estados subjugados, derrubando a anarquia e a desordem onde quer que sejam encontradas e defendendo os fracos contra os fortes, fixando tempos marcados para sua permanência e a permanência de seus mensageiros na corte, enchendo-os de presentes quando partem, posto que extorquindo pouco deles, a modo de contribuição, quando chegam - eis como o governante se interessa pelo bem-estar dos príncipes do império".

"Para cada um dos que são chamados para o governo das nações e dos impérios, existem nove direções cardeais a serem atendidas; e há apenas um único modo de levá-las a cabo".

"Em todos os assuntos, o sucesso depende do preparo; sem preparo haverá sempre derrocada. Quando determinamos previamente o que deve ser dito, não haverá dificuldade em sustentá-lo. Quando uma linha de conduta é previamente determinada não haverá ocasião para vexame. Quando os princípios gerais são determinados previamente, não haverá perplexidade em saber o que fazer".



VII. Ser o Próprio Eu.

"Se as pessoas de posição inferior não tivessem confiança nos que estão acima delas, seria impossível governar o povo. Há apenas um meio de ganhar a confiança para a autoridade de alguém: se um homem não tem a confiança de seus amigos, não terá confiança nos que estão acima dele. Há apenas um meio de obter a confiança dos amigos: se um homem não tem afeição para com seus pais, não terá a confiança de seus amigos. Há apenas um meio de ser afeiçoado a seus pais: se um homem, olhando o fundo do coração, não for sincero para consigo mesmo, não será afeiçoado a seus pais. Há apenas um meio para um homem ser sincero para consigo mesmo. Se não souber o que é bom, um homem não poderá ser sincero para consigo mesmo".

"Ser sincero para consigo mesmo é uma lei de Deus. Tentar ser sincero para consigo mesmo é a lei do homem (4)".

Aquele que é naturalmente sincero para consigo mesmo é o que, sem esforço, acha-se sobre o que é direito, e sem pensar compreende o que ele quer saber, é aquele cuja vida decorre fácil e naturalmente em harmonia com a lei moral. Tal homem é o que podemos alcunhar de santo ou homem de natureza divina. Aquele que aprende a ser sincero consigo mesmo é o que aprende a conhecer o que é bom e se aferra a ele.

"A fim de aprender a ter um verdadeiro eu é preciso obter um conhecimento largo e profundo do que tem sido dito e feito no mundo; indagar sobre isso com espírito de critica; ponderar cuidadosamente; sondar claramente; e levá-lo avante logo depois".

"Não importa o que você aprender; porém, assim que aprender alguma coisa, não o abandone enquanto não o souber bem. Não importa o que motiva suas indagações, porém, quando as fizer sobre alguma coisa, jamais deverá abandoná-la enquanto não a compreender perfeitamente. Não importa o que você tenta meditar, porém, desde que você tenta meditar sobre uma coisa não deve deixar de fazê-lo enquanto não chegar à conclusão desejada. Não importa o que você tenta sondar, porém uma vez que você tentou sondar uma coisa, não deve abandoná-la enquanto não a tiver sondado clara e distintamente. Não importa o que você tenta levar a cabo, porém, desde que tentou levar a cabo uma coisa não deve abandoná-la enquanto não a tiver levado a cabo perfeitamente bem. Se outro homem obtiver sucesso por meio de um só esforço, você lançará mão de centena de esforços. Se um outro homem for bem sucedido com dez esforços, você usará mil".

"Proceda um homem realmente dessa maneira e, embora tolo, ele se tornará inteligente na certa: embora fraco, ficará forte, seguramente".

(XXI) Chegar à compreensão de ser o próprio eu é chamado natureza, e chegar a ser o próprio eu pela compreensão, isto é chamado instrução. Aquele que é seu verdadeiro eu, tem por esse meio compreensão e aquele que tem compreensão encontra, por esse meio, seu verdadeiro eu (5).



VIII. Os que têm um Eu absoluto e verdadeiro

(XXII) Somente os que têm um eu absoluto e verdadeiro no mundo podem preencher sua própria natureza; somente os que podem preencher sua própria natureza podem preencher a natureza dos outros; apenas os que podem preencher a natureza dos outros podem preencher a natureza das coisas; os que preenchem a natureza das coisas são dignos de ajudar a Mãe Natureza no desenvolvimento e no sustento da vida, são iguais ao Céu e a Terra.

(XXIII) Por ordem, os que vêm em segundo lugar, são os que são capazes de atingir o domínio de um determinado ramo de estudo. Por meio de tais estudos, eles estão aptos, outrossim, a aprender a verdade. A realização do verdadeiro eu obriga à expressão; a expressão se torna evidência; a evidência se torna claridade ou luminosidade de conhecimento; claridade ou luminosidade de conhecimento age; o conhecimento ativo se torna poder e o poder se transforma em influência penetrante. Somente os que têm seu eu verdadeiro e absoluto neste mundo podem ter influência penetrante.

(XXIV) É um atributo da posse do verdadeiro eu absoluto ser capaz de prever. Quando uma nação ou família está a ponto de florir, existem seguramente presságios de sorte. Quando uma nação ou família está a ponto de perecer, existem, seguramente, signos e agouros. Essas coisas se manifestam nos instrumentos de adivinhação e na agitação do corpo humano. Quando a felicidade, ou a calamidade, está a ponto de vir, pode ser conhecida com antecedência. Quando é boa, pode ser conhecida de antemão. Quando é má, pode ser também conhecida de antemão. Por conseguinte, aquele que compreende seu verdadeiro eu é igual a um espírito celestial.



(XXV)A verdade significa cumprimento do próprio eu; e a lei moral significa o seguimento da lei de nosso ser. A verdade é o começo e o fim (a substância) da existência material. Sem verdade não há existência material. É por essa razão que o homem moral dá valor à verdade.

A verdade não é somente o cumprimento de nosso próprio ser; é aquilo, por intermédio do qual as coisas externas a nós têm uma existência. O cumprimento de nosso ser é sentido moral. O cumprimento da natureza das coisas externas a nós é intelecto. Essas coisas, o senso moral e o intelecto são os poderes ou faculdades de nosso ser. Eles combinam a utilidade íntima, ou subjetiva, e externa, ou objetiva, do poder da mente. Portanto, com a verdade, tudo o que for feito está direito.

(XXVI)Assim a verdade absoluta é indestrutível. Sendo indestrutível é eterna. Sendo eterna, é auto-existente. Sendo auto-existente é infinita. Sendo infinita, é vasta e profunda. Sendo vasta e profunda, é transcendental e inteligente. E por ser vasta e profunda é que contêm toda existência. E por ser transcendental e inteligente é que abrange toda existência. E por ser infinita e eterna é que preenche ou aperfeiçoa toda existência. Em vastidão e profundidade é como a Terra. Em inteligência transcendental é como o Céu. Infinita e eterna é como o próprio Infinito.

Tal sendo a natureza da verdade absoluta, ela se manifesta sem ser vista; produz efeitos sem mover-se; chega a seus fins sem ação.

O princípio no curso e operação da natureza pode ser resumido numa só palavra; porque obedece apenas à sua própria lei imutável, modo pelo qual produz a variedade de coisas imensuráveis.

A natureza é vasta, profunda, alta, inteligente, infinita e eterna. O céu que se estende diante de nós é apenas uma massa brilhante e brilhosa; mas em sua extensão imensurável, o sol, a lua, as estrelas e as constelações nele estão suspensos, e todas as coisas são por ele abrangidas. A Terra, tal como nos aparece, não passa de uma mão cheia de terra; mas em toda sua largura e profundidade sustém poderosas montanhas sem recear seu peso; rios e mares arrojam-se contra ela sem causar-lhe rombos. A montanha que divisamos é apenas uma massa de rocha; porém em todo seu tamanho, a relva e a vegetação nela crescem, os pássaros e as feras nela moram e tesouros de minerais preciosos são nela encontrados. A água que aparece diante de nós não passa de uma colherada de liquido; porém em todas suas imensuráveis profundezas, os maiores crustáceos, dragões, peixes e tartarugas ali se reproduzem e nelas abundam todos os produtos úteis.

No "Livro dos Cânticos" está escrito:

"As leis de Deus, como são impenetráveis e vivem para sempre".

É o mesmo que dizer, essa é a essência de Deus. Nesse livro também está escrito:



"Como é excelente a perfeição moral do Rei Wen".

É o mesmo que dizer, essa é a essência do nobre caráter do Imperador Wen. A perfeição moral jamais perece.

IX. Louvar a Confúcio.

(XXVII) Oh, como é grande a divina lei moral do Sábio. Transbordante e ilimitada dá nascimento e vida a todas as coisas criadas e se eleva até os próprios céus. Como é magnificente! Como se impõem os trezentos princípios e as três mil regras de conduta! Elas esperam o homem que possa pôr o sistema em prática. Daí se diz: A menos que haja o mais alto caráter moral, a mais alta lei moral não pode ser posta em prática.

Por conseguinte, o homem moral, enquanto honra a grandeza e o poder de sua natureza moral, não negligencia ainda assim de indagar e andar em busca do saber. Enquanto alarga o escopo de seus conhecimentos, ainda procura esgotar o mistério das pequenas coisas. Enquanto procura atingir a mais alta compreensão, ainda assim dirige sua conduta de acordo com o curso médio (literalmente chung yung). Indo além do que ele já aprendeu, ganha novos conhecimentos. Ardente e simples, respeita e obedece às leis e aos costumes da vida social (li).

Portanto, quando está numa posição de autoridade, não é orgulhoso; na posição de subordinado, não é insubordinado. Quando há ordem social moral no país, o que ele fala trará prosperidade à nação; e quando não há ordem social moral no país, seu silêncio assegurará clemência para si (6).

No "Livro dos Cânticos" está escrito:

"Com sabedoria e bom senso, ele preserva sua vida dos males".

É esta a descrição do homem moral.

(XXIX) Para atingir a soberania do império são precisas três coisas importantes, que o tornarão perfeito: os ritos, as leis e os escritos.



(XXVIII) (7) Embora um homem possa ocupar um cargo de autoridade, ainda assim, a menos que possua o caráter moral indicado para essa tarefa, não pode encarregar-se de fazer mudanças nas instituições religiosas e artísticas já estabelecidas (literalmente "ritual e música"). Embora alguém possa possuir o caráter moral que o indique para essa tarefa, ainda assim, a menos que ocupe cargo de autoridade, não pode encarregar-se de fazer mudanças nas instituições religiosas e artísticas já estabelecidas.

Confúcio observou: "Tentei compreender as instituições morais e religiosas (li) da Dinastia Hsia, mas o que resta dessas instituições no atual estado de Ch'i não fornece uma evidência suficiente. Estudei as instituições morais e religiosas da Dinastia Shang (yin); o que delas resta está ainda conservado no atual estado de Sung. Estudei as instituições morais e religiosas da presente Dinastia Chou, que estando agora em uso, sigo na prática".

(XXIX)Imaginado pelos que estão no poder, um sistema pode ter falhas em autoridade histórica (evidências históricas) embora possa ser excelente; o que lhe falta em autoridade histórica não pode merecer fé; e o que não pode merecer fé, o povo jamais obedecerá. Imaginado pelos que não estão com a autoridade, um sistema pode não merecer respeito, mesmo que seja excelente; o que não merece respeito não pode ter crédito e o que não pode ter crédito, o povo jamais obedecerá.

Por conseguinte, cada sistema de leis morais deve ser baseado na consciência do próprio homem, verificada pela experiência comum da humanidade, provada pela devida sanção de experiência histórica e encontrada sem erros aplicada às operações e processos da natureza no universo físico e sendo encontrada sem contradição, posta diante dos deuses sem perguntas ou receio, e capaz de esperar centenas de gerações e tê-la confirmada, sem uma dúvida, por um Sábio da posteridade. O fato dele ser capaz de confrontar os poderes espirituais do universo sem medo nenhum, mostra que ele compreende as leis de Deus. O fato de estar preparado para esperar uma centena de gerações para confirmação da parte do Sábio da posteridade sem qualquer receio, mostra que ele compreende as leis do homem.

Por conseguinte, é isso o que é a verdade do homem de real grandeza moral, pois cada movimento que faz se torna um exemplo para as gerações, cada ato que cumpre torna-se um modelo durante gerações e cada palavra que profere se torna um guia durante gerações. Os que estão bem distantes erguem os olhos para ele, ao passo que os que estão perto não sentem diminuir o respeito que por ele sentem. Há o seguinte trecho no "Livro dos Cânticos":

"Lá não lhe encontram falta nenhuma, aqui jamais se cansam dele; assim de dia para dia e de noite para noite eles perpetuarão seu louvor!"

Nunca houve um homem moral que não correspondesse a essa descrição e que, contudo, pudesse obter reconhecimento oportunamente através o mundo.

(XXX) Confúcio ensinava a verdade originalmente transmitida pelos antigos Imperadores Yao e Shun, e adotou e aperfeiçoou o sistema de leis sociais e religiosas estabelecido pelos Imperadores Wen e Wu. Ele prova que se harmoniza com a ordem divina que governa as revoluções das estações no Céu que nos cobre e que se adaptam com o plano moral que deve ser visto na natureza física sobre a Terra em baixo.

Essas leis morais formam um sistema com as leis pelas quais o Céu e a Terra suportam e contém, protegem e abrigam todas as coisas. Essas leis formam o mesmo sistema com as leis pelas quais as estações se sucedem uma à outra e o sol e a lua aparecem com as alternações do dia e da noite. E esse mesmo sistema e leis pelo qual todas as coisas criadas são produzidas e se desenvolvem cada qual em seu sistema e ordem sem causar mal a outra, e pelo qual as operações da Natureza seguem o curso sem conflito ou confusão; as forças menores correndo por toda parte como as correntes dos rios, ao passo que as grandes forças da Criação vão silenciosas e firmes. É isso (um sistema passando através de tudo) o que faz o Universo tão impressionantemente grande.

(XXXI) É somente o homem com a mais perfeita natureza moral e divina que é capaz de combinar em si rapidez de apreensão, inteligência, conhecimento profundo e compreensão - qualidades necessárias para o exercício do comando, da magnanimidade, da generosidade, da benignidade e da gentileza - qualidades necessárias para o exercício da paciência; originalidade, energia, força de caráter e determinação - qualidades necessárias para o exercício da paciência, da piedade, da seriedade nobre, da ordem e da regularidade - qualidades necessárias para o exercício da dignidade, da graça, do método, da sutileza e da penetração - qualidades necessárias para o exercício do julgamento crítico.

Desse modo tudo abrange e é vasta a natureza de um tal homem. Profunda é ela e inexaurível, tal como uma nascente d'água, sempre brotando com vida e vitalidade. É vasta e tudo abrange, tal como o Céu. Profunda e inexaurível, tal como o abismo.

Assim que um homem dessa força fizer sua aparição no mundo, todos o reverenciarão. Tudo o que ele disser, todos o acreditarão. Tudo o que fizer, o povo ficará satisfeito. Desse modo sua faina e seu nome se espalharão e encherão todo o mundo civilizado (literalmente "China"), estendendo-se mesmo até os países selvagens, onde quer que alcancem os navios e as carruagens, onde quer que o trabalho e o empreendimento do homem penetrarem, onde quer que os céus abriguem e a terra sustenha, onde quer que o sol e a lua brilhem, onde quer que a geada e o orvalho caiam. Todos os que tiverem vida e alento o honrarão e o amarão. Portanto podemos dizer - Ele é igual a Deus.

(XXXII) É somente aquele no mundo que alcançou seu eu absoluto que pode pôr em ordem e ajustar as grandes relações da sociedade humana, fixar os princípios fundamentais da moralidade e compreender as leis de crescimento e reprodução do Universo.

Ora, donde um tal homem deriva seu poder e conhecimento, senão de si mesmo? Como é simples e em si mesmo contida sua verdadeira virilidade! Como é imensurável a profundeza de seu espírito! Como é infinitamente grande e vasta a extensão moral de sua natureza! Quem pode compreender uma tal natureza, exceto aquele que recebeu o dom da mais perfeita inteligência e é dotado das mais altas e divinas qualidades de caráter, e que, em seu desenvolvimento moral, chegou ao mesmo nível dos deuses?



X. Epílogo.

Há o seguinte no "Livro dos Cânticos":

"Por cima de sua roupa de brocado, ela usava um vestido simples e liso"



Desse modo mostrando sua aversão pelas cores gritantes e pela magnificência. Assim os caminhos do homem moral são modestos e levam aos poucos, contudo, para o poder e para a evidência; ao passo que os caminhos do homem vulgar são cheios de ostentação, porém levam à perda gradual da influência até que ele pereça ou desapareça.

A vida do homem moral é igual e, no entanto, não é sem atrativos; é simples e, no entanto, é cheia de graça; é fácil e ainda assim é metódica. Ele sabe que para terminar as grandes coisas é preciso fazer as pequenas bem feitas. Sabe que os grandes efeitos são produzidos pelas pequenas causas. Conhece a evidência e a realidade do que não pode ser percebido pelos sentidos. Desse modo, está apto a entrar no mundo de idéias e de moralidades.

Diz o "Livro dos Cânticos"

"Mesmo que o peixe mergulhe profundamente, é, ainda assim, visto perfeitamente".

Portanto o homem moral deve examinar bem o interior de seu coração e ver se não tem motivo de auto - reprovação, se não tem nenhum pensamento maldoso em sua mente. Onde se verifica que o homem moral é superior aos outros homens naquelas coisas mesmo que não podemos notar.

Diz o "Livro dos Cânticos":

"Em seu quarto, bem escondido mesmo, você é julgado; verifique não fazer nada pela qual tenha que enrubescer,

Embora só o teto esteja olhando para o que fizer".

Portanto o homem moral, mesmo quando não está fazendo nada, é sério; e mesmo quando não está falando, é sincero.

Diz o "Livro dos Cânticos":

"Durante todo o rito solene nem foi pronunciada uma só palavra e, no entanto, toda a luta fora banida de seus corações".

Donde se deduz que o homem moral, sem indução de recompensas, é capaz de fazer o povo bom; e sem mostras de cólera, os domina com o receio maior ainda do que se usasse os mais pavorosos instrumentos de castigo.

Diz o "Livro dos Cânticos":

"Ele não fazia ostentações de sua dignidade moral, contudo, todos os príncipes seguiam-lhe os passos".



Donde o homem moral, vivendo uma vida de verdade simples e de seriedade, sozinho pode ajudar a levar a paz e a ordem ao mundo.

Diz o "Livro dos Cânticos":

"Guardo em mente as belas qualidades morais que não fazem grande barulho ou ostentação".

Confúcio observou - "Entre os meios de regeneração da humanidade, os que são feitos com ostentação e barulho são os de menor importância".

Noutra parte do "Livro dos Cânticos":

"Sua virtude era leve como a pluma".

A pluma é ainda algo material. "Os trabalhos do Céu não têm nem som nem cheiro". Eis o mais alto grau de desenvolvimento de nossa natureza moral.

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(1) Chung significa "central" e yung significa "constante". A idéia inteira exprime a concepção de uma norma. É possível que as seções 2, 3, 4, 5, 6, formassem originalmente um livro separado, mais tarde amalgamado com outras seções (1, 7, 8, 9, 10). Os estilos das duas partes são muitos diferentes. A isso se atribui a mudança súbita de chung ho (harmonia central) na primeira seção para chung yung (Meio Dourado) na segunda.

(2) Esse parágrafo faz parte do texto original de Confúcio. Seu conteúdo, entretanto, muito se parece com um comentário.

(3) Ku traduziu-as como "inteligência, caráter moral e coragem".

(4) Essa parte do começo desse trecho é encontrada no "Livro de Mêncio", livro IV parte 1. A entrevista completa é achada, outrossim, em "Lembranças de Família de Confúcio" (K'ungtso Chiayu) sem o trecho que vem imediatamente depois.

(5) Esse parágrafo constitui um "capítulo" por si mesmo no texto chinês. A tradução desse parágrafo e os dois parágrafos seguintes foi feita por mim inteiramente, diferindo da de Ku.

(6) Aqui vemos a ligação entre a realização do verdadeiro eu e da harmonia com o mundo externo, entre "sinceridade" e "harmonia".

(7) Os dois capítulos seguintes foram incorporados aqui e tirados do "Capítulo 28". As "três coisas importantes" (posição, caráter e apelo à história) tornaram-se por outro lado ininteligíveis.