Registros Históricos - Shiji, de Sima Qian

O trabalho realizado por Sima Qian (145 - 86 a.C.), o Shiji, ou Registros Históricos, situa-o como o primeiro grande Historiador de facto não só da dinastia Han como de toda a China antiga e posterior. No intuito de organizar uma obra que abrangesse toda história da China desde o início até a época Han, Sima Qian buscou elaborar uma grande copilação comentada de documentos antigos. Inicialmente, ele se encarregou de verificar a veracidade das informações contidas nos textos históricos existentes, inclusive nos escritos confucionistas. Utilizando o apoio e os recursos financiados pela burocracia imperial, enviou mensageiros para todos os cantos do império, incumbidos de realizar a coleta de informações, que depois ele iria cruzar e avaliar. Partindo desta premissa, não se limitou a fazer versões que conjugassem os dados obtidos, mas tentou analisar, dentro de uma perspectiva crítica, qual das versões existentes parecia ser a mais razoável. Comparou o resultado destas observações com as tabelas astronômicas que continham os registro de eclipses e posições astrológicas, verificando a autenticidade da datação dos acontecimentos. O resultado disso era sua afirmação de que sua obra não poderia assegurar a validade dos acontecimentos até o ano de 841 a.C., quando então as fontes estariam por demais obscuras. Hoje estão comprovadas, por uma série de análises, que as datas apresentadas no Shiji estão corretas, realmente, até onde seu autor podia assegurar. Uma das maiores influências no pensamento de Sima Qian foi a do "confucionismo modificado" de Dong Zhongshu, que transparecem na aplicação da teoria wuxing (cinco agentes) nos ciclos históricos.


Da Riqueza e do Comércio

Nada sei com relação aos tempos pré-históricos anteriores a Shennung, mas desde as dinastias Yu e Shia (depois do vigésimo- segundo século a. C.), durante o período debatido pelos documentos históricos, a natureza humana sempre lutou por bons alimentos, roupas, diversões e conforto físico e sempre teve tendência a orgulhar-se da riqueza e da ostentação. Não importa que os filósofos possam ensinar de modo diferente: não é possível mudar as pessoas. Assim, os melhores homens deixam-nas à vontade; a seguir, vêm os que tentam guiá-las; depois, os que moralizam a seu respeito; depois, que procuram adaptar-se a elas; e, por fim, os que entram na mesma porfia. Em suma, Shansi produz madeira, cereais, linho, pêlos de boi e jades. Shantung produz peixe, sal, laca, sedas e instrumentos musicais. Kiangnan (ao sul do Yangtsé) produz cedro, tzu (madeira dura para a fabricação de blocos de impressão), gengibre, canela, minérios de ouro e estanho, cinábrio, chifres de rinoceronte, carapaças de tartaruga, pérolas e couros. Lungmen produz pedra para tabuletas. O norte produz cavalos, bovinos, carneiros, peles e chifres. Cobre e ferro são muitas vezes encontrados por toda parte, nas montanhas, espalhados como peões num tabuleiro de xadrez. É de tudo isso que o povo da China gosta e tais artigos atendem às necessidades de sua existência e das cerimônias para os mortos. Os homens do campo os produzem, os atacadistas os trazem do interior, os artesãos trabalham neles e os mercadores com eles negociam. Tudo isto se verifica sem a intervenção do governo ou dos filósofos. Cada qual faz o melhor que pode e utiliza seu trabalho para obter o que quer. Assim, os preços procuram seu nível, indo as mercadorias baratas para onde são mais caras e dessa forma baixando os preços mais altos. As pessoas seguem suas respectivas profissões e o fazem por sua própria iniciativa. É como o fluir da água, que procura o nível mais baixo dia e noite, sem parar. Todas as coisas são produzidas pelo próprio povo sem que lho peçam e transportadas para onde há precisão delas. Não é verdade que tais operações ocorrem naturalmente, de acordo com seus próprios princípios? O Livro de Chou diz: “Sem os lavradores, não serão produzidos víveres; sem os artesãos, a indústria não se desenvolverá; sem os mercadores, os bens de valor desaparecerão; e, sem os atacadistas, não haverá capitais e os recursos naturais de lagos e montanhas não serão explorados”. Nossos alimentos e nossas vestes vêm dessas quatro classes, e a riqueza e a pobreza variam com o volume dessas fontes. Com isso, em escala maior, beneficia-se um país; em escala menor, enriquece-se uma família. São estas as inevitáveis leis da riqueza e da pobreza. Os argutos têm bastante e poupam, ao passo que os estúpidos nunca têm quanto baste...

Devem, portanto, primeiro estar cheios os celeiros antes que o povo possa falar de cultura. O povo deve ter suficiente alimento e boas roupas antes que possa falar em honra. Os bons costumes e as delicadezas sociais provêm da riqueza e desaparecem quando o país é pobre. Assim como um peixe prospera num lago fundo e os animais gravitam para a selva espessa, assim também a moral da humanidade vem como efeito da riqueza. O rico adquire poder e influência, ao passo que o pobre é infeliz e não tem para onde se voltar. Isto é ainda mais certo com relação aos bárbaros. Eis por que se diz: “O filho do rico não morre na praça do mercado”; e não é este um dito vão.

Também se diz:

O mundo se acotovela
onde há sinais de dinheiro.
Todo o mundo se atropela
onde o lucro é mais ligeiro.

Mesmo reis, e duques, e fidalgos opulentos se inquietam com a pobreza. Por que admirar que o povo comum e os escravos façam o mesmo? .... (Segue-se aqui longa parte sobre condições e produtos econômicos, caráter do povo e meios de vida das diferentes regiões).

Vedes, assim, os letrados eminentes que debatem em cortes e templos a respeito de políticas e falam de honestidade e auto- sacrifício, e os eremitas de montanhas que conquistam grande fama. Aonde vão eles? Procuram a riqueza. Os funcionários honestos adquirem riqueza com o correr do tempo e os mercadores honestos ficam cada vez mais ricos. Pois a riqueza é algo que o homem busca instintivamente, sem que isso lhe seja ensinado. Vedes soldados lançarem-se à vanguarda na batalha e realizar grandes feitos em meio a saraivada de flechas e pedras e contra enormes perigos, em razão de haver grande recompensa. Vedes jovens que furtam, e roubam, e cometem violência; e escavam túmulos à cata de tesouros, arriscando-se mesmo às punições da lei, deixando que os ventos levem todas as considerações quanto à sua própria segurança, - e tudo por causa do dinheiro. As cortesãs de Chao e Cheng ataviam-se, tocam música, usam mangas compridas e pontudos sapatos de dança. Namoram, piscam os olhos, não se importam por ser chamadas a grande distância, nem se preocupam com a idade dos homens: são todas atraídas pelos ricos. E os filhos dos ricos se envolvem em capas e levam espadas, e andam por toda parte com uma frota de carruagens, só para exibir sua opulência. Caçadores e pescadores saem à noite, sob neve e geada, vagueando por vales inundados e povoados de bestas feras, porque querem pegar caça. Outros jogam, realizam brigas de galos, põem cães em competição, com o fito de ganhar. Médicos e mágicos praticam suas artes na expectativa de compensação por seus serviços. Burocratas brincam de esconder com a lei e chegam a cometer fraudes e a falsificar selos, arriscando-se a sentenças penais, porque recebem subornos. E assim todos os lavradores, artesãos, mercadores e criadores de gado tentam alcançar o mesmo alvo. Todos sabem disso e é difícil ouvir falar de alguém que trabalhe e recuse pagamento pelo que fez... Por isso, os pobres trabalham com as mãos, os que têm umas poucas economias experimentam meios e modos de aumentá-las, e os que obtêm sucesso acompanham as tendências da época. Este é um princípio geral. Se alguém tem um meio de vida que não a sujeita a perigos pessoais, todos os homens argutos querem fazer o mesmo. Em conseqüência, os que produzem riqueza vêm no lugar mais alto; vêm a seguir os que com ela negociam e, no posto mais baixo, ficam os que se enriquecem por meios tortuosos. Quem não tem o caráter de um eremita religioso, mas sempre permanece pobre e sem recurso enquanto repisa trivialidades morais, deveria envergonhar-se de si mesmo.



A Vida de Po Yi

Certas pessoas dizem (citando o Livro da História): “o Céu é imparcial. Está com os homens que andam na retidão”. Nós diríamos que Poyi e Shuchi eram homens retos, não é verdade? Eram homens de grande força de caráter e de rígidos princípios; contudo, morreram de fome! Além disso, dos setenta discípulos de Confúcio, o que recebeu dele o mais alto louvor como verdadeiro amante do estudo foi Yen Huei. No entanto, Huei sempre foi pobre, comendo grosseiras refeições sem queixar-se, e morreu jovem! É assim que Deus recompensa os bons? Por outro lado, vemos o famoso bandido Chih, que matava inocentes, comia fígado humano e asso­lava o país com milhares de sua quadrilha, assassinando e roubando; e morreu de morte natural, em idade avançada! Que fez para me­recê-lo? Esses são exemplos do passado, bem conhecidos. Nos dias atuais, vemos pessoas que infringem a lei e cometem atos contrários à justiça ficarem ricas, levando vida confortável, e suas famílias continuam a gozar de fausto e prosperidade. Outros, por outro lado, observam os mais severos princípios, voltam as costas aos atalhos para o êxito, sendo, ainda, cuidadosos com suas palavras e só falando movidos por amor ao bem público, quando há uma grande injustiça. Incontável, todavia, é o número de tais pessoas que sofre desastres pessoais. É este o caminho de Deus, de que o povo fala? Ou será o contrário? Tenho grandes dúvidas a tal respeito.

Confúcio diz: “Os que não acreditam nas mesmas coisas não podem ter trato entre si”; com isto, quer dizer que tudo quanto se pode fazer é apenas seguir as próprias convicções. Eis por que Con­fúcio disse de si mesmo: “Eu gostaria até de puxar uma carroça se soubesse que, assim fazendo, ficaria rico por meu próprio esforço. Como não posso ter certeza, farei o que gosto de fazer”. E diz mais: “Quando chega o inverno, verifica-se que os pinheiros e os ciprestes suportam melhor o frio”. Quem tem coração puro mantém-se firme num mundo de corrupção geral. Sabe o que mais preza e desdenha o resto.

“Um cavalheiro detesta morrer sem deixar nome para a poste­ridade” (diz Confúcio). E Chiatse diz: “O cobiçoso morre de juntar dinheiro, o cavaleiro heróico morre pela fama, o homem de êxito morre de lutar pelo poder e a gente comum evita a morte”. “Os que têm a mesma luz atraem-se mutuamente e os animais da mesma espécie um ao outro se buscam”; “As nuvens seguem o dragão e os ventos seguem o tigre”; “Ergue-se o sábio e todas as coisas se tornam claras” (Citação do Livro das Alterações). Poyi e Shuchi tornaram-se imortais graças ao louvor de Confúcio, e Yen Huei ficou conhecido da posteridade por ter seguido o Mestre, embora todos tivessem seus méritos próprios. Há, porém, muitos filósofos que vivem em isolamento e são admiráveis por seu caráter e sua conduta, mas de quem nunca se ouve falar. Não é triste isso? Pessoas comuns que sejam de rigorosa conduta e desejem tornar-se conhecidas dos pósteros não têm outro remédio senão associar-se a letrados de grande reputação.


A geografia dos países estrangeiros da Ásia Central

"Ta-Yuan fica a sudoeste dos hsiung-nu e bem a oeste de Han, a dez mil Li (aprox. 5000km) de distância. Quanto aos costumes, o povo é sedentário e cultiva a terra, produzindo arroz, trigo e vinho de uva. Criam também excelentes cavalos, cujo suor é semelhante a sangue e cujos antepassados são filhos de cavalos celestes. Há casas e cidades fortificadas, cerca de setenta cidades de vários tamanhos. A população é de várias centenas de milhares. As armas são o arco e a lança e os guerreiros costumam atirar montados.

Ta-Yuan é limitado ao norte por K'ang-Chu, a oeste pelo Gran­de Yueh-Chih, a sudoeste por Ta-Hsia, a nordeste por Wu-Sun14 e a leste por Yu-Mi e Yu-T'ien. A oeste de Yu-T'ien todos os rios correm para oeste, desembocando no Mar Ocidental, mas a leste, os rios correm para leste, desembocando no Charco Salgado. As águas do Charco Salgado correm debaixo da ter­ra e ao sul constituem as fontes do Rio Amarelo. Nessa região há muitas pedras preciosas e os rios correm para a China. Nas regiões de Lou-Lan e Ku-Shih há cidades fortificadas ao longo do Charco Salgado. O Charco Salgado dista cerca de cinco mil Li de Ch'ang-An. O ramo ocidental dos hsiung-nu ocupa a região a leste do Charco Salgado, limitando-se com os bárbaros Ch'iang ao sul do extremo-oeste da Grande Muralha, impedindo assim o caminho de Han para o ocidente.

Os wu-sun vivem a dois mil Li a noroeste de Ta-Yuan. Nômades, migram seguindo seu gado. Seus costumes são idênticos aos dos hsiung-nu e possuem algumas dezenas de milhares de arqueiros que lutam bravamente. Eram a princípio subordinados aos hsiung­nu, mas ao se fortalecerem, permaneceram subordinados apenas nominalmente, não mais participando das assembléias anuais.

K'ang-chu fica a uns dois mil Li a noroeste de Ta-Yuan. O povo é nômade e seus costumes são quase iguais aos dos yueh-chih. Possuem oitenta ou noventa mil arqueiros. Limita-se com Ta-Yuan e é um país pequeno, estando subordinado nominalmente aos yueh-chih ao sul e aos hsiung-nu ao norte.

Yen-t'sai fica a uns dois mil Li a noroeste de K'ang-chu. Nômades, seus costumes são quase iguais aos dos k'ang-chu e possuem mais de cem mil arqueiros. Habitam às margens de um grande lago, talvez o Mar do Norte.

O Grande Yueh-Chih fica a dois ou três mil Li a oeste de Ta­Yuan, ao norte do rio Kuei. Limita-se ao sul com Ta-Hsia, a oeste com An-Hsi e ao norte com K'ang-chu. Nômades, deslocam-se seguindo seu gado e têm costumes semelhantes aos dos hsiung-nu. Como contavam com um número de arqueiros entre cem e duzentos mil, confiavam em sua força e desprezavam os hsiung-nu, mas quando surgiu o shan-yu Mo-Tun dos hsiung-nu, este bateu os yueh-chih, cujo rei foi morto no tempo do velho shan-yu, que de seu crânio fez uma taça. A princípio os yueh-chih viviam entre Tun-Huang e os montes Ch'i-lien, mas, derrotados pelos hsiung-nu, fugiram para longe, ultrapassaram Ta-Yuan, atacaram e submeteram Ta-Hsia no Ocidente e estabeleceram a corte real ao norte do rio Kuei. Pequenos grupos que não puderam fugir para longe refugiaram-se entre os bárbaros Ch'iang, das montanhas do Sul. São o Pequeno Yueh-Chih.

An-Hsi fica a alguns milhares de Li a oeste do Grande Yueh-Chih. Quanto aos costumes, o povo é sedentário e cultiva a terra, produzindo arroz, trigo e vinho de uva. As cidades fortificadas parecem-se com as de Ta-Yuan, contando-se às centenas, de vários tamanhos. É um grande país que se estende por mais de dez mil Li. Situa-se às margens do rio Kuei. Parte da população é constituída de comerciantes, que em barcos e carroças se dirigem aos países vizinhos, às vezes vários milhares de Li. Usam moedas de prata, nas quais é gravada a efígie do soberano. Quando o rei morre, a moeda é trocada por outra com a imagem do novo soberano. Escrevem horizontalmente, em couro. A oeste fica Tiao-Chih, ao norte Yen-T'sai e Li-Hsuan.

Tiao-Chih fica a vários milhares de Li a oeste de An-Hsi, às margens do Mar Ocidental. É um país quente e úmido. A população cultiva os campos e produz arroz. Há grandes pássaros que põem ovos tão grandes como vasos. A população é numerosa e em toda a parte se encontram pequenos chefes, vassalos de An-Hsi. O povo é hábil em prestidigitação. Os velhos de An-Hsi contam que em Tiao-Chih há um rio chamado Águas Fracas, onde reside uma feiticeira chamada a Rainha Mãe do Ocidente, mas disseram que nunca a viram.

Ta-Hsia fica a dois mil Li a sudoeste de Ta-Yuan, ao sul do rio Kuei. O povo é sedentário. Há cidades fortificadas e casas. Os costumes são semelhantes aos de Ta-Yuan. Não há grandes chefes, mas apenas pequenos senhores nas cidades fortificadas. São fracos em poder militar e temem a guerra, mas são grandes comerciantes. Quando os yueh-chih migraram para o Ocidente, derrotaram e submeteram todo o Ta-Hsia. A população é numerosa, passando de um milhão. Sua capital é a cidade de Lan-Shih, onde há um mercado no qual várias espécies de produtos são negociados. A sudoeste fica o país de Shen-Tu".

Disse ainda Ch'ien:

"Quando eu estava em Ta-Hsia, vi canudos de bambu de Ch'ung e tecidos de Shu. Quando perguntei onde conseguiram tais produtos, os naturais de Ta-Hsia responderam que eles eram comerciantes e iam até o país de Shen-Tu para comprar esses artigos. O país de Shen-Tu fica a vários milhares de Li a sudeste de Ta-Hsia. O povo é sedentário e seus costumes se assemelham aos de Ta-Hsia. O clima é quente e úmido. Os naturais guerreiam montados em elefantes. O país fica situado junto a um grande rio. Segundo os cálculos que eu fiz, Ta-Hsia dista de Han doze mil Li a sudoeste; já que o país de Shen-Tu fica situado a vários milhares de Li a sudeste e lá são encontrados produtos de Shu, parece que o país de Shen-Tu não fica muito distante de Shu. Se tentarmos enviar emissários a Ta-Hsia seguindo pelo caminho montanhoso no interior do território dos bárbaros Ch'iang, estes os molestarão; se os emissários seguirem mais ao norte, poderão ser aprisionados pelos hsiung-nu; se irem por Shu, o caminho será mais curto e não haverá inimigos que os molestem".

Veja o texto original em http://www.dharmanet.com.br/honganji/viagem.htm