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Shujing, Extratos do Livro das Histórias (02)

O CÂNON DE YAO (1)

(Livro de T'ang. Textos Antigo e Moderno) (2)

1. Investigando a Antigüidade (3), verificamos que Ti Yao se chamava Fang- hsün. Era reverente, esclarecido, instruído e atento, com naturalidade e sem esforço. Era sinceramente cortês e capaz de toda e qualquer complacência. A gloriosa influência dessas qualidades foi sentida nos quatro quadrantes do território e alcançou o céu no alto e a terra aqui em baixo.

Distinguiu os capazes e virtuosos; depois, amou a todos aqueles pertencentes às nove classes da sua parentela, que assim se tomou harmoniosa. Regulamentou e refinou também o povo dos seus domínios, que se tornou todo ele brilhantemente esclarecido. Por fim unificou e harmonizou os inúmeros estados; assim se transformaram as populações de cabelos pretos. E o resultado foi a concórdia universal.

2.Ordenou aos Hsis e Hos, em reverente acordo com a sua observação dos largos céus, que calculassem e desenhassem os movimentos e aparências do sol, da lua, das estrelas e dos espaços zodiacais; e, desse modo, respeitosamente decretassem quais as estações a serem observadas pelo povo.

Ordenou separadamente ao segundo irmão Hsi que residisse em Yü-i, no lugar denominado Vale Brilhante e ai respeitosamente hospedasse o sol nascente e regulasse e ordenasse os trabalhos da primavera. "O dia", disse ele, "é de duração média e a estrela está em Mao; - assim podereis determinar exatamente o meio da primavera. O povo está disperso pelos campos e os pássaros e animais se cruzam e copulam".

Depois ordenou ao terceiro irmão Hsi que residisse em Naon- chiao, no lugar denominado Capital Brilhante, para que regulasse e ordenasse as transformações do verão e respeitosamente observasse os limites exatos da sombra. "O dia", disse ele, "está na sua duração máxima e a estrela acha-se em Huo; - assim podereis determinar exatamente o meio do verão. O povo está mais disperso e os pássaros e animais, com as penas e o pêlo ralos, mudam de roupagem".

Ordenou separadamente ao segundo irmão Ho que residisse no ocidente, no lugar denominado Vale Obscuro e aí respeitosamente acompanhasse o sol poente e regulasse e ordenasse os trabalhos do outono, em conclusão. "A noite", disse ele, "está na sua duração média e a estrela acha-se em Hou; - assim podereis determinar exatamente o meio do outono. O povo sente-se bem e os pássaros e animais estão com a sua roupagem em bom estado".

Depois ordenou ao terceiro irmão Ho que residisse na região norte, no lugar denominado Capital Sombria e aí regulasse e observasse as mudanças do inverno. "O dia", disse ele, "está na sua duração mínima e a estrela acha-se em Mao; - assim podereis determinar exatamente o meio do inverno. O povo fica em casa e a roupagem dos pássaros e animais é farta e recoberta de penas ou pêlos".

Disse o Ti (4): "Ah! vós, Hsis e Hos, um ano inteiro consiste de trezentos e sessenta e seis dias. Mediante o mês intercalar, fixam as quatro estações e completai o período do ano. E após, estando os vários funcionários assim regulamentados, todos os trabalhos serão plenamente executados".

3.Disse o Ti: "Quem procurará para mim um homem de acordo com a época, a quem eu possa elevar e empregar? Fang - ch'i disse: "O vosso filho e herdeiro Chu é muito esclarecido". Disse o Ti: "Ah! ele é insincero e turbulento; - poderá satisfazer?"

Disse o Ti: "Quem procurará para mim um homem à altura das exigências dos meus negócios?" Huan- tao disse: "Oh! os méritos do Ministro de Obras acabaram de ser exibidos em larga escala". Disse o Ti: "Oh! ele fala quando tudo é calmo; mas, quando trabalha, as suas ações se exprimem de modo diferente. Só é respeitoso na aparência. Vede! as inundações molestam os Céus!"

Disse o Ti: "Oh! Presidente das Quatro Montanhas, as águas da enchente são destruidoras no seu transbordar. Na sua vasta extensão, abarcam os montes e sobem além das grandes alturas; ameaçam os Céus com a inundação, que o povo até resmunga e murmureja! Haverá um homem capaz a quem eu possa encarregar de corrigir essa calamidade?" Todos na corte disseram: "Ah! pois não existe Kun?" Disse o Ti: "Ah! como ele é perverso! Desobediente às ordens, procura prejudicar os seus pares". Disse o Presidente das Montanhas: "Sim, mas. . . experimentarei para ver se ele consegue realizar o trabalho". E assim Kun foi empregado. Disse-lhe o Ti: "Ide e sede reverente!" Ele labutou durante quatro anos, mas a obra não se realizou.

Disse o Ti : "Oh! Presidente das Quatro Montanhas, estou ocupando o trono há setenta anos. Vós podeis executar as minhas ordens; abdicarei do meu cargo em vosso benefício". Disse o chefe: "Eu não possuo a virtude; - eu desgraçaria o vosso cargo". Disse o Ti: "Apontai-me alguém entre os ilustres ou indicai-me alguém entre os pobres e os humildes". "Todos então disseram ao Ti: "Existe, entre a gente de condição inferior, um homem solteiro chamado Shun de Yü" (5). Disse o Ti: "Sim, ouvi falar nele. Que tendes a dizer a seu respeito?" Disse o Chefe: "Ele é filho de um cego. O pai era obstinadamente inescrupuloso; a madrasta, insincera; o irmão unilateral, Hsiang, arrogante. Ele conseguiu, entretanto, com a sua piedade filial, viver em harmonia com eles e os levar, gradualmente, ao domínio de si mesmos. Assim, eles já não se tornam cada vez mais perversos". Disse o Ti: "Eu o experimentarei; eu o casarei e, desse modo, verei qual o seu comportamento para com as minhas duas filhas". E assim preparou e enviou as duas filhas ao norte de Kwei para serem esposas (a família) de Yü. O Ti lhes disse: "Sede reverentes !"

[nt.No Texto Antigo existe, nesta altura, uma divisão e dá-se ao que segue o nome de "Cânon de Shun", ao passo que o Texto Moderno considera o todo como sendo o Cânon de Yao. Omitimos um parágrafo espúrio, de vinte e oito palavras, acrescentado no ano de 497 d.C.]

E eles chegaram a ser universalmente observados. Nomeado Governador Geral, foram providenciados os negócios de cada departamento oficial, nas épocas oportunas. Encarregado de receber os príncipes dos quatro quadrantes da terra, todos se mostraram docilmente submissos. Enviado às grandes planícies ao sopé das montanhas, não se perdeu, apesar das tempestades de vento, trovão e chuva.

Disse o Ti: "Aproximai-vos, Shun. Eu vos consultei a respeito de todos os negócios, meditei nas vossas palavras e verifiquei que podem ser postas em prática; - subireis, durante três anos, ao trono do Ti". Shun desejou declinar em favor de alguém mais virtuoso e não consentir em ser o sucessor de Yao. No primeiro dia do primeiro mês, entretanto, aceitou a abdicação de Yao dos seus encargos, no templo do Ancestral Instruído.

5.Examinou a esfera giratória adornada de pérolas, com o seu tubo transverso de jade e reduziu a um sistema harmonioso os movimentos dos Sete Diretores.

Em seguida, sacrificou de modo especial a Deus, embora segundo as fórmulas usuais; sacrificou, com reverente pureza, aos Seis Honrados; ofereceu os devidos sacrifícios aos montes e rios; e estendeu a sua adoração às hostes de espíritos.

Convocou todos os cinco símbolos de jade da hierarquia; e, acabado o mês, deu audiência diária ao Presidente das Quatro Montanhas e a todos os Pastores (6), devolvendo finalmente aos vários príncipes os seus símbolos.

No segundo mês do ano, realizou uma viagem de inspeção rumo a leste, até Tai- chung, onde apresentou aos Céus uma oferenda ardente e sacrificou na devida ordem aos montes e rios. Em seguida, deu audiência aos príncipes do oriente. Estabeleceu harmoniosamente as suas estações e os seus meses e regulou os seus dias - uniformizou os tubos- padrão, com as medidas de comprimento e capacidade e as jardas de aço; regulamentou as cinco classes de cerimônias, com os vários artigos de introdução - os cinco símbolos de jade, as três qualidades de seda, os dois animais vivos e o morto. Quanto aos cinco instrumentos da hierarquia, devolveu-os quando tudo estava terminado. No quinto mês, fez uma viagem semelhante rumo ao sul, até as montanhas do meio-dia, onde celebrou as mesmas cerimônias de Tai. No oitavo mês, fez uma viagem rumo a oeste, até as montanhas do ocidente, onde procedeu como dantes. No décimo primeiro mês, fez uma viagem rumo ao norte, até as montanhas do setentrião, onde celebrou as mesmas cerimônias do ocidente. Regressou então à capital, dirigiu-se ao templo do Ancestral Cultivado e sacrificou um único touro.

No decurso de cinco anos, houve uma viagem de inspeção e quatro comparências dos príncipes à corte. Estes apresentaram relatórios verbais do seu governo, claramente comprovados pelos seus trabalhos. Receberam carros e vestes segundo os méritos de cada um.

Instituiu a divisão da terra em doze províncias, nelas erguendo altares no alto de doze montes. Também aprofundou os rios.

Expôs ao povo as punições estatutárias, promulgando o banimento como forma de mitigação das cinco grandes penas; o chicote a ser empregado pelos tribunais de magistrados, a vara a ser usada nas escolas e o dinheiro a ser recebido pelos delitos resgatáveis. Seriam perdoados os delitos por inadvertência e os que pudessem ser atribuídos à infelicidade; mas as pessoas que violassem as leis, presunçosa e repetidamente, seriam punidas de morte. "Que eu seja reverente! Que eu seja reverente!" dizia ele a si mesmo. "Que a compaixão reine em matéria de punições".

Baniu o Ministro de Obras para a ilha de Yü; confinou Huan - tao ao Monte Ch'ung; impediu o chefe de San- Miao e o seu povo para San- wei e aí os conservou; e manteve Kun prisioneiro até a morte, no Monte Yü. Assim tratados esses quatro criminosos, todos na face da terra reconheceram a justiça da administração de Shun.

6. Decorridos vinte e oito anos, faleceu o Ti: então o povo o pranteou durante três anos, como a um pai. Quedaram e emudeceram as oito qualidades de instrumentos de música compreendidas nos quatro mares. No primeiro dia do primeiro mês do ano seguinte, Shun foi ao templo do Ancestral Instruído.

7. Deliberou com o Presidente das Quatro Montanhas sobre a maneira de manter abertas as portas de comunicação entre ele próprio e os quatro quadrantes da terra e a respeito de como poderia ver com os olhos e ouvir com os ouvidos de todos.

Consultou os doze Pastores e lhes disse: "O alimento depende da observância das estações. Sedes bondosos para com os distantes e cultivai a capacidade dos que estejam próximos. Honrai os virtuosos e confiai nos bons, ao passo que recusai favorecer os espertos; assim as tribos bárbaras induzirão umas às outras a se submeterem".

Shun disse: Oh! Presidente das Quatro Montanhas, haverá alguém à altura de atender, com vigorosa capacidade de servir, a todos os negócios do Ti e a quem eu possa nomear Governador Geral, para auxiliar-me em todas as questões, administrando cada departamento conforme a sua natureza?" Todos, na corte, replicaram: "Existe Po- yü, Ministro de Obras". Disse o Ti: "Sim, Oh! Yü, vós regalastes a água e a terra. Esforçai-vos neste novo cargo. Yü exprimiu obediência, com a cabeça tocando o solo e desejou declinar em favor do Ministro da Agricultura, de Hsieh ou Kao- yao". Disse o Ti: "Sim; mas, ide e assumi os encargos".

Disse o Ti: "Chi'i, o povo de cabelos pretos ainda padece fome. Continuai, ó Príncipe, como Ministro da Agricultura, a semear para ele as várias qualidades de grão".

Disse o Ti: "Hsieh, os povos ainda carecem de afeição uns pelos outros e não observam docilmente as cinco ordens de relações. Compete-vos, na qualidade de Ministro da Instrução, pregar com reverência as lições do dever, que concernem àquelas cinco ordens. Fazei-o brandamente".

Disse o Ti: "Kao - yao, as tribos bárbaras perturbam a nossa grande terra. Há também ladrões, assassinos, insurretos e traidores. Compete-vos, na qualidade de Ministro do Crime, aplicar as cinco punições no trato dos seus delitos. Três são os locais determinados para a punição desses delitos. Cinco os casos em que se deve recorrer ao banimento para os lugares devidos, sendo designadas três localidades embora sejam eles cinco. Desempenhai esclarecidamente os vossos encargos e conseguireis sincera submissão".

Disse o Ti: "Quem poderá superintender as minhas obras, segundo diversamente requerem? Todos na corte replicaram: "Não existe Shui?' Disse o Ti: "Sim, ó Shui, deveis ser o Ministro de Obras". Shui exprimiu obediência, com a cabeça tocando o solo e desejou declinar em favor de Shu, Ch'iang ou Po- yü. Disse o Ti: "Sim; mas, ide e assumi os encargos. Promovei a harmonia de todos os departamentos".

Disse o Ti: "Quem poderá superintender, como requer a natureza dos trabalhos, a relva e as árvores dos meus montes e pântanos com os seus pássaros e animais?" Todos, na corte, replicaram: "Não existe Yi?" Disse o Ti: "Sim, ó Yi, sede o meu Guarda - Florestal. Yi exprimiu obediência, com a cabeça tocando o solo e desejou declinar em favor de Chu, Nu, Hsiung ou Pi (7)". Disse o Ti: "Sim; mas, ide e assumi os encargos. Deveis administrá-los harmoniosamente".

Disse o Ti: "Oh! Presidente das Quatro Montanhas, haverá alguém capaz de dirigir as minhas três cerimônias religiosas?" Todos, na corte, responderam: "Não existe Po-i ?" Disse o Ti: "Sim, ó Po, deveis ser Administrador do Templo do Ancestral. Sede reverente de manhã à noite. Sede reto, sede puro". Po exprimiu obediência, com a cabeça tocando o solo e quis declinar em favor de K'uei (8) ou Lung (9). Disse o Ti: "Sim; mas, ide e assumi os encargos. Sede reverente!"

Disse o Ti: "K'uei, eu vos nomeio Diretor de Música a fim de ensinar aos nossos filhos, para que os francos sejam dóceis: os brandos sejam dignos; os fortes não sejam tirânicos; e os impetuosos não sejam arrogantes. A poesia é a expressão dos grandes pensamentos; o canto é a enunciação prolongada dessa expressão; as notas acompanham-na e se harmonizam através dos tubos- padrão. Desse modo, os oito diversos tipos de instrumentos de música poderão ser ajustados para que um não tome de outro nem interfira com terceiros; e os espíritos e os homens se harmonizarão". K'uei disse: "Eu firo a pedra que soa, tanjo-a suavemente e os vários animais convidam-se mutuamente à dança".

Disse o Ti: "Lung, eu abomino os faladores, que difamam e os destruidores dos retos caminhos, que agitam e alarmam o meu povo. Eu vos nomeio Ministro das Comunicações (10). Transmiti as minhas ordens, a qualquer hora e apresentai relatórios, verificando que tudo seja verdadeiro".

Disse o Ti: "Oh! vós, vinte e dois homens, sede reverentes; assim sereis úteis aos negócios que me foram confiados pelo Céu".

De três em três anos, procedeu-se a exame dos méritos e após três exames foram degradados os não merecedores e promovidos os merecedores. Graças a essa disposição, foram plenamente cumpridos os encargos de todos os departamentos; o povo de San - miao foi também discriminado e separado.

8. No décimo terceiro ano de sua existência, Shun foi investido no cargo. Permaneceu trinta anos no trono, com Yao. Cinqüenta anos depois, foi para o Céu e morreu.



OS CONSELHOS DO GRANDE YU

(Livro de Yü (11), II. Texto Antigo)

1.Investigando a Antigüidade, verificamos que o Grande Yü (12) se chamava Wen - ming. Tendo ordenado e dividido toda a terra, até os quatro mares, disse ao Ti, em reverente resposta: "Se o soberano puder conceber a dificuldade da sua soberania e o ministro a dificuldade do seu ministério, o governo será bem disciplinado e o povo de cabelos pretos procurará zelosamente ser virtuoso".

Disse o Ti: "Sim, que seja realmente esse o caso e as boas palavras não fiquem ocultas em parte alguma; que nenhum homem de virtude e talento seja esquecido ou conservado fora da corte e todos os inúmeros estados gozem de tranqüilidade. Mas, obter os pontos de vista de todos; pôr de lado a nossa opinião e seguir a de terceiros; deixar de oprimir os desamparados e não esquecer os aflitos e os pobres; só o antigo Ti o poderia conseguir";

Disse Yü: "A vossa virtude, ó Ti, é imensa e incessante. É sábia, espiritual, inspiradora de temor e adornada de todos os atributos. O Grande Céu vos contemplou com o seu favor e vos conferiu o seu mandato. Possuístes, subitamente, tudo o que está compreendido nos quatro mares e vos tornastes o governante de tudo quanto existe na face da terra".

Disse Yü: "A obediência ao direito conduz à boa fortuna; seguir o que se lhe opõe, à má fortuna; - à sombra e ao eco". Disse Yi: "Ah! Sedes prudentes! Exortai-vos à prudência, mesmo quando pareça não ser momento de ansiedade. Não deixeis de observar as leis e ordenações. Não encontreis satisfação na ociosidade. Não vos excedais no prazer. No emprego de homens de mérito, não permitais que alguém se coloque entre vós e eles. Ponde o mal de lado, sem hesitação. Não executeis planos de cuja sabedoria tiverdes dúvida. Atentai bem para que todos os vossos propósitos possam receber a luz da razão. Não ides contra o que é correto, visando obter o louvor do povo. Não vos oponhais à vontade do povo para seguir os vossos próprios desejes. Atendei a essas coisas sem ociosidade ou omissão e as tribos bárbaras em derredor se aproximarão e reconhecerão a vossa soberania".

Disse Yü: Oh! Meditai a esse respeito, ó Ti. A virtude do governante se revela no seu bom governo e esse governo, na nutrição do povo (13). Temos a água, o fogo, o metal, a madeira, a terra e o grão: deverão ser devidamente regulados; temos a correção da virtude do povo, dos instrumentos e de várias outras coisas, que proporcionam as conveniências da vida e a obtenção de abundantes meios de sustento: deverão ser harmoniosamente atendidos. Quando os nove serviços assim indicados tiverem sido realizados, na devida ordem, isso será saudado com os cânticos do povo. Adverti-o com palavras brandas, corrigi-o com a majestade da lei, estimulai-o com as canções sobre esses noves assuntos - para que o vosso êxito não sofra diminuição". Disse o Ti: "A terra foi posta em ordem e as influências do Céu produzem os seus plenos efeitos; aqueles seis depósitos e três departamentos da ação governamental estão todos devidamente regulados e poderão merecer confiança durante um sem número de gerações; esse é o vosso mérito".

2.Disse o Ti: "Aproximai-vos, Yü. Eu ocupei o meu cargo durante trinta e três anos. Medeio entre os noventa e os cem anos de idade e os laboriosos deveres me afadigam. Afastando toda a indolência, dirigi o meu povo (14).Yü replicou: "A minha virtude não está à altura do cargo e o povo não terá confiança em mim. Mas existe Kao - yao, cuja atividade forte espalha aos quatro ventos a sua virtude. Ela chegou até o povo de cabelos pretos, que o preza de todo o coração. Ó Ti, pensai nele! Quando nele concentro o pensamento, o meu espírito repousa; ele é o homem para esse cargo; quando o afasto da mente, o meu espírito ainda nele confia; quando cito o seu nome e falo da sua pessoa, o meu espírito nele deposita confiança; a sincera expressão dos meus sentimentos a seu respeito é que ele é o homem. Ó Ti, meditai nos seus méritos".

Disse o Ti: "Kao- yao, a circunstância de ser dificilmente encontrado entre os meus ministros e em todo o meu povo, alguém que viole os regulamentos do governo - deve-se ao fato de serdes Ministro do Crime, esclarecido no emprego das cinco penalidades, assim auxiliando a inculcar os cinco deveres cardeais e tendo em vista a perfeição do meu governo, para que, mediante as punições se possa chegar a não aplicar pena alguma (15), e o povo concorde em seguir o caminho da Moderação. Continuai a ser tenaz". Kao- yao replicou: "A vossa virtude, ó Ti, é irreprochável. Condescendeis com os vossos ministros, com bondosa facilidade; presidis às multidões com generosa indulgência. As punições não se estendem aos herdeiros dos criminosos ao passo que as recompensas alcançam as gerações seguintes. Perdoais as faltas inadvertidas, embora graves e punis os crimes propositais, ainda que sejam leves (16). Diante de crimes duvidosos, procedeis com brandura; nos casos de mérito discutível, preferis a opinião favorável. Ao invés de condenar à morte o inocente, correríeis o risco da irregularidade e do erro (17). Essa virtude de amar a vida penetrou o espírito do povo e. por isso, ele não se torna passível de castigo da parte dos vossos funcionários". Disse o Ti: "É à vossa excelência que eu devo poder seguir e obter o que desejo no meu governo, reagindo o povo, em toda a parte, como se fosse tangido pelo vento".

Disse o Ti: "Aproximai-vos, Yü. As águas transbordantes encheram-me de terror e vós, de fato, cumpristes tudo quanto havíeis afirmado e concluístes os vossos serviços; - demonstrastes, desse modo, a vossa superioridade sobre os demais. Careceis da menor presunção orgulhosa; mas ninguém, na face da terra, poderá concorrer convosco à palma do mérito (18). Vejo como é grande a vossa virtude, como são admiráveis as vossas imensas realizações. O positivo mandato do Céu recai na vossa pessoa; devereis eventualmente subir ao trono do grande soberano. O espírito do homem é inquieto, propenso ao erro; é pequena a sua afinidade pelo que é reto (19). Sede discriminador, sede uniforme na procura do correto para que possais sinceramente ater-vos com firmeza à Moderação (20).Não deis ouvidos a palavras não comprovadas; não sigais planos a respeito dos quais não procurastes aconselhar-vos. Não é o governante o principal daqueles que devem ser amados? Se a multidão fosse privada do seu chefe soberano, a quem sustentaria no alto? Se o soberano não tivesse a multidão, não haveria quem lhe guardasse o país. Sede reverente. Conservai cuidadosamente o trono, que devereis ocupar, cultivando as virtudes que são para desejar-se em vós. Se houver miséria e pobreza na terra compreendida nos quatro mares, terão fim perpétuo as vossas rendas concedidas pelo Céu. É a boca que origina o que é bom e desperta as guerras. Eu não modificarei as minhas palavras". Disse Yü: "Submetei os ministros dignos de mérito. um a um, a prova da adivinhação e permiti seja seguida a indicação favorável". O Ti replicou: "Conforme as normas que regulam as adivinhações, deve-se primeiro tomar a decisão e referir o juízo firmado ao grande casco de tartaruga (21). Nesse particular, tomei antes a minha decisão; consultei todos os meus ministros e todo o povo; deliberei com eles e todos se mostraram de acordo comigo. Os espíritos testemunharam o seu assentimento e o casco de tartaruga, bem como as hastes divinas igualmente concordaram. A consulta aos augúrios, quando auspiciosa, não deve ser repetida". Yü exprimiu obediência, com a cabeça tocando o solo e declinou firmemente aceitar o cargo. Disse o Ti: "Não deveis assim proceder. Sois quem pode ocupar devidamente o cargo". Na primeira manhã do primeiro mês, Yü assumiu o mandato no templo consagrado por Shun aos espíritos dos seus antepassados e tomou a direção de todos os funcionários, conforme procedera o Ti, no início do seu governo.

3.Disse o Ti: "Ah! o Senhor de Miao é o único a recusar obediência: ide e corrigi-o. Diante disso. Yü refluiu todos os príncipes e pronunciou um discurso as suas hostes dizendo : "Multidão aqui formada, ouve as minhas ordens. O Senhor de Miao é insensato, ignorante, criminoso e desrespeitoso. Cheio de desprezo e insolente para com os outros, pensa que toda a capacidade e toda a virtude nele se resumem. Rebelde ao direito, destrói todas as obrigações da virtude. Homens superiores são por ele mantidos na obscuridade e pessoas mesquinhas preenchem todos os cargos. O povo o despreza e não o protegerá. O céu faz descer calamidades sobre ele. Por conseguinte, minha multidão de homens valentes, eu tenho instruções do Ti para punir os seus crimes, ao teu lado. Procede com um só coração e uma só força para que o nosso empreendimento seja coroado de êxito (22)".

Ao cabo de três decênios, o povo de Miao continuava rebelde às ordens a ele dirigidas, quando Yi veio em auxilio de Yü, dizendo: "É a virtude que move o Céu; não há distância que ela alcance. O orgulho acarreta prejuízos e a humildade é recompensada (23); - esse é o estilo do Céu. Nos primeiros tempos do Ti, quando ele vivia perto do Monte Li, metia-se nos campos e se debulhava em lágrimas, visando obter a compaixão do Céu; e chorava pelos seus pais, tomando a si todo o pecado e imputando-se até a maldade deles. Ao mesmo tempo, possuído de respeitoso espírito de serviço, compareceu perante Ku- sau (24), parecendo grave e atemorizado até que, diante do seu exemplo, Kü também se transformou. "A sinceridade completa comove os seres espirituais - quanto mais não moverá a esse Senhor de Miao!" Yü prestou homenagem às excelentes palavras e disse: "Sim". Logo depois, retirando as tropas recuou o seu exército. O Ti pôs-se a difundir em larga escala as virtuosas influências da paz; os soldados dançaram com os seus escudos e plumas entre as duas escadarias do pátio. Ao cabo de setenta dias, o Senhor de Miao se aproximou e exprimiu a sua submissão (25).



OS CONSELHOS DE KAO - YAO

(Livro de Yü, III. Texto Moderno e Texto Antigo)

1. Investigando a Antigüidade, verificamos que Kao - yao (26) disse: "Se o soberano procede sinceramente de acordo com a virtude, os conselhos que lhe forem dados serão esclarecidos e será harmonioso o auxílio das advertências que receber". Disse Yü: "Sim, mas explicai-vos". Disse Kao - yao: "Oh! Que ele cuide do seu cultivo pessoal, possuído de idéias de larga repercussão e assim dará origem à generosa bondade e escrupulosa observância das distinções entre os nove ramos da sua parentela. Todas as pessoas esclarecidas também se esforçarão a seu serviço; e, desse modo, partindo do próximo ele alcançará o distante". Yü prestou homenagem às excelentes palavras e disse: "Sim". Kao - yao continuou: "Oh! é conhecer os homens e dar tranqüilidade ao povo". Disse Yü: "Ah! alcançar essas duas coisas talvez fosse difícil até para o próprio Ti. Quando o soberano conhece os homens, é sábio e capaz de colocar cada um no cargo para o qual seja apto. Quando dá tranqüilidade ao povo (27), a sua bondade é sentida e a raça de cabelos pretos o preza de todo o coração. Quando consegue ser assim sábio e magnânimo, que ocasião terá de ficar ansioso a respeito de um Huan- tao? Que seria da remoção de um Senhor de Miao? Que recear de qualquer indivíduo verboso, de aparência insinuante e grande esperteza?"

2. Kao - yao disse: "Oh! existem ao todo nove virtudes a serem descobertas na conduta; e quando afirmamos que um homem possuí uma virtude é a mesma coisa do que dizer que ele pratica certas e determinadas ações". Yü perguntou: "Quais são as nove virtudes?" Kao - yao replicou: "Afabilidade com dignidade; suavidade com firmeza; rudeza com respeito; aptidão para o governo com reverente prudência; docilidade com intrepidez; franqueza com brandura; fácil condescendência com discriminação; arrojo com sinceridade; valor com retidão. Quando se revelam essas qualidades e isso acontece continuamente, não temos nós o bom funcionário? Quando existe uma exibição diuturna de três dessas virtudes, o seu possuidor poderá, a qualquer hora, regular e enobrecer o clã do qual foi feito chefe. Quando existe o cultivo diário e severo de seis delas, o seu possuidor poderá brilhantemente conduzir os negócios do Estado nos quais foi investido. Quando tais homens forem admitidos e elevados, os possuidores dessas nove virtudes serão empregados no serviço público. Os homens de mil (chefes de mil) e os homens de cem estarão nos seus escritórios; os vários ministros se emularão reciprocamente; todos os funcionários cumprirão as suas obrigações na ocasião devida, observando as cinco estações, segundo predominam os diversos elementos - e assim as suas várias atribuições serão plenamente desempenhadas. Não permitais que o Filho do Céu dê àqueles que exerçam autoridade sobre os Estados o exemplo da indolência e da dissolução. Que ele seja cauteloso e temente, lembrando-se de que num ou dois dias podem originar-se mil coisas. Que os seus vários funcionários não sejam meros atravancadores dos cargos. O trabalho pertence ao Céu; os homens devem agir em seu nome".

3."Do Céu decorrem relações sociais, com os seus vários deveres somos encarregados de tornar obrigatórios esses cinco deveres; - e atentai bem! dispomos dos cinco caminhos da conduta honrosa (28). Do Céu decorrem as distinções sociais com a suas diversas cerimônias; da nossa parte compete a observância dessas cinco cerimônias. Atentai bem! elas surgem na prática comum. Quando o soberano e os ministros demonstram-lhes reverência e respeito unânimes, a natureza moral do povo se torna harmoniosa. O Céu graciosamente distingue os virtuosos; - não existem para eles cinco trajes e cinco condecorações? O Céu pune os culpados; - não existem as cinco punições a serem diversamente aplicadas com esse propósito? As funções do governo! - não devemos ser zelosos nessas funções?"

"O Céu ouve e vê assim como ouve e vê o nosso povo; o Céu brilhantemente aprova ou exibe os seus terrores conforme o nosso povo brilhantemente aprova ou aterroriza (29); existe essa relação entre o mundo superior e o inferior. Como devem ser reverentes os senhores dos territórios!"

4. Disse Kao - yao: "As minhas palavras estão de acordo com a razão e podem ser postas em prática". Disse Yü: "Sim, as vossas palavras podem ser postas em prática e coroadas de êxito". Kao- yao acrescentou: "Quanto a isso não sei; mas desejo ser útil cada dia. Que o governo possa ser aperfeiçoado (30)".



OS CÂNTICOS DOS CINCO FILHOS

(Livro de Hsia, III. Texto Antigo)

1. T'ai K'ang (31) ocupou o trono como um arremedo do morto. Extinguiu a própria virtude com a ociosidade e a dissipação, até que todo o povo de cabelos pretos vacilou na sua lealdade. Ele, entretanto, persistiu nos prazeres e no erro sem qualquer constrangimento. Foi caçar além do Lo; cem dias eram passados e ele não regressava. Diante disso Yi, príncipe de Ch'iung, aproveitando-se do descontentamento do povo, resistiu à sua volta ao sul do Ho (32). Os cinco irmãos do Rei haviam acompanhado a sua mãe, que o fora a encontrar todos estavam à espera ao norte do Lo; quando ouviram falar no movimento de Yi, todos eles, cheios de pesar, recitaram as Advertências do grande Yü (33), sob a forma de cânticos.

2. Disse o Primeiro:

"Foi a lição do nosso grande antepassado;

O povo devia ser tratado com carinho

E não olhado de cima (34);

O povo é a raiz de uma nação.

Se a raiz é firme ela vive tranqüila (35),

Quando olho para tudo o que existe na face da terra.

Os homens simples e as mulheres simples...

Qualquer deles poderá vencer-me;

Se o Primeiro Homem repetidamente erra,

Devemos esperar até surgir o descontentamento?

É preciso preveni-lo antes de o sentir” (36).



“Quando eu trato com os milhões do povo,

Devo ter tanta ansiedade como se estivesse a guiar seis

Cavalos, com as rédeas apodrecidas.

O governante dos homens...

Como deverá ser senão reverente nas suas atribuições".

Disse o segundo:

"Está nas Lições;

Quando o palácio é um campo aberto à luxúria

E o país uma selva para as caçadas;

Quando as bebidas espirituosas são apreciadas e a música é um deleite;

Quando existem altos tetos e paredes esculpidas;

A presença de qualquer dessas coisas

Jamais foi senão o prelúdio da ruína (37)".



Disse o terceiro:

"Era uma vez o Senhor de T'ao e T'ang (38)

Que possuía esta região de Chi.

Nós nos afastamos dos seus rumos

E lançamos à confusão as suas normas e leis;

O resultado é a extinção e a ruína".

Disse o quarto:

"Gloriosamente esclarecido era o nosso antepassado,

Soberano de inúmeras regiões;

Tinha cânones, tinha padrões,

Que transmitiu à posteridade.

A pedra padrão e o quartil uniformizador

Estavam no tesouro real

Abandonamos desenfreadamente a orientação que ele nos dera.

Subvertendo o nosso templo e extinguindo os nossos sacrifícios".

Disse o quinto:

Oh! para onde nos voltaremos?

Os pensamentos em meu peito me confrangem.

Todo o povo é hostil;

Em quem podemos confiar?

A ansiedade enche os nossos corações;

A pele dos nossos rostos, grossa embora, está recoberta de rubor.

Nós não cuidamos da nossa virtude;

E apesar de arrependidos, não podemos alcançar o passado (39)".



A PROCLAMAÇÃO DE T'ANG

(Livro de Shang, III. Texto Antigo)

1. Quando o rei (40) voltou da subjugada Hsia e veio para Po, fez uma grande proclamação às inúmeras regiões.

2. Disse o rei: "Ah! multidões das inúmeras regiões, ouvi claramente a minha proclamação. Eu sou o Primeiro Homem. O grande Deus conferiu senso moral (até) ao povo aqui da terra; e a conformidade com o mesmo revela a natureza invariavelmente correta desse povo (41). Fazê-lo prosseguir tranqüilamente o curso indicado pelo senso moral é a missão do soberano".

"O rei de Hsia destruiu a sua própria virtude e portou-se como tirano, estendendo a opressão a vós, povos das inúmeras regiões. Padecendo com os seus cruéis malefícios e incapazes de suportar a amargura e a malignidade, protestastes a uma só a vossa inocência aos espíritos do Céu e da Terra. O estilo do Céu é abençoar os bons e tornar miseráveis os malvados (42). Ele fez descerem calamidades sobre a Casa de Hsia a fim de patentear-lhe a culpa. Por conseguinte, eu, pobre criança, intimado pelo decreto do Céu pelos seus gloriosos terrores, não ousei perdoar o criminoso. Aventurei-me a utilizar um touro- vítima de cor escura; e, dirigindo uma clara proclamação ao Soberano Espiritual dos Altos Céus, solicitei permissão para tratar como criminoso o governante de Hsia. Procurei, então, o grande Sábio com quem poderia unir a minha força, visando solicitar o favor do Céu em vosso benefício, minhas multidões. Os Altos Céus demonstraram de fato a sua graça em favor do povo aqui da terra e o criminoso (43) foi degradado e submetido. O que o Céu determina está isento de erro; hoje, gloriosamente, como o florescer das plantas e árvores, os milhões do povo apresentam um verdadeiro revivescer".

3.Compete a mim, o Primeiro Homem, assegurar a harmonia e tranqüilidade dos nossos Estados e clãs; e não sei se ofendo às forças superiores e inferiores. Receio e tremo como se estivesse em perigo de cair em profundo abismo. Em todas as regiões que iniciam vida nova sob o meu governo, não segui, vós, ó príncipes, os caminhos fora da lei; não vos aproximeis da insolência e da dissolução; cada um cuide de manter os seus estatutos; - que assim possamos receber o favor do Céu. Não ousarei conservar oculto o bem que existe em vós; e quanto ao mal que existe em mim, não ousarei perdoar-me. Examinarei esses assuntos em harmonia com o espírito de Deus. Quando e onde quer que seja, fordes achado sem culpa, vós que ocupais as inúmeras regiões, que ela recaia sobre mim, o Primeiro Homem. Quando eu for achado em culpa, ela não será atribuída a vós, que ocupais as inúmeras regiões (44)".



T'AI CHIA

(Livro de Shang, V. Texto Antigo. A Seção A foi aqui omitida)

Seção 2.

1.No primeiro dia do décimo mês do seu terceiro ano, Yi Yin (45) acompanhou de regresso ao Po ao jovem rei, que usava o chapéu e as vestes reais. Na mesma ocasião, redigiu o seguinte escrito:

"Sem soberano, o povo não obteria a orientação necessária ao conforto da vida; sem o povo, o soberano não teria influência sobre os quatro quadrantes do reino (46). O Grande Céu graciosamente favoreceu a Casa de Shan e vos permitiu, afinal, ó jovem rei, ser virtuoso. Em verdade, isso é uma bênção que se estenderá indefinidamente a dez mil gerações".

2. O rei exprimiu obediência, com o rosto nas mãos e a cabeça tocando o solo, dizendo: "Eu, pobre criança, não compreendia a virtude e estava me tornando um indigno. Anulava, com os meus desejos, todas as normas da conduta e violava, com a minha indulgência, todas as normas da propriedade; o resultado deveria ter sido a célere ruína da minha pessoa. As calamidades enviadas pelo Céu podem ser evitadas; não há, porém, como fugir daquelas causadas por nós mesmos (47). Até hoje, eu tenho voltado as costas às vossas instruções, meu preceptor e tutor - o meu começo foi assinalado pela incompetência. Que eu ainda confie na vossa virtude corretiva e preservadora, conservando-o na mente para que o meu fim seja feliz !"

3.Yi Yin exprimiu obediência, com o rosto nas mãos e a cabeça tocando o solo, e disse: "Quem cultivar a personalidade e for sinceramente virtuoso, induzirá todos os inferiores a um harmonioso acordo com a sua pessoa - essa é a missão do soberano esclarecido. O antigo rei era magnânimo para com os aflitos e sofredores, como se fossem os seus próprios filhos e a população submeteu-se aos seus mandamentos - toda ela com sincera alegria. Até mesmo nos Estados dos príncipes vizinhos, o povo disse: "Estou à espera do meu soberano e não sofrerei os castigos que ora padeço".

Ó rei, cultivai zelosamente a virtude. Atentai no exemplo do vosso avô, tão cheio de mérito. Não vos permitais, em tempo algum, o prazer e a ociosidade. Ao cultuar os antepassados, meditai sobre como podereis provar a vossa piedade filial; ao receber os ministros, pensai em como podereis revelar-vos respeitoso; ao contemplar o que esteja distante, procurai ver com clareza; tende os vossos ouvidos sempre abertos às lições da virtude; eu reconhecerei, então, a excelência da vossa majestade com infatigável devoção ao vosso serviço e responderei por ela (48)".

Seção 3.

1.Yi Yin dirigiu novamente uma proclamação ao rei, dizendo: "Oh! o Céu não tem afeições parciais (49); só demonstra afeto aos que forem reverentes. O povo não é constante àqueles a quem quer bem; só quer bem a quem for benevolente. Os espíritos nem sempre aceitam os sacrifícios que lhes são oferecidos; - só aceitam a oblação dos sinceros. O posto conferido pelo Céu (50) é cheio de dificuldades. Quando existem aquelas virtudes, realiza-se o bom governo; quando elas faltam, sobrevém a desordem. Perseverar nos mesmos princípios daqueles que asseguram o bom governo, certamente conduzirá à prosperidade; prosseguir o curso da desordem por certo levará à ruína. A pessoa que assim no fim como no principio é atenta àqueles a quem segue e àquilo a que segue, é soberano verdadeiramente esclarecido. O antigo rei foi sempre zeloso no reverente cultivo da virtude e por isso era companheiro de Deus...Ó rei, entrastes na posse da herança da sua excelente fortuna; - concentrai nela a vossa atenção".

2."O vosso rumo deverá ser tal que ao ascender a alturas começareis de baixo e ao viajar para o lugar distante partireis do próximo. Quando ouvirdes palavras desagradáveis ao vosso espírito, devereis indagar se porventura são acertadas. Quando ouvirdes palavras que concordarem com as vossas opiniões, devereis indagar se não são contrárias ao que é correto. Oh! que realizações poderão ser conseguidas sem esforço? Que o Primeiro Homem seja muito magnânimo e as inúmeras regiões serão por ele corrigidas (51)".

3."Quando o soberano não lança à confusão as velhas normas de governo, com palavras que dêem origem a debates e o ministro, por favor ou benefício pessoal, não permaneça no cargo cujos trabalhos já tenham sido executados - então o país gozará da felicidade segura e duradoura".



A POSSE EM COMUM DA VIRTUDE PURA

(Livro de Shang, VI. Texto Antigo)

1. Tendo Yi Yin restituído o governo às mãos do soberano e estando prestes a anunciar o seu afastamento, proclamou certas advertências a respeito de virtude.

2. Disse ele: "Oh! é difícil confiar no Céu; os seus mandatos não são permanentes (52). Mas, se o soberano provê no sentido da sua virtude ser constante, conservará o trono; se essa virtude não for constante, as nove províncias serão por ele perdidas. O rei de Hsia não pôde manter inalterada a virtude dos antepassados: desprezou os espíritos e oprimiu o povo. O Grande Céu já não lhe estende a sua proteção. Investigou as inúmeras regiões para orientar aquele que deveria ser investido no mandato cheio de favor, procurando afetuosamente um possuidor da virtude pura a quem pudesse fazer o senhor de todos os espíritos. Havia, então, eu - Yin e T'ang, cada qual possuidor da virtude pura e capaz de satisfazer ao espírito do Céu. Ele recebeu, por conseguinte, o brilhante favor do Céu (53), tornando-se, desse modo, o senhor das multidões das nove províncias; e depois mudou o começo do ano de Hsia. Não que o Céu demonstrasse qualquer parcialidade especial pelo Senhor de Shang; - concedeu simplesmente o seu favor à virtude pura. Não que Shang buscasse a lealdade do povo aqui da terra; o povo simplesmente voltou-se para a virtude pura. Quando a virtude do soberano é pura, os seus empreendimentos são afortunados; quando ela é vacilante e incerta, todas as suas empresas são desafortunadas. O bem e o mal não recaem erroneamente sobre os homens; o Céu faz descer a miséria e a felicidade conforme a sua conduta".

3."Agora, ó jovem rei, que iniciais o vosso grande mandato - deveríeis estar procurando renovar a vossa virtude. Assim no fim como no início, tomai-o como o vosso único objetivo, para que realizeis uma renovação diária da vossa virtude. Os funcionários que empregardes hão-de ser homens dotados de virtude e capacidade e os ministros que vos cercarem, os homens adequados. Com relação ao seu soberano, que é superior a ele, cabe ao ministro promover-lhe a virtude; e com relação ao povo que é inferior, cabe procurar-lhe o bem. Como deve ser difícil encontrar o homem adequado! Que atenção cuidadosa há de ser requerida. Por conseguinte, deve existir harmonia com ele cultivada e unidade de confiança nele depositada.

"Não existe modelo invariável de virtude (54), a suprema consideração ao bem lhe proporciona o padrão. Não há característica invariável do bem a ser julgado supremo: - ela se encontra onde existir acordo com a consciência unânime a respeito do que seja o bem. Essa virtude levará todo o povo a dizer, com os seus inúmeros sobrenomes: "Como são grandiosas as palavras do rei"! E também: "Como é único e puro o coração do rei !" Ela será eficaz para manter em tranqüilidade as ricas possessões do antigo rei e assegurar para sempre a existência feliz das multidões.

4.Oh! Conservar um lugar no templo dos sete escrínios (55) dos antepassados é suficiente testemunho de virtude. Ser reconhecido como chefe pelos inúmeros cabeças de família é prova cabal a favor do governo de alguém. O soberano sem o povo não tem a quem empregar; e o povo sem o soberano não tem a quem servir (56). Não vos julgueis tão grande a ponto de considerar pequenos os demais. Se os homens e mulheres comuns não encontrarem ensejo para o pleno desenvolvimento das suas capacidades, o senhor do povo será privado do auxílio adequado a integrar-lhe o mérito".
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(1) Embora pouco tenha a ver com a democracia, este documento é interessante por si mesmo, como a mais antiga peça escrita em chinês, que se conhece. O Imperador Yao reinou de 2256 a. C. O Cânon foi provavelmente escrito séculos depois.

(2) Veja-se a Introdução.

(3) Isso demonstra que o Cânon de Yao não foi escrito ao tempo de Yao, porém muito mais tarde, o que poderá ter sido em qualquer altura do segundo milênio a.C. Supõe-se que a escrita chinesa tivesse sido inventada por Ts'ang Chi, ministro do Imperador Amarelo, o que é tradição de caráter lendário. Inscrições ósseas oraculares, recentemente escavadas, datando aproximadamente de 2000 a.C., já revelam adiantado progresso.

(4) Ti significa Imperador ou Governante.

(5) O Imperador Shun, que reinou de 2255 a 2206 a.C., como sucessor de Yao Shun pregou cuidadosamente a beleza dos cinco deveres cardeais.

(6) Mu, literalmente, "Pastores (do povo)".

(7) Quatro nomes de pessoas: Cedro (possivelmente Porco, Tigre, Urso e Urso Cinzento).

(8) Animal de chifres.

(9) Dragão.

(10) No - yen, estritamente "receber relatórios". A primeira referência a um órgão de comunicação entre o governante e o povo. Em dinastias posteriores existiu sob várias denominações.

(11) Denominada a Regra de Shun. Nesse "Livro", o Ti, ou Governante, se refere a Shun.

(12) Esse Yü não é o mesmo da nota 11, mas sim o grande Imperador Yü, fundador da Dinastia de Hsi e sucessor de Shun.

(13) Yen Jô - chü, que procurou provar serem falsos todos os Textos Antigos, cita, a esta altura, uma passagem similar do Tsochüan para revelar a fonte da falsificação. A mesma prova poderá ser aduzida para demonstrar que os textos eram verdadeiros, porquanto o Tsochüan reproduz expressamente o Livro da História. Isso é típico do método de raciocinar de Yen e também de Hui- T'ung. Quase todas as passagens dessa peça remontam as passagens paralelas dos textos antigos (Tsochüan, Livro das Modificações, Laotse, Motse, Hsüntse, Analectos, etc.), a maioria dos quais as apresenta como citações do Livro da História.

(14) Shun, como o seu predecessor Yao, não deu o trono ao filho, mas sim ao melhor homem do reino, de comprovada capacidade. A sucessão hereditária teve com o filho de Yü.

(15) Passagem paralela existe numa citação do livro Shang Yang.

(16) Passagem paralela existe em Wang Ch'ung.

(17) Palavras exatas de uma citação do Livro da História (Livro de Hsia ), feita no Tsochüan.

(18) Veja-se o Laotse - cap. 22, 24. A mesma idéia é expressa em palavras idênticas.

(19) Passagem paralela existe no Hsüntse.

(20) O Analecto atribui essa citação ao Livro da História.

(21) Essa idéia muito interessante e sensata se encontra igualmente no Grande Plano noutra parte do Livro da História, da coleção do Texto Moderno.

(22) Outra interpretação é de trinta dias.

(23) Passagem paralela no Livro das Modificações.

(24) O perverso pai de Shun. Narrativa paralela, com mais pormenores, no Mêncio.

(25) Como exemplo de mau raciocínio utilizado para provar a falsificação do Texto Antigo, posso citar o caso presente, no qual Hui e Yen perguntam com impaciência: se os Miaos estavam pacificados, por que houve mais tarde outra expedição. O bom senso deveria perceber que não são de modo algum pouco comuns as revoltas periódicas e repetidas de aborígenes pacificados. Nada provam argumentos desse tipo.

(26) Ministro da Justiça durante o governo do Imperador Shun.

(27) Idéias como esta, comuns no Livro da História, inspiraram Mêncio na sua teoria do "governo benevolente". Mêncio citou o Livro da História em tal extensão, que estamos justificados ao afirmar que esse livro foi a fonte das suas idéias democráticas. As passagens que citou faltam, muitas vezes, no Texto Moderno e se encontram no Texto Antigo.

(28) A tradução de Legge segue, como de costume, os comentadores Tang e Sung. Essa interpretação confucianista não é justificada pelos comentadores de Han, como Cheng K'ang- Ch'eng nem pelo próprio texto.

(29) Esta tradução é bem má e inexata. Deveria ler-se: "O Céu ouve e vê através dos ouvidos e dos olhos do nosso povo. O Céu exprime a sua desaprovação através da desaprovação expressa do nosso povo". Compare-se a expressão quase análoga na citação da Grande Declaração, feita por Mêncio.

(30) Conforme o Texto Antigo, aqui termina o documento, ao passo que o Texto Moderno o incorpora a outro documento (Yi e Chi), não reproduzido neste volume.

(31) Imperador T'ai K'ang, que reinou de 2188 a 2160 a.C., tinha cinco irmãos que se revoltaram contra ele. Os críticos não abraçam a idéia do fratricídio, do ponto de vista moral, e a utilizam como argumento a favor da teoria da Falsificação dessa peça".

(32) O Rio Amarelo.

(33) O seu avô.

(34) Citação feita num comentário do Kuoyü, por Wei Chao (204-273 d. C.) tal qual existe no Livro de Hsia, demonstrando que Wei Chao conhecia esse texto, isto é, que esse texto existiu e não era desconhecido antes de Mei Cheh o "falsificar" subitamente, no século seguinte.

(35) Huainantse (178 - 122 a.C.) diz: "O povo está para o Estado assim como os alicerces estão para os muros da cidade".

(36) Citações existentes no Tsochüan e no Kuoyü.

(37) Narrativa das afirmações de Yü, contidas no Chankuots'eh.

(38) "T'ao T'ang" é a denominação da regra de Yao.

(39) É inteiramente injusta a acusação de Yen de que "não existe suficiente rima nessas canções".

(40) O Imperador T'ang (reinado de 1783-1764 a. C.), fundador da Dinastia de Shang, havia justamente derribado Chieh, o último imperador de Hsia e regressado à capital. Nesta proclamação destinada a solicitar o apoio dos príncipes e do povo, encontra-se, pela primeira vez, a famosa teoria do mandato do Céu, segundo a qual o governante governa o povo para o bem desse povo, conforme o mandato do Céu. O direito de revoltar-se, em contradição com a doutrina da lealdade ao monarca, a princípio tornou perplexos os Confucianistas. Essa teoria foi a resposta. Mêncio a desenvolveu plenamente.

(41) Citado por Hanfeitse, como afirmação de Confúcio.

(42) Passagens paralelas existem no Tsohüan e no Kuoyü.

(43) Mêncio afirma que um governante, quando desgoverna, é um ladrão comum. A tradução de Legge - "povo inferior", por "povo que está aqui embaixo" (isto é, na terra), é positivamente errada.

(44) Citação existente nos Analectos, no Kuoyü, no Motse e no Shiki. Não existe no Discurso de Tang (Texto Moderno). Num caso como esse, Yen argüe que Tang fez essa afirmação; entretanto, ela deveria ainda ter sido registada nalgum Texto Antigo perdido e não no atual, espúrio.

(45) Yi Yin, exasperado diante da conduta do jovem rei havia se retirado para o campo, em sinal de protesto.

(46) Esta frase existe no Shiki, como citação deste documento.

(47) Palavras exatas empregadas por Mêncio e encontradas no Liki, como citação deste documento.

(48) Todo o espírito da história chinesa demonstra que os imperadores só foram refreados contra o abuso do poder pelos sábios conselheiros e pela opinião pública. Nenhum chinês jamais pensou em restrição legal (constituição) como coisa distinta da restrição moral. Assim, o desenvolvimento da maquinaria democrática foi essencialmente diverso. Os moldes das idéias políticas chinesas já estavam estabelecidas no Livro da História.

(49) O Tsochüan o transcreve como citação do Livro da História.

(50) Palavra comum para designar Deus, Shangti.

(51) Passagem paralela no Liki.

(52) Essa afirmação se repete noutra parte do Livro da História (Príncipe Shih Texto Moderno) e nas Grandes Odes do Livro da Poesia. Quanto à expressão appointnments - "nomeações" - leia-se "mandatos".

A idéia é que o direito de governar pode ser facilmente perdido pela má conduta.

(53) Deveria ler-se: "recebeu o claro mandato do Céu".

(54) Paralelo nos Analectos.

(55) Ponto de grande discussão (cinco ou sete escrínios) entre os estudiosos do Texto Antigo e do Texto Moderno, apontado como prova de que Wang Shu falsificou esse livro.

(56) Citação existente no Kuoyü, do Livro de Hsia.