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Shujing, Extratos do Livro das Histórias [01]

Introdução

I - Documentos da História Chinesa

Muitos absurdos têm sido afirmados sobre a democracia ou a falta de democracia chinesa. Referem-se geralmente à maquinaria democrática de governo, funcionando numa típica república moderna a exemplo dos Estados Unidos da América, ou a tomam como padrão de julgamento (com a campanha eleitoral, o sufrágio, o controle do Congresso sobre o Presidente, etc.). Não se referem ao verdadeiro governo do demos. Por outro lado, quando falamos em democracia como estilo de vida e no espírito da democracia, é muito fácil refugiarmo-nos em expressões gerais como "liberdade" e "dignidade do indivíduo", coisas que são relativas, na sua totalidade, na América moderna como na China antiga.

Ainda acredito que a definição de Abraão Lincoln seja a melhor. Tomando-a como padrão, sou forçado a concluir que nós desenvolvemos, de maneira bem explícita, na antiga China, a idéia do governo para o povo, consentido pelo povo e não a do governo pelo povo e do povo. Por outro lado, considerando a democracia um largo ideal humano e não uma forma do maquinário político, encontro estas estranhas características: o temperamento chinês é o democrático; na realidade, a manutenção da paz e da ordem no país não depende do governo ou dos militares, mas, na proporção de noventa por cento, do auto-governo do povo; o ideal, desde a desastrosa experiência de totalitarismo do Primeiro Imperador dos Ch'in, no final do terceiro século a.C., tem sido sempre o de deixar o povo sossegado; o laissez faire tem sido a política fundamental; tem se verificado que nenhuma outra política lograria êxito; o grande império chinês foi sempre governado sem polícia; o governo da força foi posto de lado há muito tempo, por impraticável e jamais tentado desde os dias do Imperador Ch'in, a função da lei tem sido sempre negativa e o povo considera uma vergonha ir aos tribunais; não existem advogados; os soldados são desprezados e empregados por bandidos rivais em luta pela posse do império, nas épocas de caos, nunca merecendo confiança entre o "civil" (wen) e o "militar" (wu), tendo aquele sempre precedência sobre este.

Do lado positivo, venho que a sociedade chinesa, desde a Dinastia de Han, tem sido sempre uma sociedade verdadeiramente sem classes. A abolição do sistema feudal da Dinastia de Chou e dos direitos de primogenitura, durante a de Han, tornou impossível a existência da aristocracia como classe. O serviço de seleção dos exames Imperiais, existente aproximadamente há 1500 anos, agiu no sentido de constituir uma classe governante de intelectuais, em constante mudança, e assegurou a ascensão do talento do país. Ninguém, nem mesmo o filho de um mendigo, foi jamais impedido de prestar os exames, desde que possuísse talento e nenhum rapaz talentoso, rico ou pobre, foi esquecido pela sua aldeia quanto à instrução para elevar-se àquela classe governante de intelectuais. Por conseguinte, qualquer um poderia tornar-se Primeiro Ministro, ou, como diz o provérbio chinês - "Não existe sangue de Primeiro Ministros ou de Generais". A doutrina do direito de revolta foi aperfeiçoada desde os primeiros dias, conforme se verá da subseqüente seleta do Livro da História e do Mêncio. Baseia-se na teoria do "mandato do Céu", segundo a. qual o governante governa na qualidade de mandatário do Céu e para o bem-estar do povo; e, se desgoverna, perde automaticamente o direito de governar. Quando Mêncio foi interrogado por que motivo, em contradição com a teoria da lealdade e obediência ao monarca, o Imperador Wu se revoltara contra o tirano Chou e derribara a Dinastia de Shang, a sua resposta foi que o rei, pelo seu desgoverno, era um ladrão comum. A teoria do "mandato do Céu" constitui, na realidade, a característica saliente de todo o Livro da História. Corolário dessa teoria é o fato do mandato mudar constantemente e de nenhum rei poder julgar-se em segurança." O favor do Céu não se conserva com facilidade; é difícil confiar no Céu". Essas afirmações abundam no Livro da História e no Livro da Poesia. Neles existe sempre a ameaça de rebelião, e a palavra "revolução" em chinês (kehming) significa "mudar o mandato. Por conseguinte, o direito divino dos reis se tornou coisa muito pouco segura ou digna de confiança. O monarca só era absoluto em teoria; o sistema dos censores imperiais - nomeados para censurarem não o povo, mas o próprio Imperador e os funcionários - era bem definido e evoluído. Na História da Imprensa e da Opinião Pública na China (Universidade de Chicago) indiquei os exemplos em que certo Imperador não pôde sequer fazer à vontade uma viagem de recreio ao sul, outro não pôde nomear Príncipe da Coroa o filho da concubina favorita e a luta entre o monarca e os censores e intelectuais se arrastou durante dezesseis anos [1] . A idéia da importância da opinião pública se articulava à censura. Nos verdadeiros primórdios da civilização chinesa, no reinado de Shun (2255-2198 a C.), o ministro Kao - yao afirmou: "O Céu ouve e vê através (dos ouvidos e dos olhos do nosso povo). O Céu exprime a sua desaprovação através da desaprovação expressa do nosso povo; existe essa relação entre o mundo superior e o inferior - fazendo, assim, da voz do povo a voz de Deus". Na Grande Declaração, igualmente (1122 a. C.), o Imperador Wu assegurou às suas hostes: "O Céu vê através dos olhos do meu povo; o Céu ouve através dos ouvidos do meu povo". Essas afirmações foram mais tarde desenvolvidas por Mêncio e tornaram-se a filosofia de governo dos funcionários e historiadores da Corte. Assim foi sempre um dogma cardeal "manter abertos os canais da palavra". Nos seus fundamentos existia o conceito de que o povo e o governante eram complementares na estrutura do estado, encontrado em vários trechos do Livro da História e ulteriormente desenvolvido por Mêncio. Mêncio afirmou, ao considerar os diversos elementos do estado: "O povo é o mais importante, os espíritos do estado são o segundo e o governante o menos importante de todos". Como o livro de Mêncio era leitura obrigatória na totalidade das escolas, todos os alunos aprendiam esse axioma desde a infância e tinham que decorá-lo. Mêncio desenvolveu ainda mais a teoria da igualdade de todos os homens: "Os Sábios são da mesma espécie que nós. Todos os homens podem ser Yao ou Shun (“imperadores Sábios ideais"). E como descobriram os chineses tudo isso? Graças ao bom senso.

A evolução peculiar da democracia chinesa só poderá ser compreendida se remontarmos às primeiras fontes das idéias chinesas. A razão pela qual os chineses jamais desenvolveram a forma parlamentar de governo, a eleição dos governantes e os direitos civis, tornar-se-á evidente através de qualquer estudo atento do Confucionismo. Serão visíveis as características do Confucionismo na fusão da moral e da política ("governo benevolente"), o realce da harmonia política, a ausência total de qualquer idéia de "luta" entre o governante e o súdito, ou em qualquer esfera. Deve ser recordado que a base filosófica do governo parlamentar é desconfiar do governante. Na sua expressão de conjunto, o Confucionismo implica uma confiança ingênua nos governantes, quase tão ingênua como a idéia de que o verdadeiro governo do demos já se tenha tornado realidade. De fato, eu caracterizaria o ideal político confuciano estritamente como anarquismo, em que a aspiração é a cultura moral do povo, que torna desnecessário o governo. Se for indagado por que o povo do Bairro Chinês de Nova York nunca tem a menor utilidade para a polícia a resposta será Confucionismo. Durante quatrocentos anos, jamais existiu policia na China. O povo teve que aprender a regular a vida em sociedade e não fiar-se na lei. Esta seria o recurso dos patifes.



II - O Livro da História

A importância do Livro da História (Shu King) é fundamental. Está para o Confucionismo assim como os Upanishads estão para o Hinduísmo. A sua relevância básica decorre não só do fato de conter os primeiros documentos históricos e os primeiros escritos chineses, como também porque encerra profunda sabedoria moral, fonte primária das idéias Confucianas. Confúcio foi exatamente um historiador, empenhado na pesquisa histórica e falou de si mesmo antes como um transmissor do que um inovador. Tinha paixão pela história. Depois de ler o Livro da História, podemos compreender como se originaram as idéias Confucianas, inclusive o dom de moralizar, de Confúcio. Um intenso estudo de Mêncio revelará igualmente que ele foi conhecedor ao extremo do Livro da História e freqüentemente o citava em abono dos seus argumentos. Toda a idéia do "governo benevolente" (expressão que teve início com Mêncio e não ao tempo de Confúcio), desenvolveu-se através do Livro da História. Uma leitura da Grande Declaração, feita ao acaso, o tornará manifesto. Analogamente, as idéias do "governo paternal", da importância do exemplo moral, do "mandato do Céu" e de que a voz do povo é a voz de Deus - todas aí estão.

Os documentos que se referem de maneira mais direta às idéias e princípios democráticos são: A Posse em Comum de Virtude Pura, a Grande Declaração e a Proclamação do Duque de Shao.

O presente trabalho é uma coletânea de importantes discursos e declarações proferidos em momentos históricos ou cerimônias, como as palavras a um exército, no dia da batalha ou a um povo subjugado, após a conquista; palavras a uma população, ao consagrar-se uma nova cidade, discurso de um ministro chefe, ao renunciar ao cargo, etc. Quanto à forma, consiste em "Declarações", "Proclamações", "Conselhos", "Instruções" e o registro de importantes conversações de sábios governantes ou conselheiros de estado. Esses notáveis discursos, como as palavras de Getisburgo, de Lincoln, foram conservados por escrito desde os primeiros tempos. Existe uma obscura tradição de que eram cem peças. Como quer que seja, a exemplo da coleção Liki, passaram pelas mãos de Confúcio assim como a publicação do Livro da Poesia foi por ele dirigida, tornando-se um dos clássicos ensinados e estudados pelos sábios Confucianos, quase como a sua especialidade. Deve ser recordado que a Escola confuciana, distinguindo-se das outras foi, sobretudo, uma escola histórica. É difícil dizer quantos desses documentos existiram; é certo, porém, que foram muito mais do que as vinte e oito ou vinte e nove peças transmitidas por Fu Cheng, no Texto Moderno, no começo da Dinastia de Han. Citações deste surgem a cada passo nas obras dos filósofos dos séculos posteriores a Confúcio. Só o Tsochüan possui sessenta e oito citações, vinte e cinco das quais se encontram no fragmento do Texto Moderno e a maioria do restante no fragmento do Texto Antigo.

No texto padrão, tal qual existe atualmente, há cinqüenta e oito peças (contando-se as subdivisões), trinta e quatro das quais são comuns a ambos os Textos, ao passo que vinte e quatro se baseiam apenas no Texto Antigo. Foi essa divisão que originou a grande controvérsia sobre a autenticidade do fragmento do Texto Antigo.



III - Da autenticidade do texto Antigo

Não cabe aqui a discussão plena e exaustiva das provas pró e contra o Texto Antigo do Livro da História. Desde que, entretanto, a presente seleta inclui mais documentos desse Texto do que os comuns ao Texto Moderno e a ele; e como alguns dos melhores trechos estão no fragmento do Texto Antigo, considerado apócrifo pela maioria dos intelectuais da atualidade, um breve e esquemático esboço das razões da inclusão desse fragmento será apresentado ao leitor amigo.

A. Que são o Texto Antigo e o Texto Moderno? - Quando o primeiro Imperador Ch'in queimou os livros Confucianos, em 213 a.C., foi destruída a sua maioria. Ele faleceu ao cabo de três anos, em 206 a.C. Viviam ainda muitos velhos sábios, que tinham decorado os textos. A simplificação da escrita ocorrera durante o reinado de Ch'in, por ordem de Li Sze, e os sábios começaram a redigir o que se lembravam, na "Escrita Moderna". Cada versão particular dos clássicos Confucianos possuía a sua tradição especial de interpretação, transmitida quase religiosamente de professor a aluno. As descobertas de escritos antigos continuaram, então, a vir a lume. A mais importante foi o achado desses textos nas paredes da casa de Confúcio (evidentemente aí ocultados durante a perseguição), quando o Príncipe de Kung de Lu começou a demoli-la, para reconstruir um templo melhor a Confúcio. Esses textos foram denominados os "Textos Antigos". Desenvolveu-se, então, uma tradição à parte, relativa ao texto e à interpretação. Essa divisão entre as duas tradições concerne não só ao Livro da História como também a todos os outros clássicos Confucianos. Deve ser igualmente lembrado que os Textos Antigos, que os intelectuais modernos procuram desacreditar, incluem textos padrão, como o Tsochüan e o Livro da Poesia, de Mao, ainda hoje os nossos escritos sagrados geralmente aceitos.

O ataque à tradição dos Textos Antigos começou com o dirigido contra o Livro da História. A primeira formidável investida contra a sua autenticidade foi lançada por Yen Jochü, no século XVII, logo seguido por Hui Tung. Nos séculos XVIII e XIX, esteve em moda atacar os Textos Antigos dos diferentes clássicos, um após outro, em parte no concernente ao texto e, principalmente, no que se referia à interpretação das antigas instituições. Esses intelectuais da escola dos Textos Modernos prosseguiram na cruzada e se dedicaram aos áridos estudos do "rameloso" Kungyang e do "deformado" Kuliang, de preferência à rica obra-prima - o Tsochüan e às versões de Ch'in, Han e Lu, do Livro da Poesia, de preferência à de Mao. O Chouli foi considerado apócrifo. Os resultados foram mesquinhos ao extremo. Investigou-se a quem cabia a culpa da falsificação, remontando-se até Wang Shu ou Liu Hsin. Finalmente, o ataque culminou na afirmação global e indiscriminada de K'ang Yuweu, o moderno reformador ligado às reformas de 1898, que declarou ter sido o próprio Confúcio quem falsificou todos esses livros para emprestar às suas doutrinas um ar de Antigüidade!

B. Cronologia dos Remanescentes do Livro da História. - É a seguinte a cronologia dos fatos que concernem aos remanescentes dos dois textos do Livro da História:

Terceiro século a.C.:

Ao tempo de Confúcio (sexto século a.C.) sabia-se que haviam existido aproximadamente cem peças, ou menos, segundo tradição relativamente recente. Em 213 a.C., durante a queima dos livros Confucianos, a maior parte dos seus exemplares foi destruída; muitos, porém, foram ocultados. Entre Confúcio e a queima dos livros, inúmeros sábios citaram o Livro da História. Algumas peças poderão ter sido perdidas antes dessa época (haja vista a confusão no que se refere ao Liki).

Segundo século a.C.:

Com a derrocada dos Ch'in e o advento dos Han (206 a.C.), sete anos após a queima, o sábio Fu Sheng, que havia ocultado os seus livros numa parede, começou a retirá-los, com a falta de muitas peças e a ensiná-los a terceiros. Foi esse o Texto Moderno", de vinte e oito ou vinte e nove peças. Durante o reinado de Han Wenti (179-157 a. C.) ele ainda era vivo e contava mais de noventa anos. Sendo demasiado idoso para falar com clareza, a sua filha ensinou a um funcionário enviado à casa deles pela Corte. Devido à diferença de dialetos, afirmou-se que este perdeu de vinte a trinta por cento das explicações. A partir de Han Wuti (140-87 a. C.) a conservação e o ensino desse texto estiveram a cargo de um funcionário da Corte.

Entre 140 e 128 a.C., o Príncipe Kung de Lu demoliu a casa de Confúcio e descobriu os Textos Antigos de diversos clássicos. Um dos descendentes de Confúcio, K'ung Ankuo (que certamente viveu entre 156 e 74 a.C.) levou três meses para os ler, comparando-os aos Textos Modernos e apresentando-os à Corte; devido a alguns intrometidos, não foram oficialmente aceitos para efeito de conservação e estudo. São os Textos Antigos, constituídos de cinqüenta e oito peças. Afirma-se e nega-se que K'ung tenha escrito um comentário (o Comentário K'ung) e um prefácio. Szema Ch'ien, o grande Historiador e autor do Shiki (145 até antes de 86 a.C.) esteve com o próprio K'ung, viu os seus textos e os citou.

Primeiro século a.C.:

Chia K'uei (30-101 d.C.), Ma Yung (76-160 d.C.) e Cheng K'ang c'heng (127-200 d.C.) escreveram comentários ao Livro da História; Ma Yung, porém, afirmou não haver "absolutamente nenhuma tradição de professores" a respeito das dezesseis peças (ou vinte e quatro, com as subdivisões) do Texto Antigo. Cheng, entretanto, citou as explanações de K'ung e deu uma lista completa das cinqüenta e oito peças diferindo algumas do texto atual. Entre 25 e 56 d.C., perdeu-se uma peça (Wu - Ch'eng). Esses sábios se utilizaram também de um "volume" do Texto Antigo escrito a laca, descoberto por Tu - Lin, que viveu ao tempo de Kuangwuti (25-57 d.C.).

Terceiro século d.C.:

Wang Shu (159-256 d.C.) o "falsificador", contemporâneo de Cheng, escreveu um comentário ao Livro da História, discordando do de Cheng e concordando com o de K'ung, Huangfu Mi (215-282 d.C.) e Ho Yen (falecido em 249) também se utilizaram dos comentários K'ung nos seus trabalhos.

Quarto século d.C.:

No reinado de Yuanti (317-322 d.C.), Hei Tseh, Arquivista do Interior, apresentou ao Imperador um exemplar do texto K'ung, que é a nossa versão oficial, com cinqüenta e oito peças. A tradição Mei foi remontada através de cinco gerações até Chen Ch'ung, da época de Wang Shu. Mei foi acusado de haver falsificado o fragmento do Texto Antigo.

Quinto século d.C.:

O comentário Wang Shu e o comentário Cheng foram aceitos paralelamente, o de Wang preferido ao sul e o de Cheng ao norte.

Sexto século d.C.:

Na Dinastia de T'ang, K'ung Yingta (574-648) escreveu, por ordem imperial, o comentário (Chengyi) às cinqüenta e oito peças, incorporando os chamados comentários K'ung. Tornou-se o texto padrão do Livro da História, desde então até a presente data.

C. A Questão da Sua Autenticidade.

1. Intimidados com a vasta parada de erudição dos críticos, a maioria dos intelectuais modernos aceitou o Texto Antigo como apócrifo, no sentido de que o Texto Antigo atual não é o genuíno de K'ung Ankuo, de que certas subdivisões não se justificam e de que os chamados comentários K'ung não são os verdadeiros, embora geralmente dê crédito aos comentários Cheng. Os dois últimos pontos são menos importantes do que o primeiro. Yen Jochü julgou que o Texto Antigo deixou de existir no Chin Ocidental e que Mei Tseh foi o falsificador; Ting Yen, porém, julgou que o mesmo existiu no Chin Ocidental e que a falsificação foi de Wang Shu; e porque este era pai do sogro do primeiro imperador do Chin Ocidental, conseguiu impô-la aos sábios da época. Ting Yen, entretanto, concentrou-se em provar que os comentários K'ung não eram legítimos e que, além disso, K'ung jamais escreveu quaisquer comentários. Wei Yüan foi ainda mais longe, em 1855, atacando os comentários Cheng e Ma, asseverando mesmo que o próprio K'ung pertenceu à tradição do Texto Moderno e que, na realidade, não houve distinção entre as escolas do Texto Antigo e do Texto Moderno, no Han Ocidental. Essas teses contraditórias demonstram como são frágeis as provas das quais cada um deduziu as suas conclusões.

2. A despeito dos longos e eruditos trabalhos desses "críticos de textos", considera anticientíficos os seus métodos em face dos padrões da moderna critica de textos. Esses críticos (Yao Tsi - heng inclusive) combinaram enorme indústria acadêmica e erudição ao raciocínio impreciso, embora Hun Tung fosse aliás, intelectual extremamente exato e consciencioso, dos melhores da Dinastia Manchu. Deve igualmente ser recordado que os grandes sábios da época, Mao Ch'iling e Tuan Yuts'ai, não aceitaram a teoria e, mais tarde, Sun Hsingyen adotou atitude conciliatória. A questão deverá ser reaberta.

3. Hui e Yen argumentaram, ambos, dentro de um círculo. O fato principal é que existem centenas de citações do Livro da História nos antigos textos (Analectos Mêncio, Tsochüan, Shiki, Liki Motse, Hsüntse, etc.), que não se encontram nas vinte e oito peças (ou trinta e quatro, com as subdivisões) do fragmento do Texto Moderno. O argumento é que o "falsificador" colecionou essas citações e, com o auxílio de outras idéias e expressões antigas, teceu-as numa colcha de retalhos, apresentada como sendo os documentos perdidos do Livro da História. Hui Tung chegou a remontar às "fontes" dessas idéias, expressões e citações reais. Afirmou "nada haver de errado quanto às idéias". Yen afirmou não existir "uma única asserção importante (nos textos falsificados) que não tenha uma fonte antiga". Provou-se que o próprio emprego incidental de palavras foi consoante os antigos usos. Que demonstra isso?

4. É o seguinte o tipo de argumento. Eu examinei os quinze pontos de Hui Tung e verifiquei que nenhum procede, embora em cada qual ele tenha simplesmente chegado a uma conclusão cautelosa e céptica. Se Mêncio fez uma citação do Livro da História e a mesma não se encontra no Texto Antigo, eles dizem: "Veja, eis a fonte da falsificação". Se as palavras da citação não concordarem plenamente, o Texto Antigo é acusado de as "corromper". Se Mêncio citou diretamente peças famosas como o "Discurso de T'ang" ou a "Grande Declaração" e as peças do Texto Moderno não contém essas citações, eles argüirão que, naturalmente, o Texto Moderno atual é incompleto quanto a essas peças ao passo que afastarão, como destituída de importância, a evidência de que as citações existem na "Proclamação de T'ang" e na versão da "Grande Declaração" do Texto Antigo. A investigação em torno de certas palavras de uso geral é ainda pior; se o Tsochüan empregou certos adjetivos, como "sincero", em relação a determinada pessoa, esse adjetivo não pode ser empregado sobre a mesma pessoa pelo Texto Antigo, sem a acusação de ter sido tomado emprestado ao Tsochüan. Um dos capítulos do Liki, em certa frase, refere-se à Casa de Yin como sendo a de "Yi" e o Texto Antigo não deveria ter escrito Yi, ao passo que jamais foi posto em dúvida o direito do próprio texto do Liki assim proceder. Isso é argüir dentro de um círculo. O tipo de raciocínio impreciso mais utilizado, porém, é puramente subjetivo e anticientífico. Conforme o Texto Antigo, o Imperador Yü foi submeter os aborígenes (Miao) após Shun os haver expulsado. E os críticos exclamaram: se Shun os expulsara, por que o seu sucessor teria de lutar novamente contra eles? Além do mais, na qualidade de Imperador; deveria, antes, ter enviado o seu general. Eles querem esquecer que não são tão raras na história as repetidas revoltas de aborígines "pacificados". Conforme o Texto Antigo, foi proferido pelo Imperador Shun um discurso perante o exército; mas, dizem esses críticos, segundo o Texto Moderno, sabe-se que o primeiro discurso a um exército, no dia do combate foi o pronunciado pelo seu sucessor imediato, o Imperador Yü; por conseguinte, esse uso não deveria ter sido iniciado por Shun, que foi homem tão bondoso. A presunção de que o costume de dirigir-se aos exércitos tenha sido repentinamente inventado por Yü é arbitrária e destituída de fundamento. Se, numa peça do Texto Moderno, descreve-se Yao a oferecer o trono à Chi e a Ch'i, o fato de Yao ofertar o mesmo trono também a Kao- yao (na peça do Texto Antigo) seria, nesse caso, prova de falsificação. Isto é, Yao poderia ter oferecido o trono sucessivamente a duas pessoas e não a três. Na realidade, Yao finalmente não o ofereceu a qualquer das três e sim a Shun. É sabido que uma certa música (Chiuko), segundo outras fontes antigas, só foi tocada pelo filho do Imperador Yü; - nesse caso, a menção, no Texto Antigo, do seu pai a tocar a mesma música é aduzida como prova de contradição com as fontes antigas. Não existe lei que proibia a um filho gostar da mesma música que o pai; e nenhuma prova de que a música tenha sido composta pelo filho depois do pai haver falecido. Na realidade, grande número de coisas referidas por Mêncio são precisamente tão "contraditórias" à tradição do Texto Antigo ou são igualmente acréscimos às informações nele existentes; entretanto, a autenticidade do Mêncio não é posta em dúvida. Tal é o tipo de raciocínio impreciso que me deixa não convencido.

5. A única das críticas verdadeiramente "textual", relativa a três palavras, parece muito melhor; mas se prende a mau raciocínio. Não se sabe se as duas palavras hsiang, "primeiro ministro" e lun, "discussão" existiram nos Cinco Clássicos. Abundam, entretanto, nos Analectos, no Mêncio e no Tsochüan. O argumento não é concludente. É realmente torcer a questão, no entanto, dizer que a palavra yieh (originariamente "serrote", depois "receio", mais tarde 'profissão liberal", "realização") possa ser empregada nos últimos significados no Liki, transmitido por Confúcio, e não possa ser usada nos mesmos significados, no Livro da História, também transmitido por Confúcio. Na pior das hipóteses, não se empregou palavra alguma que não fosse corrente ao tempo de Confúcio e Mêncio.

6. O "móvel" do crime está insuficientemente estabelecido. Diz-se que Wang Shu perpetrou a falsificação para apoiar as próprias interpretações contra as de Cheng. Na realidade, os comentários Wang dizem respeito, quase totalmente, ao fragmento do Texto Antigo. Wang poderia ter falsificado os comentários K'ung e não o próprio texto. Além do mais, os críticos, com o seu labor, provaram haver existido uma continuidade de tradição ao conservar o Texto Antigo, e dificilmente ocorreu um período no qual o mesmo tenha sido desconhecido ou haja desaparecido.

7. Não há dúvida que vários textos de todos os clássicos Confucianos existiram paralelamente (p. ex.: quatro versões do Livro da Poesia); que nenhum deles pode proclamar-se versão exata, completa e incólume; que houve corrupção dos textos, os Analectos inclusive, contém interpolações (usualmente no fim dos capítulos) ; e que o texto de Mei Tseh não faz exceção. Quatro séculos separaram Mei da descoberta do Texto Antigo, nas paredes da casa de Confúcio. É falsa a própria presunção de que tenha havido um único texto correto, incólume e intacto, transmitido por uma espécie de sucessão apostólica, antes da queima dos livros, de 213 a.C. De que maneiras sobreviveram todos os outros livros, Motse, Mêncio, Chuangtse, Ch'un Yüan, Hsüntse, Kuoyü e Tso-chüan? Poderia o próprio Confúcio possuir o texto original do Cânon de Yao, que tinha 1500 anos na sua época? É quase certo que foram introduzidas variantes e que houve redivisões pelo menos quanto a duas peças. Redivisões e interpolações são parte integrante da história dos textos mais antigos. Interpolações e redivisões, porém, são coisa diversa de falsificação. É também muito possível que os atuais comentários K'ung possam ter sido falsificados por Wang Shu ou por qualquer pessoa.

8. Permanece de pé o fato de que eliminar o fragmento do Texto Antigo do Livro da História deixaria inexplicadas centenas de citações dele feitas, especialmente quando uma citação nomeia o titulo de determinada peça e conferimos a mesma citação com o Texto Moderno. Quando Shun Hsingyen (1753-1818 d.C.) procurou dispensar-se do Texto Antigo e restaurar a Grande Declaração, o resultado foi ridiculamente mesquinho quanto ao conteúdo, faltando as melhores citações dessa peça. Permanece de pé o fato de que o fragmento do Texto Antigo contém os trechos mais ricos da obra; e, não obstante o argumento de que a nossa atual cópia não seja a original, encontrada nas paredes da casa de Confúcio e sim qualquer uma das várias cópias achadas mais tarde, ou ainda a mera colcha de retalhos posterior, a maioria das suas passagens, graças aos próprios esforços dos críticos, provou haver existido como parte integrante do Livro da História, citada noutros trabalhos cuja autenticidade não é posta em dúvida. Mesmo como colcha de retalhos de tais citações, é obra de compilação extremamente útil. Mais do que isso, porém, o Texto Antigo contém não só citações diretas como também outras matérias e idéias, na fraseologia dos tempos antigos; as peças possuem boa continuidade, existindo evidência interna da sua autenticidade; as próprias rimas são antigas. É exemplo de trabalho de tanta capacidade, que conseguiu iludir os sábios durante mais de 1300 anos e deve ter exigido um labor sobre-humano. Eu gostaria que aqueles críticos experimentassem tal empresa de falsificação; o próprio Confúcio recuaria diante da tarefa. Finalmente, nada existe, quanto às condições do texto, que não possamos esperar de um escrito daquela data e que, de fato, verificamos ser verdadeiro com relação aos Analectos e ao Liki.

9. Por conseguinte, enquanto estiver pendente a reabertura da questão, o leitor poderá ao menos considerar que aquelas passagens do Texto Antigo, apoiadas em citações encontradas noutras fontes antigas, a exemplo do Mêncio, hajam certamente existido como parte integrante do Livro da História, porque Mêncio o afirmou. Nas anotações, só procurei indicar as fontes de apoio das passagens que julgo importantes. Através dessas notas o leitor fará uma idéia da natureza dos argumentos pró e contra o Texto Antigo. Incidentemente, se o leitor desejar recolher as afirmações democráticas mais importantes deste trabalho, terá apenas de assinalar nas notas dos rodapés.

Utilizei-me da tradução de James Legge, cujo estilo um tanto afetado e singular parece ajustar-se bem a esses velhos documentos. Fiz alterações somente na ortografia dos nomes próprios, para efeito de conformidade com a romanização Wade atual. Legge escreveria, por exemplo, o nome da Dinastia de Chou da seguinte maneira - "Kâu". A sua curiosa grafia se deve ao sistema ortográfico uniforme empregado na coleção dos “Livros Sagrados do Oriente” (Oxford, 1898-1906) e à sua pronúncia cantonesa.

Lin Yutang, 1941